Friday, 11 November 2016

But you don't really care for music, do you?

Well I've heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
Well it goes like this:
The fourth, the fifth, the minor fall and the major lift
The baffled king composing Hallelujah


R.I.P, Cohen. Ainda bem que estiveste entre nós.

Thursday, 10 November 2016

O bicho papão que irá assombrar o telhado da Casa Branca

Já li artigos excelentes sobre as eleições americanas. A maioria, claro, mostrando perplexidade e temor pelo futuro que se adivinha impróprio para consumo independentemente de quem preside a uma das maiores potências do mundo.
O Trump não é nenhum santo e aliás, foi algumas vezes, irritantemente estúpido, chegando a revelar aquilo a que eu poderei chamar de alguma ingenuidade politica, o que até faz algum sentido, tendo em conta que o homem não vem da escola patrocinada pela Goldman Sachs, empresas petrolíferas ou as sinistras famílias detentoras da banca. Trump vem dos negócios. Por muitos considerado péssimo gestor, e aqui, dizem, com um historial duvidoso e pouco confiável. Aliás, não há realmente muito o que possa considerar de confiável em Trump, a não ser talvez, o facto de ele não ter saído de nenhum dos pântanos onde se habituaram a nadar todos os seus antecessores (o que é, a meu ver, bastante).
É por isso, nesta escala, genuíno. Tão genuíno que por diversas vezes abriu a boca para dizer o que muitos pensam mas não dizem. 
Na verdade os problemas de Trump não foram os comentários racistas ou xenófobos nem mesmo os misóginos. Desconfio até de que não houve propriamente um sentido jingoísta na sua acepção extremada, nem tão pouco sinais de misoginia (afinal, o mal de Trump parece-me ser precisamente o contrário. Ele gosta de mulheres e gosta muito.) O problema de Trump é ou foi, o de não medir o que diz. O problema de Trump foi ter-se esquecido de que um discurso bonito e politicamente correcto cai (quase sempre) irreflectidamente nas graças dos falsos puritanos e donzelas facilmente impressionáveis. Os discursos politicamente correctos têm sempre o condão de deslizarem correntemente pelos ouvidos adentro dos pregadores dos evangelhos, das igualdades e fraternidades, dos brandos e bons costumes, e todavia, são estes mesmos pregadores críticos de Trump que, para além de pregar, não mexem uma palha para colocarem em prática o que lhes sai na oratória. Importa no entanto, dizer que no que ao nonsense diz respeito, em Trump não há nada de novo. Veja-se Berlusconi ou Sarkozy, as escandaleiras, os discursos inflamados e nacionalistas (Órban, Boris, Farage), ou não venhamos a ter num futuro muito próximo com Marine Le Pen, que é cada vez mais, absolutamente elegível. E note-se que se estas figuras, estes arautos das mudanças radicais imergem, fazem-no respondendo à vontade inequívoca dos povos de romper com um sistema caduco, moribundo, cujo crédito é zero e o desgaste palpável. Já ninguém quer isto. Amargou.
Trump foi insolente durante toda a campanha e chegou a parecer um rapazola deslumbrado com a possibilidade de assentar arraiais na Casa Branca, é um facto. Ainda não sei se confio na sua retórica altruísta para o bem do povo americano. Todavia, confesso, mais do que a vitória de Trump, satisfaz-me a derrota de Hillary. 
Também é um facto que Trump é podre de rico. Não depende, ou pelo menos não dependeu até aqui dos tubarões da finança. E é por isto legítimo que subsista a dúvida: terá corrido à presidência para afagar o ego? Terá sido tudo por vaidade? Ou há mesmo uma vontade de esmurrar os poderes instalados? Quero acreditar que é esta última hipótese o motivo da noite de ontem. E se assim for, apenas por isso, já valeu a pena a vitória dele. 
O escritor Richard Zimler diz que Trump tirou a tampa da Caixa de Pandora "e toda aquela gente super conservadora, racista, misógina, homofóbica começou a pensar :‘já podemos falar em voz alta que não gostamos dos mexicanos, já podemos falar em voz alta que não gostamos dos judeus."
Quanta parvoíce diz o Sr. Zimler! Afinal em que raio de mundo queremos viver? Num mundo onde as pessoas não digam em voz alta que não gostam de mexicanos, judeus, muçulmanos, etc, ou num mundo, onde sejamos realmente capazes de gostar dos diferentes e aceitar as diferenças? Se Trump abriu alguma Caixa de Pandora, foi para precisamente escancarar a enormíssima mentira em que vivemos há várias décadas, desde que o multiculturalismo passou a ser moda, sem que nunca nos tivéssemos preocupado primeiro em aprender a olhar para o outro como queremos que o outro olhe para nós.
Não sejamos ingénuos. Para que se verifique alguma mudança, vamos precisar inevitavelmente de rebentar com o que está estabelecido. Eu não gosto do que está estabelecido. Temos um mundo péssimo, sem valores morais e éticos, rendido ao consumo, inebriado com a falsa aura de aceitação das diferenças, do multiculturalismo (tudo tretas), esmagados pela imigração em massa que só trouxe desequilíbrios. Estamos e assim continuaremos até que mais Trumps apareçam, asfixiados pelas consequências nefastas da globalização. 
A economia mundial não assenta, como seria o ideal, na prosperidade, mas sim na miséria dos povos. Assim não podemos continuar. Há que repensar e refazer (sem pés de barro) esse caminho da igualdade e da fraternidade entre os povos. Trump faz bem em querer derrubar esses mitos nos quais acreditamos hoje. Tudo isto é mentira e os americanos que votaram em Trump, perceberam-no. E se o perceberam, não é porque são mais burros, mais incultos, mais analfabetos, do que os que com maior preparação académica, mais viajados e mais jovens votaram em Hillary. Perceberam-no porque sentem na pele, todos os dias, as dificuldades da sua própria sobrevivência. Só espero que o recém-chegado à Casa Branca esteja à altura de abrir novos caminhos. Serão difíceis de trilhar? Serão. Desengane-se já quem pensa que é possível reconstruir sem destruir primeiro.




Wednesday, 9 November 2016

E então, eis a matéria de que sou feita:



 A(na)tomicamente predisposta à mudança, ao risco, e isto é, em primeira, segunda ou última instância, Viver. 
Primeiro que nada a queda. O salto sem pára-quedas no vazio, o embate doloroso na rocha nua, a dor, os rasgões, a alma a contorcer-se num oito. Depois, bem... depois há sempre uma brisa que me seca as lágrimas. Ressurjo do meu féretro, desenrolo-me como um bicho de contas que se abre e esperneia. Espeto o indicador a perceber a direcção do vento e sigo. Dorida. Sofrida. Mas avanço convicta de que ficar ali no meio da dor tem o seu tempo útil, e o tempo útil é apenas aquele que é usado para entendê-la, o tempo suficiente para dissecá-la, para esquartejá-la, esmiúça-la. No fundo, torná-la, não pequenina ou insignificante, mas transportável. Não há dor que não possa ser usada como um bom manual. Por isso, carrego sempre as minhas dores. Não ao alcance do meu coração, mas sempre na orla da minha mente. O aprendizado emerge delas e isso, apenas isso, dá significado a qualquer momento em que me sinto ruír, em que me sinto rasteira, derrotada. A dor acaba sempre por me ensinar quão bem vindo é cada minuto que eu tenha, algum dia, amaldiçoado.


Ana Kandsmar in Mar de Deus

A noite mais longa: nós, os "deploráveis", tínhamos razão!

Que se ponham os olhos na América. Oxalá Trump venha a ser o presidente que a América e o mundo precisam. Mas esta vitória é antes de mais, o grito preocupante da revolta de quem sistematicamente é deixado para trás, esquecido pelos ricos que ficam cada vez mais ricos. O mundo está a mudar, não haja duvida. Os poderes instalados, os partidários do sistema fraudulento e corrupto terão que ser corridos das suas redomas, onde têm, ano após ano, década após década, estado a salvo da miserável existência das maiorias. Eu, para já, aplaudo Trump.

A noite mais longa: nós, os "deploráveis", tínhamos razão

Foi, sem dúvida, uma daquelas mudanças que marcam o curso da história. Para quantos se deixam dominar pela sua subjectividade, gostos, inclinações e desejos, esta noite que mudou o mundo foi recebida com choque, surpresa, indignação e estupor. Tive imensos problemas por haver formulado a possibilidade da vitória de Trump.
Amigos houve que me chamaram tudo por alinhar aqueles argumentos de racionalidade que, afinal, coincidiam perfeitamente com a percepção que os norte-americanos exibem a respeito do descaminho do seu país e do mundo. Não querendo ser injusto, conto pelos dedos de uma mão - vá, concedamos, pelos dedos de duas mãos - o número daqueles que perceberam a corrente da história em movimento. É preciso um convívio assíduo com as dinâmicas sociais e históricas para perceber que nada acontece por capricho inopinado.
A hipnose induzida pela oligarquia e seus aliados e financiadores (a banca, os media, os think tanks do mundialismo e os agentes de desvairados experimentalismos que se deixaram enganar pelo conforto da ideologia) rompeu-se. A retribalização que quiseram impor à consciência de sociedades modernas, fomentando guerras e ódios (de género e de sexo, de geração, de raça, de religião, de classe) falhou, pois aqueles grandes agentes de socialização e integração que são desde sempre os pilares das sociedades e dos Estados-nações ( a lei e a ordem, a conformidade e a integração, a ideia do Mesmo e do estranho, a ideia de fronteira étnica, social, linguística, cultural económica) soaram a rebate perante a iminência de um desastre irreparável.
Deito-me, já um novo dia se preparara para despontar, feliz por não ter tido medo de encarar a história que se movimentava sob os nossos pés. Àqueles que comigo comungaram nesta percepção da mudança do eixo da história do nosso tempo - como, aliás, já o haviam feito no que respeita à Rússia, ao Brexit, às guerra na Síria, na Líbia e no Iraque - só posso lembrar que estávamos certíssimos. Aos outros que nunca se conseguem afastar do nível primário e emocional reactivo, que tudo psicologizam, fulanizam e que tudo transformam em caricatura, é tempo de iniciarem um caminho mais exigente, pois a história mudou hoje. Isto não se fica pelos EUA: amanhã será na Áustria, em França, na Escandinávia e na Alemanha.
O mundialismo arrogante parece ter sido inapelavelmente ferido, mas tentará certamente lamber as feridas e insistir na mesma receita que se mostrou iníqua para o povo americano, para os povos europeus e para os povos do Médio Oriente e da África, perante cujo sofrimento nos devíamos encher de vergonha. Hoje inicia-se a reinvenção política do Ocidente; hoje, triunfou a rebelião pacífica contra as más elites que trouxeram a crise financeira, a crise económica, as guerras de agressão, a manipulação por atacado de sociedades que se julgavam maduras. A paz parece ter triunfado. Haja Deus !

"Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente.A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social."

Palavras do MEC que poderiam ter sido minhas.

Thursday, 3 November 2016

O tal livro que brotou dos meus dedos...


Caros amigos e leitores, aqui está O Livro de Jade do Céu em pré-venda. Até dia 18 deste mês de Novembro, poderão adquirir aqui o livro a um preço promocional,( nas livrarias custará 22€, aqui poderão adquiri-lo por 19 com a oferta dos portes de envio.) Para pedidos basta que me enviem mensagem privada. Obrigada a todos. 

Sunday, 30 October 2016

Macumbas, Milongas e Mandingas



Eu, bruxa me confesso. 
Entro-te pela noite adentro e lanço-te mezinhas, rezinhas, avé marias e pais nossos, rogai por nós pecadores, abracadabra e transformo-me numa cabra. 
Eu, feiticeira me declaro. Acendo velas, queimo incensos, soletro mantras, enfeitiço-te, simsalabim e quero-te só para mim. Se te lanço feitiços e macumbas, milongas e mandingas, com os amuletos e talismãs que enrodilho no pescoço, se te rezo ao pai de santo é porque te encomendo os serviços de amor e prazer que há muito não me forneces. 
Por isso, baixa-te para que eu te banhe em águas turvas, e te segregue os fluidos biliosos que depois te dou a beber, para entrar à força dentro de ti. Não o faço por maldade, acredita. Faço-o somente para que não continues a despistar o branco das paredes da casa com o negro do nosso silêncio. 
Quero-te longe dessa outra que te circunda com trejeitos ordinários e as raízes escuras que fogem ao descolorante barato. 
Quero-te fora dessa cama onde te deitas à larga no vazio do meu corpo e longe, bem longe desse interesse que te consome e que te não deixa sentir livre, de pazes feitas com o que escolheste. 
Não sei o que sabe ela dos rituais mágicos que nos levam a dançar nos bosques em noites de lua cheia, nem tão pouco se te deita em círculos adornados com pentagramas e cera de abelhas a escorrer-te pelos cantos da boca. Mas tenho a certeza que não te viciou no sexo que queima de dentro para fora, nem no perfume de temperos exóticos. 
Ela bem que poderia zoar-te aos ouvidos rezas e encantamentos ou até mesmo ensaiar nas tuas costas sacrifícios e sortilégios, coser-te a boca com o veneno de promessas ou beijos peçonhentos. Mas de nada lhe serve entrar nas curvas ocultas das tuas artérias, nem tão pouco lhe vale aflorar-te a pele nos capilares. 
É verdade que essa outra com quem te deitas agora, te deixou indiferente a esta dor de silício que se me crava na carne e que, com um vudu de muitas loas, fez de ti um morto-vivo e parou-te o coração que dantes batia por mim. 
Bem sei que não acreditas nessas coisas, que és de estudos e não de crenças, racionalista, epistemológico, matemático. Mas acredita que me basta querer-te e mal o diabo esfregue um olho faço-te correr por baixo de escadas, enquanto eu durmo com gatos pretos e me vejo quebrada em espelhos partidos. 
 Por agora espreito-te na bola de cristal e encontro-te no livro das sombras. Mas atenta bem no que te digo: Basta que eu queira. Basta que a minha vontade cresça como o musgo nos telhados velhos para que voltes a cair nas teias esculpidas do meu corpo. 
Tão certo beberás do meu cálice, como voltará a ser minha a tua varinha. Mágica. A que tens entre-pernas. Nunca te disse, mas sim, sou bruxa, sou maga, sacerdotiza, deusa de um templo pagão, conjuro-te, encanto-te e prendo-te (n)o coração.


Saturday, 22 October 2016

Insistir, persistir e nunca desistir.


Reescrever, reeditar, aguardar pacientemente a elaboração das paginações, das capas, os textos finais, e todos os pormenores que nos fazem acreditar piamente que "É isto!", que o trabalho está bem feito, que nos orgulhamos do que fizemos e do que fizeram todos aqueles que apostaram em nós e trabalharam connosco até ao surgimento do resultado final, tudo isto é parte de um caminho que só entende quem o faz. 

Eu sou hoje novamente uma criança em véspera de Natal. Eu sou hoje novamente a mãe babada de um filho renascido. Em breve tê-lo-ei nas minhas mãos. Em breve, cada um de vocês poderá tê-lo na vossa mão.
Quero que fique bem claro: Escrevo apenas, porque se não o fizesse não seria eu. O meu ADN está impregnado de textos, histórias e é-me de todo impossível não as deixar sair pelas pontas dos meus dedos. Se a vida não me tivesse permitido aprender a escrever, teria hoje de as contar, talvez à volta de uma fogueira. 
Sei que a edição anterior não foi um sucesso de vendas. Sei que muito provavelmente também esta não o será. Há demasiados factores a ter em conta para que um livro se venda e o primeiro de todos é o meu nome. Não sou ninguém. Mas sou, e sou-o convictamente, uma lutadora nata que acarinha cada um dos seus sonhos e cuida para que as adversidades da vida não os mate. 
Conto convosco, não para me levarem em ombros, mas para me darem o beneficio da dúvida. Escrevi esta história com todo o amor de que fui capaz. Reescrevi-a redobrando a intensidade desse amor. Coloquei o meu mundo interior aqui. É aqui que eu vivo enquanto muitos de vocês dormem e eu fico sozinha com um teclado de computador. Aqui, neste mundo que transpus para a história da Luana, só há possibilidades. Há um mundo que se renova e revela. Não é uma verdade. É, como disse, possibilidade. Que sejam vocês os justos avaliadores da beleza desta possibilidade, e se gostarem dela, lutem para a tornar real.
Lá para o fim de Novembro, a Guardiã bate de novo as asas. Espero que a acompanhem neste novo voo.

Especial gratidão para a minha nova editora Helena Mineiro da Editora Mahatma que acreditou. :)

Tuesday, 18 October 2016

A Guardiã está de volta!

Para a reedição do Livro de Jade do Céu, decidi honrar o homem (o meu avô) que me deu um apelido que raramente uso, "Gaspar" e remetê-lo à sua origem iraniana, "Kandsmar".
 Assim, a história da Guardiã voltará a ser comercializada a partir do próximo mês de Novembro com a assinatura Ana Kandsmar. Neste momento, dão-se os últimos retoques na nova capa e paginação antes de seguir para a gráfica.
Uma estória reescrita, agora contada na 1ª pessoa. Espero que ela cumpra o objectivo de vos fazer sonhar, mas acima de tudo questionar, tal como nos diz o autor do prefácio, Luis Miguel Rocha, sobre o ínfimo conhecimento que temos de quem somos, conhecimento que não preenche afinal o espaço que ocupa um átomo.

Deixo-vos aqui um excerto.

"À minha frente estão duas gavetas onde só guardo tesouros. Coisas de muito valor. Uma tem pacotinhos de supari, masala tea bags, caixas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, um sari lindo, rendado, fiadas de flores de jasmim já secas e esboroadas e ainda um cd de Ravi Shankar. Um cd que quando toca, solta um som tão mágico e envolvente como só uma cítara pode ter. Um dia, eu hei-de morrer e a Índia, continuará a ser a Índia. Com ou sem dejetos e cadáveres que boiam indiferentes ao choque dos turistas, o Ganges e o Yamuna, continuarão a ser os rios onde já molhei os meus pés.
Na outra gaveta tenho postais ilustrados, fotografias que eternizaram momentos irrepetíveis, e alguns textos que fui escrevendo, inspirada pelas paisagens e pessoas que emprestam a alma àqueles lugares. Ainda hoje guardo tudo com a convicção de que se a minha casa sofresse um incêndio, seriam estes pequenos (grandes) tesouros que eu tentaria salvar a todo o custo. Quando tenho saudades da Índia, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros dos mercados enquanto a cítara de Ravi Shankar enche a casa. Quando é a nostalgia de lugares tão belos e indiscritíveis, preciso de olhar as fotografias. Afronto-as para me relembrar dos pormenores. Vejo os minaretes em Istambul e ouço-os verter para fora as vozes afinadas dos muezins. Vejo a Via Dolorosa impregnada de peregrinos que se misturam com muçulmanos e judeus, aytolas e rabinos, crentes e ateus. É assim Jerusalém. Um enorme templo de onde os vendilhões nunca saíram. Vejo um aborígene de pele escamada pelo sol, que sopra um didgeridoo ecoando o som harmonioso pelo deserto australiano com as Olgas como pano de fundo. O cenário mágico das ilhas de Pazcuaro, as pirâmides de Tikal, as ruelas estreitas de Varanasi pontilhadas de santuários… E preciso das palavras. Quando lhes sinto a falta, leio nas frases que brotaram cruas dos meus silêncios, o maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal."

Ana kandsmar in A Guardiã- O Livro de Jade do Céu

Saturday, 15 October 2016

Das mil e uma razões para gostar de ti.


Um dia escreverei sobre cada uma delas. Sobre cada momento que tornas especial, entre o acordar e o regresso a casa, e tudo o que está de permeio, os teus olhinhos meigos a transbordar ternura e a alegria incontida com que me recebes quando abro a porta ao anoitecer ou me dás os bons dias. 


Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te abandonar em qualquer esquina, em qualquer pedaço de alcatrão, de quanto amor és capaz de sentir por quem não é sequer da tua espécie. Pergunto-me se alguma vez viram em olhos como os teus, a alma que também é como a deles parte do mesmo Criador e por essa razão, em algum momento das suas vidas lhes sentiram a ligação, a conexão divina. Se como eu, alguma vez tiveram a sorte de se sentirem enredados, envolvidos em nós de marinheiro com outros como tu.  Que latem como tu, que como tu correm pela casa atrás de uma bola, pulam de contentamento de cada vez que vão à rua,se deliciam com patés fedorentos...Como tu que rebolas sobre os meus lençóis depois do banho e te aninhas aquecido pelo meu corpo, sobre a manta que puxo para nos cobrir aos dois. 
Contemplei a tua alma no primeiro dia em que te vi. Brilhou nos teus olhinhos negros e conectou-me. Sentia-a dizer-me coisas que só o meu coração foi capaz de ouvir. Soube então que o teu lugar era comigo. 

Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te abandonar em qualquer esquina, em qualquer caminho de floresta, o que é comunicar com uma alma que se faz ouvir no coração. Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te maltratar, de te amarrar a um poste, prender-te a um metro de corrente, de quanto amor és capaz de entregar, assim, a troco de quase nada, apenas de um pouco de atenção, uma festa na cabeça, um prato de comida, um cobertor para te aqueceres. Pergunto-me se, em meio de tanto descaso, alguma vez cogitaram, ainda que apenas um segundo, do quanto é bom e libertador, permitirem-se amar e ser amados por criaturas tão diferentes e tão iguais. Pergunto-me se alguma vez imaginaram, que partilhar contigo a toalha de praia, um pedacinho da bola de Berlim, um passeio pelo parque, ou o lugar favorito do sofá, poderia torná-los melhores humanos. 
Nem todos sabem que Anjos como tu têm afinal essa missão, a missão de regar a semente do amor que se abriga no peito humano e que às vezes murcha, às vezes seca e tantas vezes morre. Creio que há cada vez mais quem saiba que és um anjo. E que os outros como tu também o são. E que se anjos como tu vivem vidas tão curtas, tal facto se deve a que somos muitos e além de sermos muitos, somos teimosos, e uma vida de cão não basta para ensinar a um homem a matemática do amor. Um cão já nasce a saber tudo sobre a soma dos afectos. O homem morre quase sempre sabendo apenas subtraí-los.

Wednesday, 12 October 2016

Sou de (uma) Direita muito torta.

Espantam-se alguns amigos com a petição agora a circular para que se ponham os olhos nos milhares de trabalhadores precários em Portugal. 
Espantam-se sobretudo aqueles que me conhecem bem e sabem que ando a anos-luz da estabilidade profissional (isso é o quê mesmo?) e que também ideologicamente defendo muitas vezes aquilo que parece a muitos, só defensável por partidos de Direita. Todavia, há que dize-lo, Direitas há muitas, e a minha é definitivamente uma Direita torta. Ou se quiserem, de uma Direita que também se revê em apêndices de Esquerda, se é que se pode dizer que essa Direita existe. 
Talvez seja afinal uma coisa muito minha olhar com desconfiança para multiculturalismos e abominar capitalismos, aplaudir a soberania dos Estados e invocar a cooperação entre eles, ter horror a touradas e condenar a IVG. 
Acho que mais do que ideologias politicas e partidárias, sou uma idealista pela Humanidade. Entendo que o Bem Comum se sobrepõe ao Bem Individual e contra-senso ou não, parece-me que é impossível ao Bem Comum existir se não passar primeiro pelo Bem Individual. Sigo a premissa de que indivíduos felizes fazem comunidades felizes. Comunidades felizes fazem nações felizes e nações felizes…bem, parece-me óbvio, fazem o mundo feliz.
 E já estão vocês a pensar que isso é utópico e para além do mais seria uma profunda chatice. Lá vêm os defensores da evolução pela dor, dizer que o sofrimento faz parte, e que, é com sangue, suor e lágrimas que nos fazemos à vida. A ideia, deixem-me que vos diga, não sendo descabida de todo está a ser muito bem aproveitada por quem de sangue, suor e lágrimas percebe népia. Esses são os que mais do que qualquer um de nós estão no topo da cadeia alimentar. Comem-nos a carne, sugam-nos o sangue e roem-nos os ossos. Até que de nós nada reste. 
Sem darmos conta, antes ainda da carne, consomem-nos a humanidade. O que faz de nós pessoas. Humanos. E ser humano é ter aquela coisa que formiga dentro da nossa alma e nos faz arredar os olhos do nosso prato meio vazio para o prato vazio do outro. Isso é a nossa chama. Caso não se tenham dado conta ainda, saibam que esses, no topo da cadeia alimentar, estão a apagá-la. 
Quando no início do Séc.XX se instituiu a Carta dos Direitos Humanos, foi precisamente, para que essa chama nunca se apagasse. Infelizmente, hoje ela tem o vigor da tímida chama de uma vela. Quando aceitamos que se perpetue o velho mercantilismo da vida, apagamo-la. 
Quando inventamos novas formas de a mercantilizar apagamo-la. 
Quando nos vergamos à indignidade, apagamo-la. 
Quando nos tornamos insensíveis à dor alheia, apagamo-la. 
Quando usamos e descartamos o outro, apagamo-la. 
E assim vamos, de apagão em apagão, sempre soprando numa luz cada vez mais ténue, até que ela se extinga.
Vamos a factos. Em Portugal, o número de nascimentos foi, em 2007 e a partir de 2009, sempre inferior ao número de óbitos. Desde 1960 que tal nunca tinha acontecido.
Apesar de em 2015 terem nascido mais 3 133 crianças que em 2014, a diferença entre o total de nascimentos e de óbitos correspondeu a -22 423, mantendo-se assim o saldo natural ininterruptamente negativo que se tem verificado ao longo dos últimos oito anos. 
Somos portanto mais do que um país de velhos. Somos um país de moribundos. E os que pelo meio, se encontram na idade activa são fodidos e mal pagos.
Contribui para isto a precariedade laboral. Criar famílias não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha. 
Somos a base da pirâmide. Somos os consumidores que colocam a economia em movimento. Consumir, não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha. 
Somos os migrantes. Procuramos fora da terra que nos pertence, o que em condições dignas, a nossa terra devia oferecer. Somos os que abandonam os seus idosos nos depósitos a que chamamos lares. Estar perto dos nossos ou termos condições para lhes aprouver as necessidades não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha.
Em suma, longe dos capitalismos que só olham aos números, almejar um Estado Social que se encarregue verdadeiramente de dar a mão a quem já não tem força para levantar-se e impedir que continuemos a escalar perigosamente a montanha de desigualdades que começam na legislação laboral é também uma forma de impedir que a chama de humanidade que ainda brilha dentro de cada um de nós, nunca se apague. 
É só por isto a petição que nos pede um novo olhar sobre o trabalho precário. E ele há em tantas formas e sobre tantos disfarces. 
Somos a base da pirâmide. A carne para canhão. A melhor definição para descartável. Mas somos também a força que leva o país em braços para que outros possam descansar nos seus andores dourados. 
E essa força não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha.

Para assinar  a petição : Aqui

Sunday, 2 October 2016

A Vida Dá Muitas Vodkas



Bebi vodka. 
A bebida queimou-me por dentro e as lágrimas queimaram-me por fora. Jorraram impiedosamente pela minha face, incontroláveis. Há muito que não soluçava como uma criança pequena. Colapsei. Depois da louça partida, o chão da cozinha repleto de cacos, dou-me conta de ter mergulhado no escuro. 
Imagino que falo com Deus, mas as minhas palavras soam perdidas no silêncio do Criador. Quer lá ele saber! Sou apenas mais uma entre milhares, milhões de outros seres humanos que reclamam da vida. Ou que se perderam no labirinto da vida. Sei lá eu onde me encontrar. Às vezes sinto-me estéril. Olho-me ao espelho e aparece-me o reflexo de um Atlas de costas vergadas e pernas trementes, o mundo às costas. 
Volto à vodka. Aos cigarros e a qualquer porra que me anestesie. É nestas horas que tenho pena de não ter xanax, ou prozac, ou pelo menos, coragem. Entre o copo e a baforada, o riso de Deus a confundir-se com o tilintar do gelo no copo. Ri-se. De certo que me olha e acha mais cómicos que dramáticos os rios negros que me sulcam o rosto. “Nunca chores depois do rímel.” Diz-me o sacana. E volta a rir-se. 
Da estante cai-me o dossier onde guardo fotos de repórteres de guerra. 
Os calhandreiros da miséria humana. Disparam as objectivas sem salvar. Estendem a máquina em vez da mão. A melhor foto será sempre a que mais choca. Venha o impacto. 
E cai-me aos pés Aleppo. Tikrit. Islamabad. E caiem-me aos pés as imagens a preto e branco de meninos e de velhos que vivem na death line. No fio da navalha. Na hora de ponta. Ásia, Africa, Médio Oriente. 
Olho a criança sudanesa que valeu o pullitzer a Kevin Carter. O fotojornalista suicidou-se três meses após tirá-la. Talvez tivessem sobrevivido os dois se Carter em vez de disparar uma objectiva tivesse arredado aquela criança de pé da ave faminta, ainda assim, não tão faminta quanto a criança, de certo. Carter poderia ter optado por dar-lhe a vida em vez de lhe eternizar a morte. Se a tivesse alimentado. Se a tivesse roubado à fome e à miséria. Mas Carter preferiu o Pullitzer. 
Deus deve ter-se rido de Carter quando o viu a pôr termo à vida. Deve ter-se rido de Carter quando o viu a deambular a meio da noite, como um fantasma, pelos corredores da casa. Ter-se-á certamente, rido, o Senhor, com as suas comiserações. A depressão, furtou-lhe o sono e atirou-o noites seguidas para o sofá de pele, onde frequentemente acabava por entornar copos de whiskey velho. 
Terá Carter premido o gatilho, com o cano da arma encostada ao céu da boca? Ter-se-á assustado com a gargalhada frenética do Criador e num tremer de mão, disparado a bala que lhe vazou um olho e se alojou no cérebro? 
Carter e Deus saberão. Eles saberão. Apenas a criança sudanesa nunca saberá porque morreu. Nunca saberá porque Carter não a ajudou, preferindo tirar-lhe uma fotografia. Nunca saberá porque nasceu no Sudão e não em Portugal, onde agora poderia como eu, beber vodka para afogar a dor e fumar cigarros para a enganar o efeito tranquilizante da nicotina. 
A criança sudanesa, nunca saberá porque não teve ela também o direito de deixar que os seus olhos vertessem lágrimas pelas mesmas razões que os meus olhos vertem lágrimas. E como eu, num tapete macio, aos pés da cama, ou como Carter, sentado num confortável sofá. 
Bastou-me então isto. Ver além da minha dor. Ver a verdadeira dor. Parei de sentir a minha dor. 
O criador deixou Aleppo ,onde chora diariamente a sorte dos seus filhos. Deixou o Sudão, deixou Caracas, deixou Ankara, deixou Islamabad. Deixou todos estes infernos por alguns minutos, talvez por estar farto de chorar a sorte das suas gentes e veio aqui, à minha rua, a minha casa, rir-se de mim e rir-se comigo. Atira-me as fotos de quem, ao contrário de mim, não tem, nunca teve e provavelmente nunca terá vodka para lhe amenizar a dor e por certo, não encontraria nunca nas minhas razões, motivo algum para verter lágrimas. 
Tomada esta consciência, volto a chorar, já não por mim, mas pelo menino sudanês e por todas as pessoas deste mundo cujo único mal que fizeram foi nascer no lugar errado, sempre vítimas da ilimitada maldade humana. E por Deus. Choro por tê-lo distraído da sua missão de ajudar quem realmente precisa. Espero que não volte a perder tempo comigo. Diz-se que o Senhor é omnipresente, mas eu desconfio que não é bem assim e quer o Sudão quer Aleppo… ainda ficam um bocadinho longe.

AK in Mar de Deus

Saturday, 1 October 2016

As Borboletas de Aleppo



Foto- Ryad Alhussen 


Eu não sei se o Trump manterá a sua palavra em relação ao Médio Oriente.Por ora, ele diz que isto tem que acabar e apenas por isto, quero que ele ganhe. A senhora Clinton, pelo contrário, já fez saber que o seu programa levará ainda mais morte ao Levante.
É preciso parar! Que ninguém se engane acreditando que o sofrimento de uns não será o sofrimento de outros. 

**O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque.

O Livro de Jade do Céu

"A chuva acaba de fazer um intervalo e o sol espreita timidamente por detrás das nuvens. O cheiro da terra molhada é intenso e convidativo. Um dos aromas da natureza que mais amo. Faz-me lembrar dos primeiros dias de outono, a época sazonal de que mais gosto. Uma época de quietude e introspeção. Uma época de balanço, como aquela que invade os velhos em fim de vida. No outono reflete-se sobre tudo e sobre nada. Sobre as atitudes e as escolhas, sobre o passado e o presente. O outono é a época do ano em que parecem nascer todos os porquês do mundo e o futuro, ainda que mudo e invisível reveste-se de um manancial imenso de possibilidades.
É disso que gosto no outono. Na estação das primeiras chuvas e das folhas mortas levadas pelo vento, tudo é possível. A morte e o renascimento ligam-se ferozmente num enlaçar de mãos profícuo. "


(In O Livro de Jade do Céu")


Tuesday, 27 September 2016

Mar de Deus

"Baixaram as persianas, abriram a porta que os expunha finalmente à crueza da realidade, e à luz da rua que quase os cegava. Era o fim do sonho. Voltavam ao inicio, ao ponto de partida. Cada um para o seu lado, noutro sonho qualquer. "

Ana Kandsmar in Mar de Deus

Sunday, 25 September 2016

Conversas com a minha avó


-Então, avó, porque chora?
-Porque tenho saudades das minhas netas.
-De que netas, avó?
-Olha, uma esteve cá há pouco tempo, mas já não me lembro do nome. Tem uma menina. É a Érica. A outra parece-me que se chama Dina, estou à espera dela para me mostrar o Simão. E há ainda outra. Aquela que me roubava chocolates quando era pequena.
-Avó, essa que lhe roubava chocolates, era eu. :)
-Oh…a sério? Deixa lá. Se fosse hoje eu deixava-te roubar chocolates à vontade. 

Outono

Com que agonia se ouve a voz das fontes? 
Se ela tem humildes alegrias quando canta
Saboreio um inverno em cada planta
E um verão em longínquos horizontes
Árvores maternas abrem os braços
Verdes, tristes, num gesto criador
Com impulsos derradeiros abrem espaços
E chegam mais perto ao seu senhor.
Mas tudo, risos e sonhos subsistem
Doura a tarde sonhos feitos de abandono
Nas sombras dos jardins em que resistem, 
eu passo, e piso folhas mortas de outono.
Se antes voaram bem alto como pombas
Hoje, sombras vagas a errar 
Por entre sombras.

Sunday, 18 September 2016

Outra alegoria da caverna

Vender a alma ao diabo parece ser mais ou menos recorrente para a maioria das pessoas. Terei eu já vendido a minha algumas vezes, sobretudo quando em troca de um mísero salário aturo o que em condições menos adversas nem a troco de milhões aturaria. Mas vendê-la da forma abjecta como José António Saraiva o faz com este livro, que revela a intimidade de várias figuras públicas, é se calhar um sinal inequívoco de que este homem já não tem alma, sequer. 
Mas não devemos culpar apenas o jornalista que muito provavelmente verá aqui uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro. Afinal, o livro será um sucesso e ele sabe-o. Num país onde impera a venda de revistas cor-de-rosa e pasquins que relatam dramas de faca e alguidar, não se espera outra coisa. 
A Maria que cumpre religiosamente o ritual da compra da Nova Gente e da Caras, entrará muito provavelmente, pela primeira vez numa livraria, para comprar o “ Eu e os Políticos”. Muitas “marias” deste Portugal o farão. Muitos “manueis” as imitarão. 
O jornalista Saraiva engrandecerá o ego com o seu sucesso editorial, a Gradiva inchará a gaveta do lucro e milhares de portugueses ficarão mais pobres. Não pelo dinheiro que pagarão pelo livro, mas pelo que de mau ele representa. 
Espantam-me aqui sobretudo duas coisas: Que as personalidades visadas permitam que a sua vida íntima seja explorada por terceiros com vista ao enriquecimento e mediatismo pessoal, e ainda, que um profissional que gozava de respeito e admiração entre os seus pares se permita a este mergulho na lama. 
Só a Gradiva me parece agir da forma coerente que tem caracterizado a maioria das grandes editoras. Essa já não me desilude. Como outras, publica cada vez menos escritores e cada vez mais gente que garante vendas, ainda que mal saiba escrever uma linha ou não tenha de facto, nada para contar, ou melhor: para acrescentar. 
Não há muito tempo, foi o apresentador de televisão Júlio Isidro, agora é o Saraiva. Tudo em nome das vendas. Culpa, claro das pessoas que deixaram de comprar escritores, e unicamente para alimentar a coscuvilhice, preferem levar para casa a roupa suja das caras conhecidas.
Há uma imagem que ilustra na perfeição este estado de negação em que se vive neste mundo. Se enfiados num poço fundo e escuro, que se lhes atire uma escada. A maioria preferirá parti-la para com ela fazer uma fogueira ao invés de usá-la para sair do poço e ver de novo a luz. Uma espécie de alegoria da caverna. 
É isto. É triste mas é isto.

E tudo o Vento Levou...


"Não te vou beijar. Embora precises muito de ser beijada. É esse o teu mal.Precisas de ser beijada com frequência, e por alguém que o saiba."


Wednesday, 7 September 2016

Funeral



Não o faço diariamente, mas volta e meia instruo os meus filhos sobre o meu funeral. Não que a morte me espere já ali ao virar da esquina, mas sei que me espreita. Cruzou-se comigo algumas vezes. A primeira de que me lembro, eu tinha 4 anos e olhei-a nos olhos, no fundo de uma mina de água. Por entre o lodo e musgo verdete, folhas de nenúfar a dormitar silenciosamente sobre as águas, ela deixou-me passar incólume, de regresso aos braços da minha avó.
De novo nos voltámos a encarar aos 19, nessa altura num bloco operatório gélido e imaculado. E outra vez aos 30. Apanhou-me de surpresa a cruzar um tapete de alcatrão. A chegada dela fez-se acompanhar de um baque ensurdecedor. Tombei com a cabeça sobre o vidro que se estilhaçou e de um ângulo completamente novo, observei toda a parafernália que habitualmente envolve um acidente na estrada. Muita gente curiosa se juntou, dando livres asas ao desejo de ver sangue, os bombeiros e a polícia assinalando marcha de urgência, desenvolvendo esforços para me manterem viva. Vi tudo. Ouvi tudo. E do centro da minha inconsciência, observei a cena. Via um filme. Onde eu estava, com a morte ao meu lado, podia muito bem ser uma sala de cinema. E as cenas chocantes que se projectavam perante os meus olhos faziam-me estremecer na cadeira. Pensava: Coitada! O carro vai incendiar-se e os bombeiros não conseguem tirá-la lá de dentro!”
Conseguiram. Escapei por um triz. Não sei em que momento a morte me deixou, mas quando dei por mim já estava entregue às equipas médicas. Só queria saber dos meus filhos. Se eles estavam bem. O carro havia sido em parte consumido pelo fogo e eu tinha escapado viva. Os meus filhos tinham escapado vivos. E a morte ter-se-ia, a dada altura, talvez por detestar o ajuntamento de multidões que vão ali só para a ver, timidamente afastado.
Todavia, ronda-me que eu bem a sinto. Espreita por uma oportunidade. Um deslize. Uma distracção. Um acto impensado. É assim que ela age. Como um predador que se esconde atrás das estepes das savanas, espera silenciosamente a presa. Ao mínimo descuido e estamos nas suas garras.
Por isso, por previdência, não vá o diabo tecê-las e eu acabar com os quatro costados num buraco de terra fria e húmida, no meio de vizinhos que não conheço de lado nenhum (Deus sabe como eu detesto ter vizinhança por perto), instruí-os. Não quero ir parar a um cemitério. A nenhum cemitério. Não quero ir parar a lugares onde encontrarei restos de outros que morreram antes de mim. 

Quero um funeral Viking. Quero deslizar sobre as águas calmas de uma lagoa, deitada no interior de um pequeno barco a remos ou sobre uma jangada. Na margem, um arqueiro experimentado nas lides da flecha, há-de lançar-me um archote certeiro, a ponta enrolada por uma tira de pano imbuída em querosene. As labaredas hão-de consumir o meu corpo à medida que a corrente me leva ao oceano. Depois, as ondas hão-de engolir-me e as minhas cinzas viajarão pelos sete mares.

Agora a sério…é uma pena que não se permita em Portugal um funeral temático. Toda a gente devia poder decidir como é que quer despedir-se deste mundo. 

Não terei o meu funeral Viking.Terei que me contentar com o crematório na capital. Mas instruí os meus filhos. Quero ao menos que o pote com as minhas cinzas seja enterrado onde possam plantar uma árvore. Uma floreira. Que nesse momento em que me dispõem na terra como uma semente, se ouça ao fundo o violino do David Garrett a soltar as notas de Bach. Quero o Air na minha despedida. E rosas brancas. E tulipas. Apenas rosas brancas e tulipas que podem vir de todas as cores. E quero que os meus filhos fiquem atentos ao preciso momento em que soar a última nota. Fiquem atentos. Nesse instante, nesse preciso instante, no nanominimicro segundo que antecederá o silêncio, eu pousarei um beijo nas vossas faces e dir-vos-ei ao ouvido que não poderia ter-vos amado mais, pois coube-me no coração, por vós, todo o amor que algum dia foi germinado.

Encontrado por aí...


Se encontrares uma mulher que escreve, deixa-a por perto.
Ela é aquela com sombras debaixo dos olhos e que cheira a Candy da Prada e chá de cidreira.
Aquela debruçada sobre um caderno qualquer gatafunhado de palavras complicadas.
Essa é a escritora.
Com os dedos ocasionalmente manchados pela tinta das canetas, a tinta que vai viajar entre as vossas mãos quando entrelaçares os teus dedos nos dela.