Thursday, 19 January 2017

“We did a lot of shit.”




Foto de Ana Kandsmar.

Li algures que este homem poderia ter dizimado a humanidade com uma bomba atómica, e ainda assim, seria glorificado pelos média, e por arrasto, por toda a população que se satisfaz com o que lê e ouve nas notícias. Há muita gente que se satisfaz com o que lê e ouve nas notícias. E é por isso incrível, a quantidade de gente não pensante que se deixa manipular pela propaganda da Reuters que já vem filtrada pelas várias agências de inteligência, nomeadamente a CIA, e da qual são subscritores os mais variados meios de comunicação do mundo, incluindo a CNN. 
A América beneficiou imenso com a Segunda Guerra Mundial, que arruinou os seus principais oponentes (a Europa, a União Soviética, a China e o Japão). Granjeou condições de exercer a sua hegemonia económica, tanto mais que metade da produção industrial global estava concentrada em meia centena de Estados. Talvez seja por causa da sobrepopulação. Quanto mais gente, mais escassez, e isso, não há como negar, mas também pode ser apenas a ganância que os mobiliza. O controlo de tudo nas mãos de meia dúzia é muito bom, sobretudo para a meia dúzia. 
Seja como for, lá que parece haver uma agenda para nos infernizarem a vida, parece. 
Portanto, vamos aos anjos. Nada melhor do que se colocar nos boletins de voto uma cara simpática que personifique (neste caso) o sonho americano. Tal como Martin Luther King defendeu naquele seu famoso discurso durante a Marcha de Washington em 63. “ Eu tenho um sonho que as minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver numa nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu carácter.” A América chegou lá e ainda bem, só é pena que tenha chegado apenas a meio sonho cumprido. O sonho de King devia ter-se realizado também na parte em que as pessoas são julgadas pelo seu carácter. Obama, consolidou o Black Power nas terras do tio Sam e a lufada de ar que levou aos americanos (e ao mundo), foi tão fresca, que nos deixámos ludibriar pelo seu carisma. Não digo que Obama seja um mau homem. Parece-me que não é, de todo. Mas para o nosso mal, foi um excelente fantoche. Só as imagens da família perfeita, as fofices entre Obama e Michelle, ele quase um cavalheiro inglês, ela, a perfeita grande mulher por trás do grande homem, o cão d’água português a correr feliz pelos corredores da Casa Branca, é que nos turvaram a visão. A nós e à Academia que lhe atribuiu o Nobel da Paz. Obama mereceu-o tanto quanto Hitler ou Estaline. Milhares de mortos em todo o Médio Oriente, não lhe dão propriamente o móbil para a atribuição de tão importante louvor. Lembro-me do famoso caso dos drones. Mas há mais. Vejamos: O financiamento do Estado Islâmico e a farsa em torno do esforço para combater o terrorismo. A colocação de fantoches no lugar de governos estáveis e respeitados no Médio Oriente. A América trucidou a Síria e levou o mundo inteiro a crer que os vilões nesta história bebiam vodka e usavam ushanka. Culminamos com a campanha difamatória de que a Russia terá usado hackers para manipular os resultados eleitorais que deram a vitória a Trump e a expulsão dos seus diplomatas. Tudo a bem da mentira. Em matéria de politica internacional, Obama colou o mundo ao movimento derradeiro do DoomsdayClock. Deu combustível às “revoluções de veludo” no leste europeu e financiou a horda fascista na Ucrânia. Desafiou a paciência de Putin. Mas, Obama não foi apenas um mau presidente para fora, foi-o também para dentro. Wall Street manteve-se incólume mesmo após a sua promessa de lhe cortar os tentáculos de polvo, e ao invés disso, favoreceu a banca e deu um novo fôlego ao capital. O programa ObamaCare revelou-se um desastre. Eis que após o primeiro mandato, o reformador e moralista do “Yes we can”, passou a sê-lo do “Yes we Did”, e completo: “We did a lot of shit.” 
A América é um país que pela sua importância não pode continuar a resvalar para o abismo. Porque quando cair, não cairá sozinha. Levará com ela um planeta inteiro. Relembremos erros do passado que nos custaram caro: O golpe fascista de 1973 no Chile, a intervenção militar no Panamá,Honduras e Paraguai. A invasão e destruição da Líbia e finalmente a intervenção criminosa no Iraque que constituiu a bola de neve que nos empurrou até aqui. 
Por tudo isto, Obama vai amanhã e já vai tarde. Não sei que tipo de presidente será Trump e desconfio que o tão afamado establishment do qual Obama faz parte não o deixará aquecer o lugar, mas espero que este “let’s make America great again”, aconteça e se transforme num Let’s Make The World Great Again. Com Trump ou qualquer outro. Não sou só eu que agradeço. É o mundo inteiro que agradece.

Tuesday, 3 January 2017

Imortais

"Somos imortais mas temos que morrer primeiro."

Ana Kandsmar in " O Livro de Jade do Céu."


Sunday, 1 January 2017

Bem-Vindo 2017!

Foto de Ana Kandsmar.

Que sejas tu, o Novo Ano, portador do fim do globalismo. Não de um globalismo que una, sendo que essa é a primeira ideia que lhe associamos, mas deste globalismo que destrói nações, arrasa as suas economias e identidade cultural. Que devolvas a soberania a cada povo, a sua autonomia com tudo o que lhe é adjacente, incluindo uma moeda própria. Que as parcerias sejam de facto parcerias, com base no respeito e aceitação das diferenças ao contrário da pretensão que nos tem acompanhado nos últimos anos: A ditadura da igualdade. Que sejamos capazes de caminhar lado a lado, sem a tirania das submissões. Que tu 2017, nos tragas a coragem necessária para que recusemos os totalitarismos das forças externas que oprimem povos inteiros. Que sejas um novo ano criador da força indutora da verdadeira democracia.
Desejo que finalmente tu, 2017, mostres aos que gritam que querem salvar o planeta o quão importante é hesitar mais antes de comprar o par de sapatos que vem da China, passa pela Holanda e só depois chega a Portugal, ainda assim vendido a preço de tuta-e-meia. Que se perceba que o que é muito barato para nós, provavelmente será muito caro a alguém. Que sejas o ano em que não fechamos os olhos à dor do outro.
Que não continuemos a destruir o planeta mil vezes mais cada dia por um novo gadget ou uma porra de um creme para o rosto. Que se olhe também por isto, para os que partilham o planeta connosco. Há mais vida na Terra que não é humana do que aquela que o é. Haja respeito! Não se salva o planeta com medidas patéticas e hipócritas. Haja consciência!

Os últimos anos têm sido uma âncora para a nova consciência de Unidade. Que não se confunda Unidade com falsa união. Os que defendem o individualismo dos cidadãos transformados em nómadas, os que defendem o espirito de cidadão do mundo, o cidadão que perde raízes, que não tem pertença e que erra por aqui e por ali consoante as necessidades dos mercados e do comércio livre, esquecem-se de que não estão a tornar-se unos, integrantes de qualquer coisa, mas ao contrário, apartados de tudo, isolados, e por consequência, cada vez mais egoístas e perdidos. Que os que defendem a migração percebam que migrar quase nunca é consequência de escolha, e que quase sempre se migra por necessidade. Que 99% dos migrantes prefeririam continuar a viver nos seus países de origem e que, se não se deve impedir a livre circulação de pessoas, é exigível que se criem condições para que seja possível a cada um escolher Ficar. 
Por anos acreditámos no poder da liberdade individual. O “ Eu Quero e Posso” tornou-nos reféns de uma selva de onde ninguém se salva sem sacrificar o outro. Esquecemo-nos de que mesmo na selva onde vivem os animais selvagens e inferiores, existem códigos de conduta e ética. Abre-nos os olhos para a necessidade de mudarmos no sentido da evolução e não do seu inverso. O homem não vem à Terra há milhares de anos para, chegado aqui, ter-se convertido num consumidor emburrecido e apenas isto.
2017, espero que nos mostres a diferença entre pertença/ identidade e xenofobia/racismo. E ensina a quem prega o seu contrário que defender a primeira não é praticar a segunda. Traz finalmente a paz para quem vive sobre a ameaça das armas. A paz para o Médio Oriente. A cada país a recuperação do que é seu e a coragem para lutar pela prosperidade a que tem direito. Que o empobrecimento dos povos, o desemprego, a precariedade, a corrupção, os lobbies, a insegurança, a decadência e o medo, sobretudo o Medo, tenhas deixado lá atrás, entregues a 2016.
Sejamos todos mais felizes contigo, 2017.

Wednesday, 28 December 2016

Em Destaque

Este Blog esteve ontem em destaque no BlogsPortugal. Obrigada!





Monday, 26 December 2016

Last Christmas...


Resultado de imagem para george michaelEu tinha 15 anos e as paredes do meu quarto não deixavam antever uma lasquinha de tinta. Por todo o lado, posters do George Michael, quase todos, relíquias encontradas no interior da Bravo, uma das poucas revistas que comprava com regularidade.A porta do quarto era o espaço reservado à Madonna com a sua saia de folhos, laçarote no cabelo e crucifixos nas orelhas,imagem oficial do videoclipe "Like a Virgin". Uma das laterais do roupeiro era lugar de repouso de Simon Le Bon, o fofuxo vocalista dos Duran Duran. Mas à minha volta, o espaço livre deixado pelos móveis,não podia ser preenchido por outro que não o Michael, o rosto mais bonito e sexy que alguma vez vira, na época um inspirador de suspiros que só viria a desapontar-me quando se confirmou a sua homossexualidade. Lembro-me de ter ficado tristíssima quando descobri que o mais provável era que ele nunca olhasse para mim, não por eu ser uma anónima de quem ele não suspeitava sequer a existência, mas porque eu era rapariga. Que me perdoem os inquisidores dos devaneios da adolescência, mas que ele era bonito era e embora a paixoneta me tivesse passado, as músicas ficaram para sempre e a minha favorita era "One More Try". 
2016 levou-me quase todas as referências musicais, não lhe perdoo que me tenha levado mais esta. 😪




Friday, 23 December 2016

Feliz Natal!

"Natal. E, só pelo facto de o ser, o mundo parece outro. Auroreal e mágico. "

Miguel Torga

                       

Thursday, 22 December 2016

Quase Natal


São 6 e meia da manhã. Ainda não dormi. Na rua chove copiosamente e a casa está fria. É Dezembro. Quase Natal. Adiei por mais um dia a compra de meia dúzia de presentes, mas deambulei pelo centro comercial da cidade. Observei a azáfama das lojas cheias de clientes, as mãos ansiosas a passarem cartões de crédito nas caixas, a carregarem sacos, embrulhos, roupas, perfumes, telemóveis. 
À mesma hora em que um rapaz encorpado, esculpido por muitas horas de ginásio, passava por mim com um LCD debaixo do braço, rebentava mais uma bomba em Aleppo. À mesma hora em que uma mãe indicava ao empregado da loja que queria um embrulho bonito para o novo iphone da filha adolescente, mais uma dezena de miúdos na Somália sucumbia à desidratação, desnutrição e falta de vacinas. À mesma hora em que um grupo de raparigas exibia orgulhosamente os vestidos para a festa de fim de ano, acabados de comprar na Stradivários, o Washington Times comunicava ao mundo que na Holanda, a eutanásia é oferecida como cura para o alcoolismo. À mesma hora em que me sento para me deliciar com um calzone carregado de queijo derretido e pepperoni, também leio no feed do Facebook que na Síria, mães e pais preferiram matar as suas próprias filhas para evitar que elas fossem vítimas de estupro por membros do Daesh. 
É Natal. Eu estava a ouvir cânticos, observava as luzes multicolores, os brilhos das decorações natalícias e metia na boca mais uma garfada do meu calzone. Mas a notícia das meninas sírias assassinadas pelos próprios pais, tirou-me o apetite e o encantamento e colocou-me à frente a minha filha, a minha linda Mariana, e transportou-nos às duas para o meio das ruínas de Aleppo. E aos meus olhos, a minha menina, tornou-se vítima da má sorte por ter nascido em tão horrível lugar onde é preciso matar para não morrer, onde é preciso morrer para não sofrer a humilhação e a desonra. São quase 5 da manhã. A esta hora em Aleppo, como em tantos outros lugares do mundo, há quem passe indiferente ao nosso natal, noites inteiras ao relento, à chuva, na melhor das hipóteses ao abrigo de meias paredes, recantos que oferecem um tecto e um bocado de chão onde estender um velho cobertor. A esta hora, as mães de Aleppo acolhem os seus filhos nos braços, colocam-lhes as mãos sobre as cabeças, protegem-lhes os ouvidos do barulho ensurdecedor das bombas. As mães que não pregam olho, passam a noite a olhar os céus, atentas aos clarões dos bombardeiros, embaladas pelo ronronar dos estômagos vazios, os seus e os dos seus filhos. Pés calçados, prontos a caminhar rapidamente na direcção de outro refúgio se é o perigo que pressentem sobre as suas cabeças. É natal. E em França, onde também há natal, é ofensivo mostrar o dom supremo que é a Vida. Envergonham-se as mulheres que recusam fazer parte da eugenia e retira-se-lhes a bravura com que aceitam os seus filhos “diferentes” nos braços. Eu poderia continuar a escrever sobre todas as calamidades deste mundo, sobre todos os horrores que precisamente a esta hora estão a acontecer, atirando para o mais desumano desespero, milhares, milhões de pessoas em todo o mundo e quando acabasse, já seria natal outra vez, mas do próximo ano. Mas é natal e no natal o tempo é o de pensar na ceia, no bacalhau e nas rabanadas, nas luzes e nos enfeites, nos presentes e no orçamento que é preciso esticar para os comprar. Tanto apêndice para um natal que é apenas o aniversário de Jesus, o Homem que ensinou o Amor, a fé, a solidariedade, a simplicidade e o respeito pelo outro. O mundo está a abrir-se debaixo dos nossos pés e nós, ainda que nos sintamos no pedestal, estamos também a cair para o abismo, tal como as raparigas que os pais matam na Síria para não serem violadas pelos mercenários do ISIS, tal como os miúdos da Somália que morrem a revirar os olhos em busca de um pouco de pão…tal como…o tipo que está aí em baixo, a enrolar-se num pedaço de cartão à porta do vosso prédio. E vocês ainda acham que é natal? Não me FODAM! ISTO NÃO É NATAL! Isto não é Natal.

                            Foto de Ana Kandsmar.

Milagres

"Há quem diga que um dia ainda vai olhar para trás e rir-se de todas as adversidades. Eu acho que vou chorar. Talvez de alegria mas vou chorar, porque é inumano percorrer caminhos inóspitos, atravessar desertos e chegar em algum lugar melhor sem considerar que pequenos ou grandes milagres operaram na nossa vida. E não se ri de milagres."

Ana Kandsmar in Mar de Deus


Saturday, 10 December 2016

"Um romance mitológico de cortar a respiração, com muito suspense e emoções fortes."

Assista ao novo BookTrailer d'A Guardiã, O Livro de Jade do Céu. Agora com um preço especial antes de ir para as livrarias. Apenas 19 euros com oferta do portes de envio para Portugal Continental. Encomendas para o e-mail beedynamicbook@gmail.com!

Quem ainda não leu O Livro de Jade do Céu, leia aqui mais uma opinião de um leitor. 

Grata, Nuno Novo!


"Concluída que está a leitura do livro "A Guardiã - O Livro de Jade do Céu", como ficou prometido, e porque gosto de honrar os meus compromissos, cumpre-me, agora, emitir a minha modesta opinião.
Já de há uns tempos a esta parte, que o livro me tinha suscitado curiosidade. O título era (é) bastante apelativo para quem gosta de explorar no imaginário, campos da criação divina/mitológica.
As minhas expectativas iniciais, agora que está concluída a sua interessante e intensa leitura, não foram de modo algum, defraudadas. Antes pelo contrário.
Um romance mitológico de cortar a respiração, com muito suspense e emoções fortes.
Embarquei num "espectro de luz" e viajei por muitos dos lugares míticos da história universal.
Avalon e Camelot, com as suas lendárias personagens de Rei Arthur e Lancelot e a rivalidade pela disputa de Genneviere, a donzela que conquistou o coração de ambos.
Breve passagem pela Terra Santa e Palestina, sem esquecer a cidade de Petra e os seus deslumbrantes monumentos na vizinha Babilónia e Mesopotâmia.
Uma viagem pelo Renascimento e pela mão do artista Michellangelo, passando de igual modo, figuras e obras bem portuguesas. E claro, por Lisboa e Zona Oeste, em geral e Óbidos, em particular. Sem esquecer a sua ex-libris licorosa e claro, o comércio que a envolve e serve, em copinhos de chocolate.
A abordagem saudável e equilibrada à história da religião muçulmana, do seu profeta Maomé, e as diferentes interpretações do seu conceito.
Sem esquecer, uma viagem ao imaginário de James Murray Barry, e o mundo encantado de Peter Pan.
A abordagem a personagens bíblicas cirúrgicas, símbolos e rituais de adoração ao Demo. E com uma pitada de enigmas e charadas q.b..
Uma história de amor improvável, com ligeiros despertar de sensualidade.

Adorei. Muito!

Dan Brown, em o "Código da Vinci", aborda, também, este tipo de rituais de Ordens/Seitas, no caso em concreto, do Priorado do Sião. E o mítico Graal... afinal, a descendência Merovingia!
Ana Kandsmar, fiquei deveras surpreendido com a forma como conciliaste este emaranhado mitológico, e o descreves de forma tão ilustre e peculiar.
Afinal, o bem e o mal; a luz e as trevas; o Yin e o Yang; o certo e o errado; o dia e a noite; o calor e o frio; Deus e o Demónio, serão sempre indissociáveis!
Trouxe-me à memória uma frase que proferia muitas vezes a minha saudosa avó materna "o amor e o ódio, caminham sempre de mãos dadas, há que os saber equilibrar e controlar".
Voltando ainda à obra de Dan Brown, retenho algumas expressões que com alguma regularidade foram utilizadas, tais como "anuir" e seus derivados, "tamborilar" e "assomou-se".
De igual forma, neste fantástico e surpreendente romance, recorres com alguma frequência a termos como "aquiescer" e "excruciante". A tua percepção e a forma como revés o Outono e o descreves com tamanha objectividade no papel de Luana Kelman😉

Parabéns.
Adorei e recomendo vivamente a sua leitura."

(Nuno Novo)



Thursday, 1 December 2016

Já à venda!



À venda nas livrarias a partir de Janeiro.  Compre agora, enviando o seu pedido para beedynamicbook@gmail.com







in Mar De Deus

"Deixa que as tuas escolhas reflictam as tuas esperanças, não os teus medos."
Ana Kandsmar in Mar de Deus


Sunday, 20 November 2016

Confira aqui alguns excertos d'O Livro de Jade do Céu

                 
«Não receies as Gárgulas. Ao invés disso, entra. Atravessa o recinto que te leva à beleza das açucenas. Num dia em que não haja oração nem o burburinho das vozes que ressoam os cânticos, cruza o arregaço das cortinas que compõe o arco e contempla o céu das oito pétalas. No alto hás-de ver um Anjo. Um Anjo que segura o que não guarda. Colocar-te-ás no lugar dele. E eis que, estando tu no lugar do anjo, verás o que ele vê e guardarás e que ele guarda».

"Recuo à minha infância. Pronunciar aquele nome, Júlia, a minha tia Júlia, era voltar a sentir o cheiro do pão-de-ló acabado de cozer, o barulho repetitivo do pedal da máquina de costura, o sabor das fatias do pão caseiro com mel, o barulho do granizo a cair sobre o telhado de zinco da adega, as manhãs dos primeiros dias de Dezembro passadas a apanhar musgo nas várzeas que na Primavera se transformavam em pasto para as ovelhas. E os olhos doces. Os olhos doces da minha tia Júlia que pareciam sempre transbordar de amor e de bondade."



"Há anos que não vou ao Iraque. É uma loucura ir ao Iraque. Aquele país é um deserto retalhado por dois rios onde corre mais sangue que água. Ninguém quer ir ao Iraque. A menos que o faça por dinheiro. Vão os senhores da guerra, os heróis da guerra, os lunáticos da guerra, e os curiosos pela guerra. Os repórteres. Os contadores de histórias que nunca dizem a verdade. Contam apenas estórias. Eu sou arqueóloga. Não conto estórias. Conto a história. Já fui ao Iraque. Para encontrar vestígios do tempo em que o Iraque vivia em paz."


"A chegada à cidade de pedra é, tal como previsto, um regresso ao passado. Já experimentei a forte sensação da nostalgia em muitos lugares do mundo, e Petra não é diferente. Pelo contrário. A cidade arrancada das rochas parece ter o condão de me extasiar, de me deixar completamente rendida à beleza, ao misticismo, ao corredor do tempo que se abre perante os meus olhos, impiedoso e cruel. As palavras do velho Yeshua ressoam na minha mente e trazem-me de novo a imagem de Al-Uzza, humilhada, expropriada da terra, das gentes e da vida que um dia lhe pertenceram. Na terra que já foi minha, olhando, sentindo e absorvendo os aromas, crio a ilusão de que nunca antes soube da existência deste lugar."

"Os homens sonham secretamente com os apocalipses. Os bíblicos e os cinematográficos. O Day After que há-de vir carregado de novas possibilidades. Um Armagedom promissor, um desvio de rota que os leve a bater de frente com um pedregulho espacial ou que os conduza à entrada abrupta num buraco negro, de minhoca talvez, uma dobra no universo que os catapulte para os novos amanhãs tão diferentes de hoje. Secretamente desejam o fim. Invejam o jurássico e as eras glaciares. A hecatombe há-de salvá-los deles mesmos, qual arca a protege-los do dilúvio. A morte há-de salvá-los da vida."


"Kasbel murmura de novo qualquer coisa de ininteligível e o meu corpo gira no ar como se apanhado por um remoinho. Depois deixa-me cair. Por breves segundos, sou disparada para fora da couraça física que acolhe Eluaryne e vejo-a a ser lançada no chão. A violência do impacto suga-me de novo para dentro do corpo que é projectado a vários metros de distância. Sinto um ardor bárbaro no meu rosto quando ele raspa o solo."



“-É neste ponto que nos reunimos a Jonas e ao seu complexo, não é Michel? Jonas é alguém que tem asas para voar, que tem um desejo de espaço, um desejo de infinito, mas não tem coragem. Ele apara as suas asas, para continuar adaptado à sociedade na qual se encontra e que o proíbe de ir ao outro, de ir ao inimigo, de ir ao diferente, limitando-se apenas à dor da sua perda.”



“-Nero elevou-se aos píncaros da criatividade depois de ter posto Roma a arder! É verdade, ainda te lembras daquelas maravilhosas labaredas que arrasaram Cartago? Fui eu! Hiroxima e Nagasaki? Também fui eu! Tal como fui eu o criador das máfias, de todos os tipos de tráfico, da toxicodependência, da prostituição, violação, pedofilia. O Holocausto! Auschwitz! Ah, Auschwitz! Que maravilha da criação! Antes disso, o massacre de São Bartolomeu ou o genocídio arménio haviam sido brincadeiras de crianças! Adorei cada uma das minhas criações. A lepra, a cólera, a sida, os cigarros, as discotecas, o sexo anal, o adultério, os assassínios, as marés negras, os assaltos à mão armada, a indústria farmacêutica, o Heavy Metal! Mas Auschwitz... Ah, que saudades que eu tenho de Auschwitz!”

"Os meus olhos não se desviam do Mensageiro e avanço a cada palavra dele para o interior das minhas próprias memórias. Da teia do tempo que me separa daqueles acontecimentos trágicos, surgem ténues recordações. A princípio esmorecidas, embaciadas, como um espelho envolto em vapor. Imagens confusas como se emparedadas por um nevoeiro denso, que a pouco-e-pouco, se tornam claras e reais. O coração que me bate no peito acompanha-as, identifica-as e agita-se, galgando num pulsar crescente. Aquele corpo deitado no chão frio da cripta fora o meu. Foram minhas as roupas rasgadas, atiradas aos cantos escuros do aposento. Foram meus os seios desnudos e violentados, a carne suja e rasgada, a dor, a humilhação e por fim a perda."



"Os olhos do arcanjo passeiam pela divisão, apreciam o sofá largo, em forma de L e saltam deslumbrados para as serigrafias a preto e branco nas paredes. Todas elas retractam momentos únicos na história. Uma mulher que atira um cravo à espingarda de um soldado durante a revolução de Abril; um rapazinho mal vestido e sujo, perdido numa das ruas de Berlim, destruída pela guerra; o genial mestre do suspense, Hitchcock, fumando o seu charuto enquanto uma espiral de fumo branco parece querer evadir-se da moldura e ainda uma outra, cuja concentração de muçulmanos em plena oração em Meca, impressiona até o mais acérrimo dos ateus."




"Emudecidos perante o cenário deslumbrante que se desenha em frente dos olhos, os celestiais não se dão conta de que a minha transformação está prestes a começar. Continuo a ser o corpo humano que permanece ao lado deles, mas já não falta muito para que Eluaryne ocupe o meu lugar. Com calma e precisão, vou colocando por ordem cada uma das páginas do Livro de Jade do Céu. As minhas mãos movem-se devagar como se manuseasse um bisturi numa mesa de operações. Por vezes, a luz ténue da lua, revela fugazmente o esplendor da sua forma. Quando os reflexos dourados da nova energia se avolumam nas extremidades do meu corpo, olho para as minhas mãos e vejo-as cristalinas e brilhantes."

"O rosto do meu raptor é belo e fleumático. Os olhos daquele ser, forte e imponente, desviam-se dos meus para fixar Miguel e Mendel que continuam no chão. Com um desdenhoso estalar de dedos, põe fim ao meu grito e aperta-me contra ele. Encosta a boca no meu ouvido e sussurra num linguajar que eu não entendo. Sinto a minha pulsação acelerar. Vejo Miguel de espada em riste. A Justiceira brilha no escuro na direcção de Kasbel que se esquiva, colocando-se na minha retaguarda."
"Ele solta uma gargalhada. Um som metálico cortante, que me gela até aos ossos. A minha transformação ainda não está completa, mas a dor no meu corpo selado pelos braços do Arcanjo Negro, é um sinal de que fiquei num limbo. A meio de um caminho em que Eluaryne e o corpo de Luana estão perfeitamente fundidos, sem que haja qualquer hipótese de fuga para uma ou para outra. Assustada, a centenas de metros acima das cabeças de Miguel e Mendel, esvazio a mente na esperança de dar espaço a Eluaryne para que ela se escape para Kollob. Mentalmente, recito o Pai Nosso para deixar a minha mente em branco."

Ana Kandsmar in A Guardiã, O Livro de Jade do Céu

Friday, 18 November 2016

Amar as estrelas...



Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, 
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido 
tem o que dizem, quando estão contigo? "
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac

O maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal

"À minha frente estão duas gavetas onde só guardo tesouros. Coisas de muito valor. Uma tem pacotinhos de supari, masala tea bags, caixas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, um sari lindo, rendado, fiadas de flores de jasmim já secas e esboroadas e ainda um cd de Ravi Shankar. Um cd que quando toca, solta um som tão mágico e envolvente como só uma cítara pode ter. Um dia, eu hei-de morrer e a Índia, continuará a ser a Índia. Com ou sem dejetos e cadáveres que boiam indiferentes ao choque dos turistas, o Ganges e o Yamuna, continuarão a ser os rios onde já molhei os meus pés.
Na outra gaveta tenho postais ilustrados, fotografias que eternizaram momentos irrepetíveis, e alguns textos que fui escrevendo, inspirada pelas paisagens e pessoas que emprestam a alma àqueles lugares. Ainda hoje guardo tudo com a convicção de que se a minha casa sofresse um incêndio, seriam estes pequenos (grandes) tesouros que eu tentaria salvar a todo o custo. Quando tenho saudades da Índia, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros dos mercados enquanto a cítara de Ravi Shankar enche a casa. Quando é a nostalgia de lugares tão belos e indiscritíveis, preciso de olhar as fotografias. Afronto-as para me relembrar dos pormenores. Vejo os minaretes em Istambul e ouço-os verter para fora as vozes afinadas dos muezins. Vejo a Via Dolorosa impregnada de peregrinos que se misturam com muçulmanos e judeus, aytolas e rabinos, crentes e ateus. É assim Jerusalém. Um enorme templo de onde os vendilhões nunca saíram. Vejo um aborígene de pele escamada pelo sol, que sopra um didgeridoo ecoando o som harmonioso pelo deserto australiano com as Olgas como pano de fundo. O cenário mágico das ilhas de Pazcuaro, as pirâmides de Tikal, as ruelas estreitas de Varanasi pontilhadas de santuários… E preciso das palavras. Quando lhes sinto a falta, leio nas frases que brotaram cruas dos meus silêncios, o maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal."

Ana kandsmar in A Guardiã- O Livro de Jade do Céu

Sunday, 13 November 2016

Que livros vai comprar neste Natal?

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(Até 18 de Novembro!)

Friday, 11 November 2016

But you don't really care for music, do you?

Well I've heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
Well it goes like this:
The fourth, the fifth, the minor fall and the major lift
The baffled king composing Hallelujah


R.I.P, Cohen. Ainda bem que estiveste entre nós.

Thursday, 10 November 2016

O bicho papão que irá assombrar o telhado da Casa Branca

Já li artigos excelentes sobre as eleições americanas. A maioria, claro, mostrando perplexidade e temor pelo futuro que se adivinha impróprio para consumo independentemente de quem preside a uma das maiores potências do mundo.
O Trump não é nenhum santo e aliás, foi algumas vezes, irritantemente estúpido, chegando a revelar aquilo a que eu poderei chamar de alguma ingenuidade politica, o que até faz algum sentido, tendo em conta que o homem não vem da escola patrocinada pela Goldman Sachs, empresas petrolíferas ou as sinistras famílias detentoras da banca. Trump vem dos negócios. Por muitos considerado péssimo gestor, e aqui, dizem, com um historial duvidoso e pouco confiável. Aliás, não há realmente muito o que possa considerar de confiável em Trump, a não ser talvez, o facto de ele não ter saído de nenhum dos pântanos onde se habituaram a nadar todos os seus antecessores (o que é, a meu ver, bastante).
É por isso, nesta escala, genuíno. Tão genuíno que por diversas vezes abriu a boca para dizer o que muitos pensam mas não dizem. 
Na verdade os problemas de Trump não foram os comentários racistas ou xenófobos nem mesmo os misóginos. Desconfio até de que não houve propriamente um sentido jingoísta na sua acepção extremada, nem tão pouco sinais de misoginia (afinal, o mal de Trump parece-me ser precisamente o contrário. Ele gosta de mulheres e gosta muito.) O problema de Trump é ou foi, o de não medir o que diz. O problema de Trump foi ter-se esquecido de que um discurso bonito e politicamente correcto cai (quase sempre) irreflectidamente nas graças dos falsos puritanos e donzelas facilmente impressionáveis. Os discursos politicamente correctos têm sempre o condão de deslizarem correntemente pelos ouvidos adentro dos pregadores dos evangelhos, das igualdades e fraternidades, dos brandos e bons costumes, e todavia, são estes mesmos pregadores críticos de Trump que, para além de pregar, não mexem uma palha para colocarem em prática o que lhes sai na oratória. Importa no entanto, dizer que no que ao nonsense diz respeito, em Trump não há nada de novo. Veja-se Berlusconi ou Sarkozy, as escandaleiras, os discursos inflamados e nacionalistas (Órban, Boris, Farage), ou não venhamos a ter num futuro muito próximo com Marine Le Pen, que é cada vez mais, absolutamente elegível. E note-se que se estas figuras, estes arautos das mudanças radicais imergem, fazem-no respondendo à vontade inequívoca dos povos de romper com um sistema caduco, moribundo, cujo crédito é zero e o desgaste palpável. Já ninguém quer isto. Amargou.
Trump foi insolente durante toda a campanha e chegou a parecer um rapazola deslumbrado com a possibilidade de assentar arraiais na Casa Branca, é um facto. Ainda não sei se confio na sua retórica altruísta para o bem do povo americano. Todavia, confesso, mais do que a vitória de Trump, satisfaz-me a derrota de Hillary. 
Também é um facto que Trump é podre de rico. Não depende, ou pelo menos não dependeu até aqui dos tubarões da finança. E é por isto legítimo que subsista a dúvida: terá corrido à presidência para afagar o ego? Terá sido tudo por vaidade? Ou há mesmo uma vontade de esmurrar os poderes instalados? Quero acreditar que é esta última hipótese o motivo da noite de ontem. E se assim for, apenas por isso, já valeu a pena a vitória dele. 
O escritor Richard Zimler diz que Trump tirou a tampa da Caixa de Pandora "e toda aquela gente super conservadora, racista, misógina, homofóbica começou a pensar :‘já podemos falar em voz alta que não gostamos dos mexicanos, já podemos falar em voz alta que não gostamos dos judeus."
Quanta parvoíce diz o Sr. Zimler! Afinal em que raio de mundo queremos viver? Num mundo onde as pessoas não digam em voz alta que não gostam de mexicanos, judeus, muçulmanos, etc, ou num mundo, onde sejamos realmente capazes de gostar dos diferentes e aceitar as diferenças? Se Trump abriu alguma Caixa de Pandora, foi para precisamente escancarar a enormíssima mentira em que vivemos há várias décadas, desde que o multiculturalismo passou a ser moda, sem que nunca nos tivéssemos preocupado primeiro em aprender a olhar para o outro como queremos que o outro olhe para nós.
Não sejamos ingénuos. Para que se verifique alguma mudança, vamos precisar inevitavelmente de rebentar com o que está estabelecido. Eu não gosto do que está estabelecido. Temos um mundo péssimo, sem valores morais e éticos, rendido ao consumo, inebriado com a falsa aura de aceitação das diferenças, do multiculturalismo (tudo tretas), esmagados pela imigração em massa que só trouxe desequilíbrios. Estamos e assim continuaremos até que mais Trumps apareçam, asfixiados pelas consequências nefastas da globalização. 
A economia mundial não assenta, como seria o ideal, na prosperidade, mas sim na miséria dos povos. Assim não podemos continuar. Há que repensar e refazer (sem pés de barro) esse caminho da igualdade e da fraternidade entre os povos. Trump faz bem em querer derrubar esses mitos nos quais acreditamos hoje. Tudo isto é mentira e os americanos que votaram em Trump, perceberam-no. E se o perceberam, não é porque são mais burros, mais incultos, mais analfabetos, do que os que com maior preparação académica, mais viajados e mais jovens votaram em Hillary. Perceberam-no porque sentem na pele, todos os dias, as dificuldades da sua própria sobrevivência. Só espero que o recém-chegado à Casa Branca esteja à altura de abrir novos caminhos. Serão difíceis de trilhar? Serão. Desengane-se já quem pensa que é possível reconstruir sem destruir primeiro.




Wednesday, 9 November 2016

E então, eis a matéria de que sou feita:



 A(na)tomicamente predisposta à mudança, ao risco, e isto é, em primeira, segunda ou última instância, Viver. 
Primeiro que nada a queda. O salto sem pára-quedas no vazio, o embate doloroso na rocha nua, a dor, os rasgões, a alma a contorcer-se num oito. Depois, bem... depois há sempre uma brisa que me seca as lágrimas. Ressurjo do meu féretro, desenrolo-me como um bicho de contas que se abre e esperneia. Espeto o indicador a perceber a direcção do vento e sigo. Dorida. Sofrida. Mas avanço convicta de que ficar ali no meio da dor tem o seu tempo útil, e o tempo útil é apenas aquele que é usado para entendê-la, o tempo suficiente para dissecá-la, para esquartejá-la, esmiúça-la. No fundo, torná-la, não pequenina ou insignificante, mas transportável. Não há dor que não possa ser usada como um bom manual. Por isso, carrego sempre as minhas dores. Não ao alcance do meu coração, mas sempre na orla da minha mente. O aprendizado emerge delas e isso, apenas isso, dá significado a qualquer momento em que me sinto ruír, em que me sinto rasteira, derrotada. A dor acaba sempre por me ensinar quão bem vindo é cada minuto que eu tenha, algum dia, amaldiçoado.


Ana Kandsmar in Mar de Deus

A noite mais longa: nós, os "deploráveis", tínhamos razão!

Que se ponham os olhos na América. Oxalá Trump venha a ser o presidente que a América e o mundo precisam. Mas esta vitória é antes de mais, o grito preocupante da revolta de quem sistematicamente é deixado para trás, esquecido pelos ricos que ficam cada vez mais ricos. O mundo está a mudar, não haja duvida. Os poderes instalados, os partidários do sistema fraudulento e corrupto terão que ser corridos das suas redomas, onde têm, ano após ano, década após década, estado a salvo da miserável existência das maiorias. Eu, para já, aplaudo Trump.

A noite mais longa: nós, os "deploráveis", tínhamos razão

Foi, sem dúvida, uma daquelas mudanças que marcam o curso da história. Para quantos se deixam dominar pela sua subjectividade, gostos, inclinações e desejos, esta noite que mudou o mundo foi recebida com choque, surpresa, indignação e estupor. Tive imensos problemas por haver formulado a possibilidade da vitória de Trump.
Amigos houve que me chamaram tudo por alinhar aqueles argumentos de racionalidade que, afinal, coincidiam perfeitamente com a percepção que os norte-americanos exibem a respeito do descaminho do seu país e do mundo. Não querendo ser injusto, conto pelos dedos de uma mão - vá, concedamos, pelos dedos de duas mãos - o número daqueles que perceberam a corrente da história em movimento. É preciso um convívio assíduo com as dinâmicas sociais e históricas para perceber que nada acontece por capricho inopinado.
A hipnose induzida pela oligarquia e seus aliados e financiadores (a banca, os media, os think tanks do mundialismo e os agentes de desvairados experimentalismos que se deixaram enganar pelo conforto da ideologia) rompeu-se. A retribalização que quiseram impor à consciência de sociedades modernas, fomentando guerras e ódios (de género e de sexo, de geração, de raça, de religião, de classe) falhou, pois aqueles grandes agentes de socialização e integração que são desde sempre os pilares das sociedades e dos Estados-nações ( a lei e a ordem, a conformidade e a integração, a ideia do Mesmo e do estranho, a ideia de fronteira étnica, social, linguística, cultural económica) soaram a rebate perante a iminência de um desastre irreparável.
Deito-me, já um novo dia se preparara para despontar, feliz por não ter tido medo de encarar a história que se movimentava sob os nossos pés. Àqueles que comigo comungaram nesta percepção da mudança do eixo da história do nosso tempo - como, aliás, já o haviam feito no que respeita à Rússia, ao Brexit, às guerra na Síria, na Líbia e no Iraque - só posso lembrar que estávamos certíssimos. Aos outros que nunca se conseguem afastar do nível primário e emocional reactivo, que tudo psicologizam, fulanizam e que tudo transformam em caricatura, é tempo de iniciarem um caminho mais exigente, pois a história mudou hoje. Isto não se fica pelos EUA: amanhã será na Áustria, em França, na Escandinávia e na Alemanha.
O mundialismo arrogante parece ter sido inapelavelmente ferido, mas tentará certamente lamber as feridas e insistir na mesma receita que se mostrou iníqua para o povo americano, para os povos europeus e para os povos do Médio Oriente e da África, perante cujo sofrimento nos devíamos encher de vergonha. Hoje inicia-se a reinvenção política do Ocidente; hoje, triunfou a rebelião pacífica contra as más elites que trouxeram a crise financeira, a crise económica, as guerras de agressão, a manipulação por atacado de sociedades que se julgavam maduras. A paz parece ter triunfado. Haja Deus !

"Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente.A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social."

Palavras do MEC que poderiam ter sido minhas.

Thursday, 3 November 2016

O tal livro que brotou dos meus dedos...


Caros amigos e leitores, aqui está O Livro de Jade do Céu em pré-venda. Até dia 18 deste mês de Novembro, poderão adquirir aqui o livro a um preço promocional,( nas livrarias custará 22€, aqui poderão adquiri-lo por 19 com a oferta dos portes de envio.) Para pedidos basta que me enviem mensagem privada. Obrigada a todos.