Thursday 17 January 2013

Os Homens sem Pé no seu Tempo



Das coisas tristes que o mundo tem, são os homens sem pé no seu tempo.
Os desgraçados que aparecem assim, cedo de mais ou tarde de mais, lembram-me na vida terras de ninguém, onde não há paz possível.
Imagine-se a dramática situação dum cavernícola transportado aos dias de hoje, ou vice-versa. A cada época corresponde um certo tipo humano.
Um tipo humano intransponível, feito da unidade possível em tal ocasião, moldado psicologicamente, e fisiologicamente até, pelas forças que o rodeiam. A Idade Média tinha como valores Aristóteles e os doutores da Igreja.
E qualquer espírito coevo, por mais alto que fosse, estava irremediavelmente emparedado entre a Grécia sem Platão e as colunas do Templo.
De nada lhe valia sonhar outro espaço de movimento. Cada inquietação realizava-se ali. O que seria, pois, um Vinci do Renascimento, multímodo, aberto a todos os conhecimentos, a bracejar dentro de tão acanhados muros?

(Miguel Torga)