Wednesday, 28 December 2016

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Monday, 26 December 2016

Last Christmas...


Resultado de imagem para george michaelEu tinha 15 anos e as paredes do meu quarto não deixavam antever uma lasquinha de tinta. Por todo o lado, posters do George Michael, quase todos, relíquias encontradas no interior da Bravo, uma das poucas revistas que comprava com regularidade.A porta do quarto era o espaço reservado à Madonna com a sua saia de folhos, laçarote no cabelo e crucifixos nas orelhas,imagem oficial do videoclipe "Like a Virgin". Uma das laterais do roupeiro era lugar de repouso de Simon Le Bon, o fofuxo vocalista dos Duran Duran. Mas à minha volta, o espaço livre deixado pelos móveis,não podia ser preenchido por outro que não o Michael, o rosto mais bonito e sexy que alguma vez vira, na época um inspirador de suspiros que só viria a desapontar-me quando se confirmou a sua homossexualidade. Lembro-me de ter ficado tristíssima quando descobri que o mais provável era que ele nunca olhasse para mim, não por eu ser uma anónima de quem ele não suspeitava sequer a existência, mas porque eu era rapariga. Que me perdoem os inquisidores dos devaneios da adolescência, mas que ele era bonito era e embora a paixoneta me tivesse passado, as músicas ficaram para sempre e a minha favorita era "One More Try". 
2016 levou-me quase todas as referências musicais, não lhe perdoo que me tenha levado mais esta. 😪




Friday, 23 December 2016

Feliz Natal!

"Natal. E, só pelo facto de o ser, o mundo parece outro. Auroreal e mágico. "

Miguel Torga

                       

Thursday, 22 December 2016

Quase Natal


São 6 e meia da manhã. Ainda não dormi. Na rua chove copiosamente e a casa está fria. É Dezembro. Quase Natal. Adiei por mais um dia a compra de meia dúzia de presentes, mas deambulei pelo centro comercial da cidade. Observei a azáfama das lojas cheias de clientes, as mãos ansiosas a passarem cartões de crédito nas caixas, a carregarem sacos, embrulhos, roupas, perfumes, telemóveis. 
À mesma hora em que um rapaz encorpado, esculpido por muitas horas de ginásio, passava por mim com um LCD debaixo do braço, rebentava mais uma bomba em Aleppo. À mesma hora em que uma mãe indicava ao empregado da loja que queria um embrulho bonito para o novo iphone da filha adolescente, mais uma dezena de miúdos na Somália sucumbia à desidratação, desnutrição e falta de vacinas. À mesma hora em que um grupo de raparigas exibia orgulhosamente os vestidos para a festa de fim de ano, acabados de comprar na Stradivários, o Washington Times comunicava ao mundo que na Holanda, a eutanásia é oferecida como cura para o alcoolismo. À mesma hora em que me sento para me deliciar com um calzone carregado de queijo derretido e pepperoni, também leio no feed do Facebook que na Síria, mães e pais preferiram matar as suas próprias filhas para evitar que elas fossem vítimas de estupro por membros do Daesh. 
É Natal. Eu estava a ouvir cânticos, observava as luzes multicolores, os brilhos das decorações natalícias e metia na boca mais uma garfada do meu calzone. Mas a notícia das meninas sírias assassinadas pelos próprios pais, tirou-me o apetite e o encantamento e colocou-me à frente a minha filha, a minha linda Mariana, e transportou-nos às duas para o meio das ruínas de Aleppo. E aos meus olhos, a minha menina, tornou-se vítima da má sorte por ter nascido em tão horrível lugar onde é preciso matar para não morrer, onde é preciso morrer para não sofrer a humilhação e a desonra. São quase 5 da manhã. A esta hora em Aleppo, como em tantos outros lugares do mundo, há quem passe indiferente ao nosso natal, noites inteiras ao relento, à chuva, na melhor das hipóteses ao abrigo de meias paredes, recantos que oferecem um tecto e um bocado de chão onde estender um velho cobertor. A esta hora, as mães de Aleppo acolhem os seus filhos nos braços, colocam-lhes as mãos sobre as cabeças, protegem-lhes os ouvidos do barulho ensurdecedor das bombas. As mães que não pregam olho, passam a noite a olhar os céus, atentas aos clarões dos bombardeiros, embaladas pelo ronronar dos estômagos vazios, os seus e os dos seus filhos. Pés calçados, prontos a caminhar rapidamente na direcção de outro refúgio se é o perigo que pressentem sobre as suas cabeças. É natal. E em França, onde também há natal, é ofensivo mostrar o dom supremo que é a Vida. Envergonham-se as mulheres que recusam fazer parte da eugenia e retira-se-lhes a bravura com que aceitam os seus filhos “diferentes” nos braços. Eu poderia continuar a escrever sobre todas as calamidades deste mundo, sobre todos os horrores que precisamente a esta hora estão a acontecer, atirando para o mais desumano desespero, milhares, milhões de pessoas em todo o mundo e quando acabasse, já seria natal outra vez, mas do próximo ano. Mas é natal e no natal o tempo é o de pensar na ceia, no bacalhau e nas rabanadas, nas luzes e nos enfeites, nos presentes e no orçamento que é preciso esticar para os comprar. Tanto apêndice para um natal que é apenas o aniversário de Jesus, o Homem que ensinou o Amor, a fé, a solidariedade, a simplicidade e o respeito pelo outro. O mundo está a abrir-se debaixo dos nossos pés e nós, ainda que nos sintamos no pedestal, estamos também a cair para o abismo, tal como as raparigas que os pais matam na Síria para não serem violadas pelos mercenários do ISIS, tal como os miúdos da Somália que morrem a revirar os olhos em busca de um pouco de pão…tal como…o tipo que está aí em baixo, a enrolar-se num pedaço de cartão à porta do vosso prédio. E vocês ainda acham que é natal? Não me FODAM! ISTO NÃO É NATAL! Isto não é Natal.

                            Foto de Ana Kandsmar.

Milagres

"Há quem diga que um dia ainda vai olhar para trás e rir-se de todas as adversidades. Eu acho que vou chorar. Talvez de alegria mas vou chorar, porque é inumano percorrer caminhos inóspitos, atravessar desertos e chegar em algum lugar melhor sem considerar que pequenos ou grandes milagres operaram na nossa vida. E não se ri de milagres."

Ana Kandsmar in Mar de Deus


Saturday, 10 December 2016

"Um romance mitológico de cortar a respiração, com muito suspense e emoções fortes."

Assista ao novo BookTrailer d'A Guardiã, O Livro de Jade do Céu. Agora com um preço especial antes de ir para as livrarias. Apenas 19 euros com oferta do portes de envio para Portugal Continental. Encomendas para o e-mail beedynamicbook@gmail.com!

Quem ainda não leu O Livro de Jade do Céu, leia aqui mais uma opinião de um leitor. 

Grata, Nuno Novo!


"Concluída que está a leitura do livro "A Guardiã - O Livro de Jade do Céu", como ficou prometido, e porque gosto de honrar os meus compromissos, cumpre-me, agora, emitir a minha modesta opinião.
Já de há uns tempos a esta parte, que o livro me tinha suscitado curiosidade. O título era (é) bastante apelativo para quem gosta de explorar no imaginário, campos da criação divina/mitológica.
As minhas expectativas iniciais, agora que está concluída a sua interessante e intensa leitura, não foram de modo algum, defraudadas. Antes pelo contrário.
Um romance mitológico de cortar a respiração, com muito suspense e emoções fortes.
Embarquei num "espectro de luz" e viajei por muitos dos lugares míticos da história universal.
Avalon e Camelot, com as suas lendárias personagens de Rei Arthur e Lancelot e a rivalidade pela disputa de Genneviere, a donzela que conquistou o coração de ambos.
Breve passagem pela Terra Santa e Palestina, sem esquecer a cidade de Petra e os seus deslumbrantes monumentos na vizinha Babilónia e Mesopotâmia.
Uma viagem pelo Renascimento e pela mão do artista Michellangelo, passando de igual modo, figuras e obras bem portuguesas. E claro, por Lisboa e Zona Oeste, em geral e Óbidos, em particular. Sem esquecer a sua ex-libris licorosa e claro, o comércio que a envolve e serve, em copinhos de chocolate.
A abordagem saudável e equilibrada à história da religião muçulmana, do seu profeta Maomé, e as diferentes interpretações do seu conceito.
Sem esquecer, uma viagem ao imaginário de James Murray Barry, e o mundo encantado de Peter Pan.
A abordagem a personagens bíblicas cirúrgicas, símbolos e rituais de adoração ao Demo. E com uma pitada de enigmas e charadas q.b..
Uma história de amor improvável, com ligeiros despertar de sensualidade.

Adorei. Muito!

Dan Brown, em o "Código da Vinci", aborda, também, este tipo de rituais de Ordens/Seitas, no caso em concreto, do Priorado do Sião. E o mítico Graal... afinal, a descendência Merovingia!
Ana Kandsmar, fiquei deveras surpreendido com a forma como conciliaste este emaranhado mitológico, e o descreves de forma tão ilustre e peculiar.
Afinal, o bem e o mal; a luz e as trevas; o Yin e o Yang; o certo e o errado; o dia e a noite; o calor e o frio; Deus e o Demónio, serão sempre indissociáveis!
Trouxe-me à memória uma frase que proferia muitas vezes a minha saudosa avó materna "o amor e o ódio, caminham sempre de mãos dadas, há que os saber equilibrar e controlar".
Voltando ainda à obra de Dan Brown, retenho algumas expressões que com alguma regularidade foram utilizadas, tais como "anuir" e seus derivados, "tamborilar" e "assomou-se".
De igual forma, neste fantástico e surpreendente romance, recorres com alguma frequência a termos como "aquiescer" e "excruciante". A tua percepção e a forma como revés o Outono e o descreves com tamanha objectividade no papel de Luana Kelman😉

Parabéns.
Adorei e recomendo vivamente a sua leitura."

(Nuno Novo)



Thursday, 1 December 2016

Já à venda!



À venda nas livrarias a partir de Janeiro.  Compre agora, enviando o seu pedido para beedynamicbook@gmail.com







in Mar De Deus

"Deixa que as tuas escolhas reflictam as tuas esperanças, não os teus medos."
Ana Kandsmar in Mar de Deus


Sunday, 20 November 2016

Confira aqui alguns excertos d'O Livro de Jade do Céu

                 
«Não receies as Gárgulas. Ao invés disso, entra. Atravessa o recinto que te leva à beleza das açucenas. Num dia em que não haja oração nem o burburinho das vozes que ressoam os cânticos, cruza o arregaço das cortinas que compõe o arco e contempla o céu das oito pétalas. No alto hás-de ver um Anjo. Um Anjo que segura o que não guarda. Colocar-te-ás no lugar dele. E eis que, estando tu no lugar do anjo, verás o que ele vê e guardarás e que ele guarda».

"Recuo à minha infância. Pronunciar aquele nome, Júlia, a minha tia Júlia, era voltar a sentir o cheiro do pão-de-ló acabado de cozer, o barulho repetitivo do pedal da máquina de costura, o sabor das fatias do pão caseiro com mel, o barulho do granizo a cair sobre o telhado de zinco da adega, as manhãs dos primeiros dias de Dezembro passadas a apanhar musgo nas várzeas que na Primavera se transformavam em pasto para as ovelhas. E os olhos doces. Os olhos doces da minha tia Júlia que pareciam sempre transbordar de amor e de bondade."



"Há anos que não vou ao Iraque. É uma loucura ir ao Iraque. Aquele país é um deserto retalhado por dois rios onde corre mais sangue que água. Ninguém quer ir ao Iraque. A menos que o faça por dinheiro. Vão os senhores da guerra, os heróis da guerra, os lunáticos da guerra, e os curiosos pela guerra. Os repórteres. Os contadores de histórias que nunca dizem a verdade. Contam apenas estórias. Eu sou arqueóloga. Não conto estórias. Conto a história. Já fui ao Iraque. Para encontrar vestígios do tempo em que o Iraque vivia em paz."


"A chegada à cidade de pedra é, tal como previsto, um regresso ao passado. Já experimentei a forte sensação da nostalgia em muitos lugares do mundo, e Petra não é diferente. Pelo contrário. A cidade arrancada das rochas parece ter o condão de me extasiar, de me deixar completamente rendida à beleza, ao misticismo, ao corredor do tempo que se abre perante os meus olhos, impiedoso e cruel. As palavras do velho Yeshua ressoam na minha mente e trazem-me de novo a imagem de Al-Uzza, humilhada, expropriada da terra, das gentes e da vida que um dia lhe pertenceram. Na terra que já foi minha, olhando, sentindo e absorvendo os aromas, crio a ilusão de que nunca antes soube da existência deste lugar."

"Os homens sonham secretamente com os apocalipses. Os bíblicos e os cinematográficos. O Day After que há-de vir carregado de novas possibilidades. Um Armagedom promissor, um desvio de rota que os leve a bater de frente com um pedregulho espacial ou que os conduza à entrada abrupta num buraco negro, de minhoca talvez, uma dobra no universo que os catapulte para os novos amanhãs tão diferentes de hoje. Secretamente desejam o fim. Invejam o jurássico e as eras glaciares. A hecatombe há-de salvá-los deles mesmos, qual arca a protege-los do dilúvio. A morte há-de salvá-los da vida."


"Kasbel murmura de novo qualquer coisa de ininteligível e o meu corpo gira no ar como se apanhado por um remoinho. Depois deixa-me cair. Por breves segundos, sou disparada para fora da couraça física que acolhe Eluaryne e vejo-a a ser lançada no chão. A violência do impacto suga-me de novo para dentro do corpo que é projectado a vários metros de distância. Sinto um ardor bárbaro no meu rosto quando ele raspa o solo."



“-É neste ponto que nos reunimos a Jonas e ao seu complexo, não é Michel? Jonas é alguém que tem asas para voar, que tem um desejo de espaço, um desejo de infinito, mas não tem coragem. Ele apara as suas asas, para continuar adaptado à sociedade na qual se encontra e que o proíbe de ir ao outro, de ir ao inimigo, de ir ao diferente, limitando-se apenas à dor da sua perda.”



“-Nero elevou-se aos píncaros da criatividade depois de ter posto Roma a arder! É verdade, ainda te lembras daquelas maravilhosas labaredas que arrasaram Cartago? Fui eu! Hiroxima e Nagasaki? Também fui eu! Tal como fui eu o criador das máfias, de todos os tipos de tráfico, da toxicodependência, da prostituição, violação, pedofilia. O Holocausto! Auschwitz! Ah, Auschwitz! Que maravilha da criação! Antes disso, o massacre de São Bartolomeu ou o genocídio arménio haviam sido brincadeiras de crianças! Adorei cada uma das minhas criações. A lepra, a cólera, a sida, os cigarros, as discotecas, o sexo anal, o adultério, os assassínios, as marés negras, os assaltos à mão armada, a indústria farmacêutica, o Heavy Metal! Mas Auschwitz... Ah, que saudades que eu tenho de Auschwitz!”

"Os meus olhos não se desviam do Mensageiro e avanço a cada palavra dele para o interior das minhas próprias memórias. Da teia do tempo que me separa daqueles acontecimentos trágicos, surgem ténues recordações. A princípio esmorecidas, embaciadas, como um espelho envolto em vapor. Imagens confusas como se emparedadas por um nevoeiro denso, que a pouco-e-pouco, se tornam claras e reais. O coração que me bate no peito acompanha-as, identifica-as e agita-se, galgando num pulsar crescente. Aquele corpo deitado no chão frio da cripta fora o meu. Foram minhas as roupas rasgadas, atiradas aos cantos escuros do aposento. Foram meus os seios desnudos e violentados, a carne suja e rasgada, a dor, a humilhação e por fim a perda."



"Os olhos do arcanjo passeiam pela divisão, apreciam o sofá largo, em forma de L e saltam deslumbrados para as serigrafias a preto e branco nas paredes. Todas elas retractam momentos únicos na história. Uma mulher que atira um cravo à espingarda de um soldado durante a revolução de Abril; um rapazinho mal vestido e sujo, perdido numa das ruas de Berlim, destruída pela guerra; o genial mestre do suspense, Hitchcock, fumando o seu charuto enquanto uma espiral de fumo branco parece querer evadir-se da moldura e ainda uma outra, cuja concentração de muçulmanos em plena oração em Meca, impressiona até o mais acérrimo dos ateus."




"Emudecidos perante o cenário deslumbrante que se desenha em frente dos olhos, os celestiais não se dão conta de que a minha transformação está prestes a começar. Continuo a ser o corpo humano que permanece ao lado deles, mas já não falta muito para que Eluaryne ocupe o meu lugar. Com calma e precisão, vou colocando por ordem cada uma das páginas do Livro de Jade do Céu. As minhas mãos movem-se devagar como se manuseasse um bisturi numa mesa de operações. Por vezes, a luz ténue da lua, revela fugazmente o esplendor da sua forma. Quando os reflexos dourados da nova energia se avolumam nas extremidades do meu corpo, olho para as minhas mãos e vejo-as cristalinas e brilhantes."

"O rosto do meu raptor é belo e fleumático. Os olhos daquele ser, forte e imponente, desviam-se dos meus para fixar Miguel e Mendel que continuam no chão. Com um desdenhoso estalar de dedos, põe fim ao meu grito e aperta-me contra ele. Encosta a boca no meu ouvido e sussurra num linguajar que eu não entendo. Sinto a minha pulsação acelerar. Vejo Miguel de espada em riste. A Justiceira brilha no escuro na direcção de Kasbel que se esquiva, colocando-se na minha retaguarda."
"Ele solta uma gargalhada. Um som metálico cortante, que me gela até aos ossos. A minha transformação ainda não está completa, mas a dor no meu corpo selado pelos braços do Arcanjo Negro, é um sinal de que fiquei num limbo. A meio de um caminho em que Eluaryne e o corpo de Luana estão perfeitamente fundidos, sem que haja qualquer hipótese de fuga para uma ou para outra. Assustada, a centenas de metros acima das cabeças de Miguel e Mendel, esvazio a mente na esperança de dar espaço a Eluaryne para que ela se escape para Kollob. Mentalmente, recito o Pai Nosso para deixar a minha mente em branco."

Ana Kandsmar in A Guardiã, O Livro de Jade do Céu

Friday, 18 November 2016

Amar as estrelas...



Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, 
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido 
tem o que dizem, quando estão contigo? "
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac

O maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal

"À minha frente estão duas gavetas onde só guardo tesouros. Coisas de muito valor. Uma tem pacotinhos de supari, masala tea bags, caixas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, um sari lindo, rendado, fiadas de flores de jasmim já secas e esboroadas e ainda um cd de Ravi Shankar. Um cd que quando toca, solta um som tão mágico e envolvente como só uma cítara pode ter. Um dia, eu hei-de morrer e a Índia, continuará a ser a Índia. Com ou sem dejetos e cadáveres que boiam indiferentes ao choque dos turistas, o Ganges e o Yamuna, continuarão a ser os rios onde já molhei os meus pés.
Na outra gaveta tenho postais ilustrados, fotografias que eternizaram momentos irrepetíveis, e alguns textos que fui escrevendo, inspirada pelas paisagens e pessoas que emprestam a alma àqueles lugares. Ainda hoje guardo tudo com a convicção de que se a minha casa sofresse um incêndio, seriam estes pequenos (grandes) tesouros que eu tentaria salvar a todo o custo. Quando tenho saudades da Índia, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros dos mercados enquanto a cítara de Ravi Shankar enche a casa. Quando é a nostalgia de lugares tão belos e indiscritíveis, preciso de olhar as fotografias. Afronto-as para me relembrar dos pormenores. Vejo os minaretes em Istambul e ouço-os verter para fora as vozes afinadas dos muezins. Vejo a Via Dolorosa impregnada de peregrinos que se misturam com muçulmanos e judeus, aytolas e rabinos, crentes e ateus. É assim Jerusalém. Um enorme templo de onde os vendilhões nunca saíram. Vejo um aborígene de pele escamada pelo sol, que sopra um didgeridoo ecoando o som harmonioso pelo deserto australiano com as Olgas como pano de fundo. O cenário mágico das ilhas de Pazcuaro, as pirâmides de Tikal, as ruelas estreitas de Varanasi pontilhadas de santuários… E preciso das palavras. Quando lhes sinto a falta, leio nas frases que brotaram cruas dos meus silêncios, o maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal."

Ana kandsmar in A Guardiã- O Livro de Jade do Céu

Sunday, 13 November 2016

Que livros vai comprar neste Natal?

Aproveite agora com um preço inferior ao das livrarias e oferta dos portes de envio!
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(Até 18 de Novembro!)

Friday, 11 November 2016

But you don't really care for music, do you?

Well I've heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
Well it goes like this:
The fourth, the fifth, the minor fall and the major lift
The baffled king composing Hallelujah


R.I.P, Cohen. Ainda bem que estiveste entre nós.

Thursday, 10 November 2016

O bicho papão que irá assombrar o telhado da Casa Branca

Já li artigos excelentes sobre as eleições americanas. A maioria, claro, mostrando perplexidade e temor pelo futuro que se adivinha impróprio para consumo independentemente de quem preside a uma das maiores potências do mundo.
O Trump não é nenhum santo e aliás, foi algumas vezes, irritantemente estúpido, chegando a revelar aquilo a que eu poderei chamar de alguma ingenuidade politica, o que até faz algum sentido, tendo em conta que o homem não vem da escola patrocinada pela Goldman Sachs, empresas petrolíferas ou as sinistras famílias detentoras da banca. Trump vem dos negócios. Por muitos considerado péssimo gestor, e aqui, dizem, com um historial duvidoso e pouco confiável. Aliás, não há realmente muito o que possa considerar de confiável em Trump, a não ser talvez, o facto de ele não ter saído de nenhum dos pântanos onde se habituaram a nadar todos os seus antecessores (o que é, a meu ver, bastante).
É por isso, nesta escala, genuíno. Tão genuíno que por diversas vezes abriu a boca para dizer o que muitos pensam mas não dizem. 
Na verdade os problemas de Trump não foram os comentários racistas ou xenófobos nem mesmo os misóginos. Desconfio até de que não houve propriamente um sentido jingoísta na sua acepção extremada, nem tão pouco sinais de misoginia (afinal, o mal de Trump parece-me ser precisamente o contrário. Ele gosta de mulheres e gosta muito.) O problema de Trump é ou foi, o de não medir o que diz. O problema de Trump foi ter-se esquecido de que um discurso bonito e politicamente correcto cai (quase sempre) irreflectidamente nas graças dos falsos puritanos e donzelas facilmente impressionáveis. Os discursos politicamente correctos têm sempre o condão de deslizarem correntemente pelos ouvidos adentro dos pregadores dos evangelhos, das igualdades e fraternidades, dos brandos e bons costumes, e todavia, são estes mesmos pregadores críticos de Trump que, para além de pregar, não mexem uma palha para colocarem em prática o que lhes sai na oratória. Importa no entanto, dizer que no que ao nonsense diz respeito, em Trump não há nada de novo. Veja-se Berlusconi ou Sarkozy, as escandaleiras, os discursos inflamados e nacionalistas (Órban, Boris, Farage), ou não venhamos a ter num futuro muito próximo com Marine Le Pen, que é cada vez mais, absolutamente elegível. E note-se que se estas figuras, estes arautos das mudanças radicais imergem, fazem-no respondendo à vontade inequívoca dos povos de romper com um sistema caduco, moribundo, cujo crédito é zero e o desgaste palpável. Já ninguém quer isto. Amargou.
Trump foi insolente durante toda a campanha e chegou a parecer um rapazola deslumbrado com a possibilidade de assentar arraiais na Casa Branca, é um facto. Ainda não sei se confio na sua retórica altruísta para o bem do povo americano. Todavia, confesso, mais do que a vitória de Trump, satisfaz-me a derrota de Hillary. 
Também é um facto que Trump é podre de rico. Não depende, ou pelo menos não dependeu até aqui dos tubarões da finança. E é por isto legítimo que subsista a dúvida: terá corrido à presidência para afagar o ego? Terá sido tudo por vaidade? Ou há mesmo uma vontade de esmurrar os poderes instalados? Quero acreditar que é esta última hipótese o motivo da noite de ontem. E se assim for, apenas por isso, já valeu a pena a vitória dele. 
O escritor Richard Zimler diz que Trump tirou a tampa da Caixa de Pandora "e toda aquela gente super conservadora, racista, misógina, homofóbica começou a pensar :‘já podemos falar em voz alta que não gostamos dos mexicanos, já podemos falar em voz alta que não gostamos dos judeus."
Quanta parvoíce diz o Sr. Zimler! Afinal em que raio de mundo queremos viver? Num mundo onde as pessoas não digam em voz alta que não gostam de mexicanos, judeus, muçulmanos, etc, ou num mundo, onde sejamos realmente capazes de gostar dos diferentes e aceitar as diferenças? Se Trump abriu alguma Caixa de Pandora, foi para precisamente escancarar a enormíssima mentira em que vivemos há várias décadas, desde que o multiculturalismo passou a ser moda, sem que nunca nos tivéssemos preocupado primeiro em aprender a olhar para o outro como queremos que o outro olhe para nós.
Não sejamos ingénuos. Para que se verifique alguma mudança, vamos precisar inevitavelmente de rebentar com o que está estabelecido. Eu não gosto do que está estabelecido. Temos um mundo péssimo, sem valores morais e éticos, rendido ao consumo, inebriado com a falsa aura de aceitação das diferenças, do multiculturalismo (tudo tretas), esmagados pela imigração em massa que só trouxe desequilíbrios. Estamos e assim continuaremos até que mais Trumps apareçam, asfixiados pelas consequências nefastas da globalização. 
A economia mundial não assenta, como seria o ideal, na prosperidade, mas sim na miséria dos povos. Assim não podemos continuar. Há que repensar e refazer (sem pés de barro) esse caminho da igualdade e da fraternidade entre os povos. Trump faz bem em querer derrubar esses mitos nos quais acreditamos hoje. Tudo isto é mentira e os americanos que votaram em Trump, perceberam-no. E se o perceberam, não é porque são mais burros, mais incultos, mais analfabetos, do que os que com maior preparação académica, mais viajados e mais jovens votaram em Hillary. Perceberam-no porque sentem na pele, todos os dias, as dificuldades da sua própria sobrevivência. Só espero que o recém-chegado à Casa Branca esteja à altura de abrir novos caminhos. Serão difíceis de trilhar? Serão. Desengane-se já quem pensa que é possível reconstruir sem destruir primeiro.




Wednesday, 9 November 2016

E então, eis a matéria de que sou feita:



 A(na)tomicamente predisposta à mudança, ao risco, e isto é, em primeira, segunda ou última instância, Viver. 
Primeiro que nada a queda. O salto sem pára-quedas no vazio, o embate doloroso na rocha nua, a dor, os rasgões, a alma a contorcer-se num oito. Depois, bem... depois há sempre uma brisa que me seca as lágrimas. Ressurjo do meu féretro, desenrolo-me como um bicho de contas que se abre e esperneia. Espeto o indicador a perceber a direcção do vento e sigo. Dorida. Sofrida. Mas avanço convicta de que ficar ali no meio da dor tem o seu tempo útil, e o tempo útil é apenas aquele que é usado para entendê-la, o tempo suficiente para dissecá-la, para esquartejá-la, esmiúça-la. No fundo, torná-la, não pequenina ou insignificante, mas transportável. Não há dor que não possa ser usada como um bom manual. Por isso, carrego sempre as minhas dores. Não ao alcance do meu coração, mas sempre na orla da minha mente. O aprendizado emerge delas e isso, apenas isso, dá significado a qualquer momento em que me sinto ruír, em que me sinto rasteira, derrotada. A dor acaba sempre por me ensinar quão bem vindo é cada minuto que eu tenha, algum dia, amaldiçoado.


Ana Kandsmar in Mar de Deus

A noite mais longa: nós, os "deploráveis", tínhamos razão!

Que se ponham os olhos na América. Oxalá Trump venha a ser o presidente que a América e o mundo precisam. Mas esta vitória é antes de mais, o grito preocupante da revolta de quem sistematicamente é deixado para trás, esquecido pelos ricos que ficam cada vez mais ricos. O mundo está a mudar, não haja duvida. Os poderes instalados, os partidários do sistema fraudulento e corrupto terão que ser corridos das suas redomas, onde têm, ano após ano, década após década, estado a salvo da miserável existência das maiorias. Eu, para já, aplaudo Trump.

A noite mais longa: nós, os "deploráveis", tínhamos razão

Foi, sem dúvida, uma daquelas mudanças que marcam o curso da história. Para quantos se deixam dominar pela sua subjectividade, gostos, inclinações e desejos, esta noite que mudou o mundo foi recebida com choque, surpresa, indignação e estupor. Tive imensos problemas por haver formulado a possibilidade da vitória de Trump.
Amigos houve que me chamaram tudo por alinhar aqueles argumentos de racionalidade que, afinal, coincidiam perfeitamente com a percepção que os norte-americanos exibem a respeito do descaminho do seu país e do mundo. Não querendo ser injusto, conto pelos dedos de uma mão - vá, concedamos, pelos dedos de duas mãos - o número daqueles que perceberam a corrente da história em movimento. É preciso um convívio assíduo com as dinâmicas sociais e históricas para perceber que nada acontece por capricho inopinado.
A hipnose induzida pela oligarquia e seus aliados e financiadores (a banca, os media, os think tanks do mundialismo e os agentes de desvairados experimentalismos que se deixaram enganar pelo conforto da ideologia) rompeu-se. A retribalização que quiseram impor à consciência de sociedades modernas, fomentando guerras e ódios (de género e de sexo, de geração, de raça, de religião, de classe) falhou, pois aqueles grandes agentes de socialização e integração que são desde sempre os pilares das sociedades e dos Estados-nações ( a lei e a ordem, a conformidade e a integração, a ideia do Mesmo e do estranho, a ideia de fronteira étnica, social, linguística, cultural económica) soaram a rebate perante a iminência de um desastre irreparável.
Deito-me, já um novo dia se preparara para despontar, feliz por não ter tido medo de encarar a história que se movimentava sob os nossos pés. Àqueles que comigo comungaram nesta percepção da mudança do eixo da história do nosso tempo - como, aliás, já o haviam feito no que respeita à Rússia, ao Brexit, às guerra na Síria, na Líbia e no Iraque - só posso lembrar que estávamos certíssimos. Aos outros que nunca se conseguem afastar do nível primário e emocional reactivo, que tudo psicologizam, fulanizam e que tudo transformam em caricatura, é tempo de iniciarem um caminho mais exigente, pois a história mudou hoje. Isto não se fica pelos EUA: amanhã será na Áustria, em França, na Escandinávia e na Alemanha.
O mundialismo arrogante parece ter sido inapelavelmente ferido, mas tentará certamente lamber as feridas e insistir na mesma receita que se mostrou iníqua para o povo americano, para os povos europeus e para os povos do Médio Oriente e da África, perante cujo sofrimento nos devíamos encher de vergonha. Hoje inicia-se a reinvenção política do Ocidente; hoje, triunfou a rebelião pacífica contra as más elites que trouxeram a crise financeira, a crise económica, as guerras de agressão, a manipulação por atacado de sociedades que se julgavam maduras. A paz parece ter triunfado. Haja Deus !

"Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente.A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social."

Palavras do MEC que poderiam ter sido minhas.

Thursday, 3 November 2016

O tal livro que brotou dos meus dedos...


Caros amigos e leitores, aqui está O Livro de Jade do Céu em pré-venda. Até dia 18 deste mês de Novembro, poderão adquirir aqui o livro a um preço promocional,( nas livrarias custará 22€, aqui poderão adquiri-lo por 19 com a oferta dos portes de envio.) Para pedidos basta que me enviem mensagem privada. Obrigada a todos. 

Sunday, 30 October 2016

Macumbas, Milongas e Mandingas



Eu, bruxa me confesso. 
Entro-te pela noite adentro e lanço-te mezinhas, rezinhas, avé marias e pais nossos, rogai por nós pecadores, abracadabra e transformo-me numa cabra. 
Eu, feiticeira me declaro. Acendo velas, queimo incensos, soletro mantras, enfeitiço-te, simsalabim e quero-te só para mim. Se te lanço feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilho no pescoço, se te rezo ao pai de santo é porque te encomendo os serviços de amor e prazer que há muito não me forneces. 
Por isso, baixa-te para que eu te banhe em águas turvas, e te segregue os fluidos biliosos que depois te dou a beber, para entrar à força dentro de ti. Não o faço por maldade, acredita. Faço-o somente para que não continues a despistar o branco das paredes da casa com o negro do nosso silêncio. 
Quero-te longe dessa outra que te circunda com trejeitos ordinários e as raízes escuras que fogem ao descolorante barato. 
Quero-te fora dessa cama onde te deitas à larga no vazio do meu corpo e longe, bem longe desse interesse que te consome e que te não deixa sentir livre, de pazes feitas com o que escolheste. 
Não sei o que sabe ela dos rituais mágicos que nos levam a dançar nos bosques em noites de lua cheia, nem tão pouco se te deita em círculos adornados com pentagramas e cera de abelhas a escorrer-te pelos cantos da boca. Mas tenho a certeza que não te viciou no sexo que queima de dentro para fora, nem no perfume de temperos exóticos. 
Ela bem que poderia zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos ou até mesmo ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, coser-te a boca com o veneno de promessas ou beijos peçonhentos. Mas de nada lhe serve entrar nas curvas ocultas das tuas artérias, nem tão pouco lhe vale aflorar-te a pele nos capilares. 
É verdade que essa outra com quem te deitas agora, te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou-te o coração que dantes batia por mim. 
Bem sei que não acreditas nessas coisas, que és de estudos e não de crenças, racionalista, epistemológico, matemático. Mas acredita que me basta querer-te e mal o diabo esfregue um olho faço-te correr por baixo de escadas, enquanto eu durmo com gatos pretos e me vejo quebrada em espelhos partidos. 
 Por agora espreito-te na bola de cristal e encontro-te no livro das sombras. Mas atenta bem no que te digo: Basta que eu queira. Basta que a minha vontade cresça como o musgo nos telhados velhos para que voltes a cair nas teias esculpidas do meu corpo. 
Tão certo beberás do meu cálice, como voltará a ser minha a tua varinha. Mágica. A que tens entre-pernas. Nunca te disse, mas sim, sou bruxa, sou maga, sacerdotiza, deusa de um templo pagão, conjuro-te, encanto-te e prendo-te (n)o coração.


Saturday, 22 October 2016

Insistir, persistir e nunca desistir.


Reescrever, reeditar, aguardar pacientemente a elaboração das paginações, das capas, os textos finais, e todos os pormenores que nos fazem acreditar piamente que "É isto!", que o trabalho está bem feito, que nos orgulhamos do que fizemos e do que fizeram todos aqueles que apostaram em nós e trabalharam connosco até ao surgimento do resultado final, tudo isto é parte de um caminho que só entende quem o faz. 

Eu sou hoje novamente uma criança em véspera de Natal. Eu sou hoje novamente a mãe babada de um filho renascido. Em breve tê-lo-ei nas minhas mãos. Em breve, cada um de vocês poderá tê-lo na vossa mão.
Quero que fique bem claro: Escrevo apenas, porque se não o fizesse não seria eu. O meu ADN está impregnado de textos, histórias e é-me de todo impossível não as deixar sair pelas pontas dos meus dedos. Se a vida não me tivesse permitido aprender a escrever, teria hoje de as contar, talvez à volta de uma fogueira. 
Sei que a edição anterior não foi um sucesso de vendas. Sei que muito provavelmente também esta não o será. Há demasiados factores a ter em conta para que um livro se venda e o primeiro de todos é o meu nome. Não sou ninguém. Mas sou, e sou-o convictamente, uma lutadora nata que acarinha cada um dos seus sonhos e cuida para que as adversidades da vida não os mate. 
Conto convosco, não para me levarem em ombros, mas para me darem o beneficio da dúvida. Escrevi esta história com todo o amor de que fui capaz. Reescrevi-a redobrando a intensidade desse amor. Coloquei o meu mundo interior aqui. É aqui que eu vivo enquanto muitos de vocês dormem e eu fico sozinha com um teclado de computador. Aqui, neste mundo que transpus para a história da Luana, só há possibilidades. Há um mundo que se renova e revela. Não é uma verdade. É, como disse, possibilidade. Que sejam vocês os justos avaliadores da beleza desta possibilidade, e se gostarem dela, lutem para a tornar real.
Lá para o fim de Novembro, a Guardiã bate de novo as asas. Espero que a acompanhem neste novo voo.

Especial gratidão para a minha nova editora Helena Mineiro da Editora Mahatma que acreditou. :)

Tuesday, 18 October 2016

A Guardiã está de volta!

Para a reedição do Livro de Jade do Céu, decidi honrar o homem (o meu avô) que me deu um apelido que raramente uso, "Gaspar" e remetê-lo à sua origem iraniana, "Kandsmar".
 Assim, a história da Guardiã voltará a ser comercializada a partir do próximo mês de Novembro com a assinatura Ana Kandsmar. Neste momento, dão-se os últimos retoques na nova capa e paginação antes de seguir para a gráfica.
Uma estória reescrita, agora contada na 1ª pessoa. Espero que ela cumpra o objectivo de vos fazer sonhar, mas acima de tudo questionar, tal como nos diz o autor do prefácio, Luis Miguel Rocha, sobre o ínfimo conhecimento que temos de quem somos, conhecimento que não preenche afinal o espaço que ocupa um átomo.

Deixo-vos aqui um excerto.

"À minha frente estão duas gavetas onde só guardo tesouros. Coisas de muito valor. Uma tem pacotinhos de supari, masala tea bags, caixas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, um sari lindo, rendado, fiadas de flores de jasmim já secas e esboroadas e ainda um cd de Ravi Shankar. Um cd que quando toca, solta um som tão mágico e envolvente como só uma cítara pode ter. Um dia, eu hei-de morrer e a Índia, continuará a ser a Índia. Com ou sem dejetos e cadáveres que boiam indiferentes ao choque dos turistas, o Ganges e o Yamuna, continuarão a ser os rios onde já molhei os meus pés.
Na outra gaveta tenho postais ilustrados, fotografias que eternizaram momentos irrepetíveis, e alguns textos que fui escrevendo, inspirada pelas paisagens e pessoas que emprestam a alma àqueles lugares. Ainda hoje guardo tudo com a convicção de que se a minha casa sofresse um incêndio, seriam estes pequenos (grandes) tesouros que eu tentaria salvar a todo o custo. Quando tenho saudades da Índia, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros dos mercados enquanto a cítara de Ravi Shankar enche a casa. Quando é a nostalgia de lugares tão belos e indiscritíveis, preciso de olhar as fotografias. Afronto-as para me relembrar dos pormenores. Vejo os minaretes em Istambul e ouço-os verter para fora as vozes afinadas dos muezins. Vejo a Via Dolorosa impregnada de peregrinos que se misturam com muçulmanos e judeus, aytolas e rabinos, crentes e ateus. É assim Jerusalém. Um enorme templo de onde os vendilhões nunca saíram. Vejo um aborígene de pele escamada pelo sol, que sopra um didgeridoo ecoando o som harmonioso pelo deserto australiano com as Olgas como pano de fundo. O cenário mágico das ilhas de Pazcuaro, as pirâmides de Tikal, as ruelas estreitas de Varanasi pontilhadas de santuários… E preciso das palavras. Quando lhes sinto a falta, leio nas frases que brotaram cruas dos meus silêncios, o maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal."

Ana kandsmar in A Guardiã- O Livro de Jade do Céu

Saturday, 15 October 2016

Das mil e uma razões para gostar de ti.


Um dia escreverei sobre cada uma delas. Sobre cada momento que tornas especial, entre o acordar e o regresso a casa, e tudo o que está de permeio, os teus olhinhos meigos a transbordar ternura e a alegria incontida com que me recebes quando abro a porta ao anoitecer ou me dás os bons dias. 


Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te abandonar em qualquer esquina, em qualquer pedaço de alcatrão, de quanto amor és capaz de sentir por quem não é sequer da tua espécie. Pergunto-me se alguma vez viram em olhos como os teus, a alma que também é como a deles parte do mesmo Criador e por essa razão, em algum momento das suas vidas lhes sentiram a ligação, a conexão divina. Se como eu, alguma vez tiveram a sorte de se sentirem enredados, envolvidos em nós de marinheiro com outros como tu.  Que latem como tu, que como tu correm pela casa atrás de uma bola, pulam de contentamento de cada vez que vão à rua,se deliciam com patés fedorentos...Como tu que rebolas sobre os meus lençóis depois do banho e te aninhas aquecido pelo meu corpo, sobre a manta que puxo para nos cobrir aos dois. 
Contemplei a tua alma no primeiro dia em que te vi. Brilhou nos teus olhinhos negros e conectou-me. Sentia-a dizer-me coisas que só o meu coração foi capaz de ouvir. Soube então que o teu lugar era comigo. 

Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te abandonar em qualquer esquina, em qualquer caminho de floresta, o que é comunicar com uma alma que se faz ouvir no coração. Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te maltratar, de te amarrar a um poste, prender-te a um metro de corrente, de quanto amor és capaz de entregar, assim, a troco de quase nada, apenas de um pouco de atenção, uma festa na cabeça, um prato de comida, um cobertor para te aqueceres. Pergunto-me se, em meio de tanto descaso, alguma vez cogitaram, ainda que apenas um segundo, do quanto é bom e libertador, permitirem-se amar e ser amados por criaturas tão diferentes e tão iguais. Pergunto-me se alguma vez imaginaram, que partilhar contigo a toalha de praia, um pedacinho da bola de Berlim, um passeio pelo parque, ou o lugar favorito do sofá, poderia torná-los melhores humanos. 
Nem todos sabem que Anjos como tu têm afinal essa missão, a missão de regar a semente do amor que se abriga no peito humano e que às vezes murcha, às vezes seca e tantas vezes morre. Creio que há cada vez mais quem saiba que és um anjo. E que os outros como tu também o são. E que se anjos como tu vivem vidas tão curtas, tal facto se deve a que somos muitos e além de sermos muitos, somos teimosos, e uma vida de cão não basta para ensinar a um homem a matemática do amor. Um cão já nasce a saber tudo sobre a soma dos afectos. O homem morre quase sempre sabendo apenas subtraí-los.

Wednesday, 12 October 2016

Sou de (uma) Direita muito torta.

Espantam-se alguns amigos com a petição agora a circular para que se ponham os olhos nos milhares de trabalhadores precários em Portugal. 
Espantam-se sobretudo aqueles que me conhecem bem e sabem que ando a anos-luz da estabilidade profissional (isso é o quê mesmo?) e que também ideologicamente defendo muitas vezes aquilo que parece a muitos, só defensável por partidos de Direita. Todavia, há que dize-lo, Direitas há muitas, e a minha é definitivamente uma Direita torta. Ou se quiserem, de uma Direita que também se revê em apêndices de Esquerda, se é que se pode dizer que essa Direita existe. 
Talvez seja afinal uma coisa muito minha olhar com desconfiança para multiculturalismos e abominar capitalismos, aplaudir a soberania dos Estados e invocar a cooperação entre eles, ter horror a touradas e condenar a IVG. 
Acho que mais do que ideologias politicas e partidárias, sou uma idealista pela Humanidade. Entendo que o Bem Comum se sobrepõe ao Bem Individual e contra-senso ou não, parece-me que é impossível ao Bem Comum existir se não passar primeiro pelo Bem Individual. Sigo a premissa de que indivíduos felizes fazem comunidades felizes. Comunidades felizes fazem nações felizes e nações felizes…bem, parece-me óbvio, fazem o mundo feliz.
 E já estão vocês a pensar que isso é utópico e para além do mais seria uma profunda chatice. Lá vêm os defensores da evolução pela dor, dizer que o sofrimento faz parte, e que, é com sangue, suor e lágrimas que nos fazemos à vida. A ideia, deixem-me que vos diga, não sendo descabida de todo está a ser muito bem aproveitada por quem de sangue, suor e lágrimas percebe népia. Esses são os que mais do que qualquer um de nós estão no topo da cadeia alimentar. Comem-nos a carne, sugam-nos o sangue e roem-nos os ossos. Até que de nós nada reste. 
Sem darmos conta, antes ainda da carne, consomem-nos a humanidade. O que faz de nós pessoas. Humanos. E ser humano é ter aquela coisa que formiga dentro da nossa alma e nos faz arredar os olhos do nosso prato meio vazio para o prato vazio do outro. Isso é a nossa chama. Caso não se tenham dado conta ainda, saibam que esses, no topo da cadeia alimentar, estão a apagá-la. 
Quando no início do Séc.XX se instituiu a Carta dos Direitos Humanos, foi precisamente, para que essa chama nunca se apagasse. Infelizmente, hoje ela tem o vigor da tímida chama de uma vela. Quando aceitamos que se perpetue o velho mercantilismo da vida, apagamo-la. 
Quando inventamos novas formas de a mercantilizar apagamo-la. 
Quando nos vergamos à indignidade, apagamo-la. 
Quando nos tornamos insensíveis à dor alheia, apagamo-la. 
Quando usamos e descartamos o outro, apagamo-la. 
E assim vamos, de apagão em apagão, sempre soprando numa luz cada vez mais ténue, até que ela se extinga.
Vamos a factos. Em Portugal, o número de nascimentos foi, em 2007 e a partir de 2009, sempre inferior ao número de óbitos. Desde 1960 que tal nunca tinha acontecido.
Apesar de em 2015 terem nascido mais 3 133 crianças que em 2014, a diferença entre o total de nascimentos e de óbitos correspondeu a -22 423, mantendo-se assim o saldo natural ininterruptamente negativo que se tem verificado ao longo dos últimos oito anos. 
Somos portanto mais do que um país de velhos. Somos um país de moribundos. E os que pelo meio, se encontram na idade activa são fodidos e mal pagos.
Contribui para isto a precariedade laboral. Criar famílias não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha. 
Somos a base da pirâmide. Somos os consumidores que colocam a economia em movimento. Consumir, não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha. 
Somos os migrantes. Procuramos fora da terra que nos pertence, o que em condições dignas, a nossa terra devia oferecer. Somos os que abandonam os seus idosos nos depósitos a que chamamos lares. Estar perto dos nossos ou termos condições para lhes aprouver as necessidades não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha.
Em suma, longe dos capitalismos que só olham aos números, almejar um Estado Social que se encarregue verdadeiramente de dar a mão a quem já não tem força para levantar-se e impedir que continuemos a escalar perigosamente a montanha de desigualdades que começam na legislação laboral é também uma forma de impedir que a chama de humanidade que ainda brilha dentro de cada um de nós, nunca se apague. 
É só por isto a petição que nos pede um novo olhar sobre o trabalho precário. E ele há em tantas formas e sobre tantos disfarces. 
Somos a base da pirâmide. A carne para canhão. A melhor definição para descartável. Mas somos também a força que leva o país em braços para que outros possam descansar nos seus andores dourados. 
E essa força não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha.

Para assinar  a petição : Aqui

Sunday, 2 October 2016

A Vida Dá Muitas Vodkas



Bebi vodka. 
A bebida queimou-me por dentro e as lágrimas queimaram-me por fora. Jorraram impiedosamente pela minha face, incontroláveis. Há muito que não soluçava como uma criança pequena. Colapsei. Depois da louça partida, o chão da cozinha repleto de cacos, dou-me conta de ter mergulhado no escuro. 
Imagino que falo com Deus, mas as minhas palavras soam perdidas no silêncio do Criador. Quer lá ele saber! Sou apenas mais uma entre milhares, milhões de outros seres humanos que reclamam da vida. Ou que se perderam no labirinto da vida. Sei lá eu onde me encontrar. Às vezes sinto-me estéril. Olho-me ao espelho e aparece-me o reflexo de um Atlas de costas vergadas e pernas trementes, o mundo às costas. 
Volto à vodka. Aos cigarros e a qualquer porra que me anestesie. É nestas horas que tenho pena de não ter xanax, ou prozac, ou pelo menos, coragem. Entre o copo e a baforada, o riso de Deus a confundir-se com o tilintar do gelo no copo. Ri-se. De certo que me olha e acha mais cómicos que dramáticos os rios negros que me sulcam o rosto. “Nunca chores depois do rímel.” Diz-me o sacana. E volta a rir-se. 
Da estante cai-me o dossier onde guardo fotos de repórteres de guerra. 
Os calhandreiros da miséria humana. Disparam as objectivas sem salvar. Estendem a máquina em vez da mão. A melhor foto será sempre a que mais choca. Venha o impacto. 
E cai-me aos pés Aleppo. Tikrit. Islamabad. E caiem-me aos pés as imagens a preto e branco de meninos e de velhos que vivem na death line. No fio da navalha. Na hora de ponta. Ásia, Africa, Médio Oriente. 
Olho a criança sudanesa que valeu o pullitzer a Kevin Carter. O fotojornalista suicidou-se três meses após tirá-la. Talvez tivessem sobrevivido os dois se Carter em vez de disparar uma objectiva tivesse arredado aquela criança de pé da ave faminta, ainda assim, não tão faminta quanto a criança, de certo. Carter poderia ter optado por dar-lhe a vida em vez de lhe eternizar a morte. Se a tivesse alimentado. Se a tivesse roubado à fome e à miséria. Mas Carter preferiu o Pullitzer. 
Deus deve ter-se rido de Carter quando o viu a pôr termo à vida. Deve ter-se rido de Carter quando o viu a deambular a meio da noite, como um fantasma, pelos corredores da casa. Ter-se-á certamente, rido, o Senhor, com as suas comiserações. A depressão, furtou-lhe o sono e atirou-o noites seguidas para o sofá de pele, onde frequentemente acabava por entornar copos de whiskey velho. 
Terá Carter premido o gatilho, com o cano da arma encostada ao céu da boca? Ter-se-á assustado com a gargalhada frenética do Criador e num tremer de mão, disparado a bala que lhe vazou um olho e se alojou no cérebro? 
Carter e Deus saberão. Eles saberão. Apenas a criança sudanesa nunca saberá porque morreu. Nunca saberá porque Carter não a ajudou, preferindo tirar-lhe uma fotografia. Nunca saberá porque nasceu no Sudão e não em Portugal, onde agora poderia como eu, beber vodka para afogar a dor e fumar cigarros para a enganar o efeito tranquilizante da nicotina. 
A criança sudanesa, nunca saberá porque não teve ela também o direito de deixar que os seus olhos vertessem lágrimas pelas mesmas razões que os meus olhos vertem lágrimas. E como eu, num tapete macio, aos pés da cama, ou como Carter, sentado num confortável sofá. 
Bastou-me então isto. Ver além da minha dor. Ver a verdadeira dor. Parei de sentir a minha dor. 
O criador deixou Aleppo ,onde chora diariamente a sorte dos seus filhos. Deixou o Sudão, deixou Caracas, deixou Ankara, deixou Islamabad. Deixou todos estes infernos por alguns minutos, talvez por estar farto de chorar a sorte das suas gentes e veio aqui, à minha rua, a minha casa, rir-se de mim e rir-se comigo. Atira-me as fotos de quem, ao contrário de mim, não tem, nunca teve e provavelmente nunca terá vodka para lhe amenizar a dor e por certo, não encontraria nunca nas minhas razões, motivo algum para verter lágrimas. 
Tomada esta consciência, volto a chorar, já não por mim, mas pelo menino sudanês e por todas as pessoas deste mundo cujo único mal que fizeram foi nascer no lugar errado, sempre vítimas da ilimitada maldade humana. E por Deus. Choro por tê-lo distraído da sua missão de ajudar quem realmente precisa. Espero que não volte a perder tempo comigo. Diz-se que o Senhor é omnipresente, mas eu desconfio que não é bem assim e quer o Sudão quer Aleppo… ainda ficam um bocadinho longe.

AK in Mar de Deus

Saturday, 1 October 2016

As Borboletas de Aleppo



Foto- Ryad Alhussen 


Eu não sei se o Trump manterá a sua palavra em relação ao Médio Oriente.Por ora, ele diz que isto tem que acabar e apenas por isto, quero que ele ganhe. A senhora Clinton, pelo contrário, já fez saber que o seu programa levará ainda mais morte ao Levante.
É preciso parar! Que ninguém se engane acreditando que o sofrimento de uns não será o sofrimento de outros. 

**O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque.

O Livro de Jade do Céu

"A chuva acaba de fazer um intervalo e o sol espreita timidamente por detrás das nuvens. O cheiro da terra molhada é intenso e convidativo. Um dos aromas da natureza que mais amo. Faz-me lembrar dos primeiros dias de outono, a época sazonal de que mais gosto. Uma época de quietude e introspeção. Uma época de balanço, como aquela que invade os velhos em fim de vida. No outono reflete-se sobre tudo e sobre nada. Sobre as atitudes e as escolhas, sobre o passado e o presente. O outono é a época do ano em que parecem nascer todos os porquês do mundo e o futuro, ainda que mudo e invisível reveste-se de um manancial imenso de possibilidades.
É disso que gosto no outono. Na estação das primeiras chuvas e das folhas mortas levadas pelo vento, tudo é possível. A morte e o renascimento ligam-se ferozmente num enlaçar de mãos profícuo. "


(In O Livro de Jade do Céu")


Tuesday, 27 September 2016

Mar de Deus

"Baixaram as persianas, abriram a porta que os expunha finalmente à crueza da realidade, e à luz da rua que quase os cegava. Era o fim do sonho. Voltavam ao inicio, ao ponto de partida. Cada um para o seu lado, noutro sonho qualquer. "

Ana Kandsmar in Mar de Deus

Sunday, 25 September 2016

Conversas com a minha avó


-Então, avó, porque chora?
-Porque tenho saudades das minhas netas.
-De que netas, avó?
-Olha, uma esteve cá há pouco tempo, mas já não me lembro do nome. Tem uma menina. É a Érica. A outra parece-me que se chama Dina, estou à espera dela para me mostrar o Simão. E há ainda outra. Aquela que me roubava chocolates quando era pequena.
-Avó, essa que lhe roubava chocolates, era eu. :)
-Oh…a sério? Deixa lá. Se fosse hoje eu deixava-te roubar chocolates à vontade. 

Outono

Com que agonia se ouve a voz das fontes? 
Se ela tem humildes alegrias quando canta
Saboreio um inverno em cada planta
E um verão em longínquos horizontes
Árvores maternas abrem os braços
Verdes, tristes, num gesto criador
Com impulsos derradeiros abrem espaços
E chegam mais perto ao seu senhor.
Mas tudo, risos e sonhos subsistem
Doura a tarde sonhos feitos de abandono
Nas sombras dos jardins em que resistem, 
eu passo, e piso folhas mortas de outono.
Se antes voaram bem alto como pombas
Hoje, sombras vagas a errar 
Por entre sombras.

Sunday, 18 September 2016

Outra alegoria da caverna

Vender a alma ao diabo parece ser mais ou menos recorrente para a maioria das pessoas. Terei eu já vendido a minha algumas vezes, sobretudo quando em troca de um mísero salário aturo o que em condições menos adversas nem a troco de milhões aturaria. Mas vendê-la da forma abjecta como José António Saraiva o faz com este livro, que revela a intimidade de várias figuras públicas, é se calhar um sinal inequívoco de que este homem já não tem alma, sequer. 
Mas não devemos culpar apenas o jornalista que muito provavelmente verá aqui uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro. Afinal, o livro será um sucesso e ele sabe-o. Num país onde impera a venda de revistas cor-de-rosa e pasquins que relatam dramas de faca e alguidar, não se espera outra coisa. 
A Maria que cumpre religiosamente o ritual da compra da Nova Gente e da Caras, entrará muito provavelmente, pela primeira vez numa livraria, para comprar o “ Eu e os Políticos”. Muitas “marias” deste Portugal o farão. Muitos “manueis” as imitarão. 
O jornalista Saraiva engrandecerá o ego com o seu sucesso editorial, a Gradiva inchará a gaveta do lucro e milhares de portugueses ficarão mais pobres. Não pelo dinheiro que pagarão pelo livro, mas pelo que de mau ele representa. 
Espantam-me aqui sobretudo duas coisas: Que as personalidades visadas permitam que a sua vida íntima seja explorada por terceiros com vista ao enriquecimento e mediatismo pessoal, e ainda, que um profissional que gozava de respeito e admiração entre os seus pares se permita a este mergulho na lama. 
Só a Gradiva me parece agir da forma coerente que tem caracterizado a maioria das grandes editoras. Essa já não me desilude. Como outras, publica cada vez menos escritores e cada vez mais gente que garante vendas, ainda que mal saiba escrever uma linha ou não tenha de facto, nada para contar, ou melhor: para acrescentar. 
Não há muito tempo, foi o apresentador de televisão Júlio Isidro, agora é o Saraiva. Tudo em nome das vendas. Culpa, claro das pessoas que deixaram de comprar escritores, e unicamente para alimentar a coscuvilhice, preferem levar para casa a roupa suja das caras conhecidas.
Há uma imagem que ilustra na perfeição este estado de negação em que se vive neste mundo. Se enfiados num poço fundo e escuro, que se lhes atire uma escada. A maioria preferirá parti-la para com ela fazer uma fogueira ao invés de usá-la para sair do poço e ver de novo a luz. Uma espécie de alegoria da caverna. 
É isto. É triste mas é isto.