Saturday, 22 October 2016

Insistir, persistir e nunca desistir.


Reescrever, reeditar, aguardar pacientemente a elaboração das paginações, das capas, os textos finais, e todos os pormenores que nos fazem acreditar piamente que "É isto!", que o trabalho está bem feito, que nos orgulhamos do que fizemos e do que fizeram todos aqueles que apostaram em nós e trabalharam connosco até ao surgimento do resultado final, tudo isto é parte de um caminho que só entende quem o faz. 

Eu sou hoje novamente uma criança em véspera de Natal. Eu sou hoje novamente a mãe babada de um filho renascido. Em breve tê-lo-ei nas minhas mãos. Em breve, cada um de vocês poderá tê-lo na vossa mão.
Quero que fique bem claro: Escrevo apenas, porque se não o fizesse não seria eu. O meu ADN está impregnado de textos, histórias e é-me de todo impossível não as deixar sair pelas pontas dos meus dedos. Se a vida não me tivesse permitido aprender a escrever, teria hoje de as contar, talvez à volta de uma fogueira. 
Sei que a edição anterior não foi um sucesso de vendas. Sei que muito provavelmente também esta não o será. Há demasiados factores a ter em conta para que um livro se venda e o primeiro de todos é o meu nome. Não sou ninguém. Mas sou, e sou-o convictamente, uma lutadora nata que acarinha cada um dos seus sonhos e cuida para que as adversidades da vida não os mate. 
Conto convosco, não para me levarem em ombros, mas para me darem o beneficio da dúvida. Escrevi esta história com todo o amor de que fui capaz. Reescrevi-a redobrando a intensidade desse amor. Coloquei o meu mundo interior aqui. É aqui que eu vivo enquanto muitos de vocês dormem e eu fico sozinha com um teclado de computador. Aqui, neste mundo que transpus para a história da Luana, só há possibilidades. Há um mundo que se renova e revela. Não é uma verdade. É, como disse, possibilidade. Que sejam vocês os justos avaliadores da beleza desta possibilidade, e se gostarem dela, lutem para a tornar real.
Lá para o fim de Novembro, a Guardiã bate de novo as asas. Espero que a acompanhem neste novo voo.

Especial gratidão para a minha nova editora Helena Mineiro da Editora Mahatma que acreditou. :)

Tuesday, 18 October 2016

A Guardiã está de volta!

Para a reedição do Livro de Jade do Céu, decidi honrar o homem (o meu avô) que me deu um apelido que raramente uso, "Gaspar" e remetê-lo à sua origem iraniana, "Kandsmar".
 Assim, a história da Guardiã voltará a ser comercializada a partir do próximo mês de Novembro com a assinatura Ana Kandsmar. Neste momento, dão-se os últimos retoques na nova capa e paginação antes de seguir para a gráfica.
Uma estória reescrita, agora contada na 1ª pessoa. Espero que ela cumpra o objectivo de vos fazer sonhar, mas acima de tudo questionar, tal como nos diz o autor do prefácio, Luis Miguel Rocha, sobre o ínfimo conhecimento que temos de quem somos, conhecimento que não preenche afinal o espaço que ocupa um átomo.

Deixo-vos aqui um excerto.

"À minha frente estão duas gavetas onde só guardo tesouros. Coisas de muito valor. Uma tem pacotinhos de supari, masala tea bags, caixas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, um sari lindo, rendado, fiadas de flores de jasmim já secas e esboroadas e ainda um cd de Ravi Shankar. Um cd que quando toca, solta um som tão mágico e envolvente como só uma cítara pode ter. Um dia, eu hei-de morrer e a Índia, continuará a ser a Índia. Com ou sem dejetos e cadáveres que boiam indiferentes ao choque dos turistas, o Ganges e o Yamuna, continuarão a ser os rios onde já molhei os meus pés.
Na outra gaveta tenho postais ilustrados, fotografias que eternizaram momentos irrepetíveis, e alguns textos que fui escrevendo, inspirada pelas paisagens e pessoas que emprestam a alma àqueles lugares. Ainda hoje guardo tudo com a convicção de que se a minha casa sofresse um incêndio, seriam estes pequenos (grandes) tesouros que eu tentaria salvar a todo o custo. Quando tenho saudades da Índia, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros dos mercados enquanto a cítara de Ravi Shankar enche a casa. Quando é a nostalgia de lugares tão belos e indiscritíveis, preciso de olhar as fotografias. Afronto-as para me relembrar dos pormenores. Vejo os minaretes em Istambul e ouço-os verter para fora as vozes afinadas dos muezins. Vejo a Via Dolorosa impregnada de peregrinos que se misturam com muçulmanos e judeus, aytolas e rabinos, crentes e ateus. É assim Jerusalém. Um enorme templo de onde os vendilhões nunca saíram. Vejo um aborígene de pele escamada pelo sol, que sopra um didgeridoo ecoando o som harmonioso pelo deserto australiano com as Olgas como pano de fundo. O cenário mágico das ilhas de Pazcuaro, as pirâmides de Tikal, as ruelas estreitas de Varanasi pontilhadas de santuários… E preciso das palavras. Quando lhes sinto a falta, leio nas frases que brotaram cruas dos meus silêncios, o maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal."

Ana kandsmar in A Guardiã- O Livro de Jade do Céu

Saturday, 15 October 2016

Das mil e uma razões para gostar de ti.


Um dia escreverei sobre cada uma delas. Sobre cada momento que tornas especial, entre o acordar e o regresso a casa, e tudo o que está de permeio, os teus olhinhos meigos a transbordar ternura e a alegria incontida com que me recebes quando abro a porta ao anoitecer ou me dás os bons dias. 


Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te abandonar em qualquer esquina, em qualquer pedaço de alcatrão, de quanto amor és capaz de sentir por quem não é sequer da tua espécie. Pergunto-me se alguma vez viram em olhos como os teus, a alma que também é como a deles parte do mesmo Criador e por essa razão, em algum momento das suas vidas lhes sentiram a ligação, a conexão divina. Se como eu, alguma vez tiveram a sorte de se sentirem enredados, envolvidos em nós de marinheiro com outros como tu.  Que latem como tu, que como tu correm pela casa atrás de uma bola, pulam de contentamento de cada vez que vão à rua,se deliciam com patés fedorentos...Como tu que rebolas sobre os meus lençóis depois do banho e te aninhas aquecido pelo meu corpo, sobre a manta que puxo para nos cobrir aos dois. 
Contemplei a tua alma no primeiro dia em que te vi. Brilhou nos teus olhinhos negros e conectou-me. Sentia-a dizer-me coisas que só o meu coração foi capaz de ouvir. Soube então que o teu lugar era comigo. 

Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te abandonar em qualquer esquina, em qualquer caminho de floresta, o que é comunicar com uma alma que se faz ouvir no coração. Pergunto-me se saberão, aqueles que seriam capazes de te maltratar, de te amarrar a um poste, prender-te a um metro de corrente, de quanto amor és capaz de entregar, assim, a troco de quase nada, apenas de um pouco de atenção, uma festa na cabeça, um prato de comida, um cobertor para te aqueceres. Pergunto-me se, em meio de tanto descaso, alguma vez cogitaram, ainda que apenas um segundo, do quanto é bom e libertador, permitirem-se amar e ser amados por criaturas tão diferentes e tão iguais. Pergunto-me se alguma vez imaginaram, que partilhar contigo a toalha de praia, um pedacinho da bola de Berlim, um passeio pelo parque, ou o lugar favorito do sofá, poderia torná-los melhores humanos. 
Nem todos sabem que Anjos como tu têm afinal essa missão, a missão de regar a semente do amor que se abriga no peito humano e que às vezes murcha, às vezes seca e tantas vezes morre. Creio que há cada vez mais quem saiba que és um anjo. E que os outros como tu também o são. E que se anjos como tu vivem vidas tão curtas, tal facto se deve a que somos muitos e além de sermos muitos, somos teimosos, e uma vida de cão não basta para ensinar a um homem a matemática do amor. Um cão já nasce a saber tudo sobre a soma dos afectos. O homem morre quase sempre sabendo apenas subtraí-los.

Wednesday, 12 October 2016

Sou de (uma) Direita muito torta.

Espantam-se alguns amigos com a petição agora a circular para que se ponham os olhos nos milhares de trabalhadores precários em Portugal. 
Espantam-se sobretudo aqueles que me conhecem bem e sabem que ando a anos-luz da estabilidade profissional (isso é o quê mesmo?) e que também ideologicamente defendo muitas vezes aquilo que parece a muitos, só defensável por partidos de Direita. Todavia, há que dize-lo, Direitas há muitas, e a minha é definitivamente uma Direita torta. Ou se quiserem, de uma Direita que também se revê em apêndices de Esquerda, se é que se pode dizer que essa Direita existe. 
Talvez seja afinal uma coisa muito minha olhar com desconfiança para multiculturalismos e abominar capitalismos, aplaudir a soberania dos Estados e invocar a cooperação entre eles, ter horror a touradas e condenar a IVG. 
Acho que mais do que ideologias politicas e partidárias, sou uma idealista pela Humanidade. Entendo que o Bem Comum se sobrepõe ao Bem Individual e contra-senso ou não, parece-me que é impossível ao Bem Comum existir se não passar primeiro pelo Bem Individual. Sigo a premissa de que indivíduos felizes fazem comunidades felizes. Comunidades felizes fazem nações felizes e nações felizes…bem, parece-me óbvio, fazem o mundo feliz.
 E já estão vocês a pensar que isso é utópico e para além do mais seria uma profunda chatice. Lá vêm os defensores da evolução pela dor, dizer que o sofrimento faz parte, e que, é com sangue, suor e lágrimas que nos fazemos à vida. A ideia, deixem-me que vos diga, não sendo descabida de todo está a ser muito bem aproveitada por quem de sangue, suor e lágrimas percebe népia. Esses são os que mais do que qualquer um de nós estão no topo da cadeia alimentar. Comem-nos a carne, sugam-nos o sangue e roem-nos os ossos. Até que de nós nada reste. 
Sem darmos conta, antes ainda da carne, consomem-nos a humanidade. O que faz de nós pessoas. Humanos. E ser humano é ter aquela coisa que formiga dentro da nossa alma e nos faz arredar os olhos do nosso prato meio vazio para o prato vazio do outro. Isso é a nossa chama. Caso não se tenham dado conta ainda, saibam que esses, no topo da cadeia alimentar, estão a apagá-la. 
Quando no início do Séc.XX se instituiu a Carta dos Direitos Humanos, foi precisamente, para que essa chama nunca se apagasse. Infelizmente, hoje ela tem o vigor da tímida chama de uma vela. Quando aceitamos que se perpetue o velho mercantilismo da vida, apagamo-la. 
Quando inventamos novas formas de a mercantilizar apagamo-la. 
Quando nos vergamos à indignidade, apagamo-la. 
Quando nos tornamos insensíveis à dor alheia, apagamo-la. 
Quando usamos e descartamos o outro, apagamo-la. 
E assim vamos, de apagão em apagão, sempre soprando numa luz cada vez mais ténue, até que ela se extinga.
Vamos a factos. Em Portugal, o número de nascimentos foi, em 2007 e a partir de 2009, sempre inferior ao número de óbitos. Desde 1960 que tal nunca tinha acontecido.
Apesar de em 2015 terem nascido mais 3 133 crianças que em 2014, a diferença entre o total de nascimentos e de óbitos correspondeu a -22 423, mantendo-se assim o saldo natural ininterruptamente negativo que se tem verificado ao longo dos últimos oito anos. 
Somos portanto mais do que um país de velhos. Somos um país de moribundos. E os que pelo meio, se encontram na idade activa são fodidos e mal pagos.
Contribui para isto a precariedade laboral. Criar famílias não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha. 
Somos a base da pirâmide. Somos os consumidores que colocam a economia em movimento. Consumir, não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha. 
Somos os migrantes. Procuramos fora da terra que nos pertence, o que em condições dignas, a nossa terra devia oferecer. Somos os que abandonam os seus idosos nos depósitos a que chamamos lares. Estar perto dos nossos ou termos condições para lhes aprouver as necessidades não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha.
Em suma, longe dos capitalismos que só olham aos números, almejar um Estado Social que se encarregue verdadeiramente de dar a mão a quem já não tem força para levantar-se e impedir que continuemos a escalar perigosamente a montanha de desigualdades que começam na legislação laboral é também uma forma de impedir que a chama de humanidade que ainda brilha dentro de cada um de nós, nunca se apague. 
É só por isto a petição que nos pede um novo olhar sobre o trabalho precário. E ele há em tantas formas e sobre tantos disfarces. 
Somos a base da pirâmide. A carne para canhão. A melhor definição para descartável. Mas somos também a força que leva o país em braços para que outros possam descansar nos seus andores dourados. 
E essa força não se coaduna com incertezas, inseguranças e vidas no fio da navalha.

Para assinar  a petição : Aqui

Sunday, 2 October 2016

A Vida Dá Muitas Vodkas



Bebi vodka. 
A bebida queimou-me por dentro e as lágrimas queimaram-me por fora. Jorraram impiedosamente pela minha face, incontroláveis. Há muito que não soluçava como uma criança pequena. Colapsei. Depois da louça partida, o chão da cozinha repleto de cacos, dou-me conta de ter mergulhado no escuro. 
Imagino que falo com Deus, mas as minhas palavras soam perdidas no silêncio do Criador. Quer lá ele saber! Sou apenas mais uma entre milhares, milhões de outros seres humanos que reclamam da vida. Ou que se perderam no labirinto da vida. Sei lá eu onde me encontrar. Às vezes sinto-me estéril. Olho-me ao espelho e aparece-me o reflexo de um Atlas de costas vergadas e pernas trementes, o mundo às costas. 
Volto à vodka. Aos cigarros e a qualquer porra que me anestesie. É nestas horas que tenho pena de não ter xanax, ou prozac, ou pelo menos, coragem. Entre o copo e a baforada, o riso de Deus a confundir-se com o tilintar do gelo no copo. Ri-se. De certo que me olha e acha mais cómicos que dramáticos os rios negros que me sulcam o rosto. “Nunca chores depois do rímel.” Diz-me o sacana. E volta a rir-se. 
Da estante cai-me o dossier onde guardo fotos de repórteres de guerra. 
Os calhandreiros da miséria humana. Disparam as objectivas sem salvar. Estendem a máquina em vez da mão. A melhor foto será sempre a que mais choca. Venha o impacto. 
E cai-me aos pés Aleppo. Tikrit. Islamabad. E caiem-me aos pés as imagens a preto e branco de meninos e de velhos que vivem na death line. No fio da navalha. Na hora de ponta. Ásia, Africa, Médio Oriente. 
Olho a criança sudanesa que valeu o pullitzer a Kevin Carter. O fotojornalista suicidou-se três meses após tirá-la. Talvez tivessem sobrevivido os dois se Carter em vez de disparar uma objectiva tivesse arredado aquela criança de pé da ave faminta, ainda assim, não tão faminta quanto a criança, de certo. Carter poderia ter optado por dar-lhe a vida em vez de lhe eternizar a morte. Se a tivesse alimentado. Se a tivesse roubado à fome e à miséria. Mas Carter preferiu o Pullitzer. 
Deus deve ter-se rido de Carter quando o viu a pôr termo à vida. Deve ter-se rido de Carter quando o viu a deambular a meio da noite, como um fantasma, pelos corredores da casa. Ter-se-á certamente, rido, o Senhor, com as suas comiserações. A depressão, furtou-lhe o sono e atirou-o noites seguidas para o sofá de pele, onde frequentemente acabava por entornar copos de whiskey velho. 
Terá Carter premido o gatilho, com o cano da arma encostada ao céu da boca? Ter-se-á assustado com a gargalhada frenética do Criador e num tremer de mão, disparado a bala que lhe vazou um olho e se alojou no cérebro? 
Carter e Deus saberão. Eles saberão. Apenas a criança sudanesa nunca saberá porque morreu. Nunca saberá porque Carter não a ajudou, preferindo tirar-lhe uma fotografia. Nunca saberá porque nasceu no Sudão e não em Portugal, onde agora poderia como eu, beber vodka para afogar a dor e fumar cigarros para a enganar o efeito tranquilizante da nicotina. 
A criança sudanesa, nunca saberá porque não teve ela também o direito de deixar que os seus olhos vertessem lágrimas pelas mesmas razões que os meus olhos vertem lágrimas. E como eu, num tapete macio, aos pés da cama, ou como Carter, sentado num confortável sofá. 
Bastou-me então isto. Ver além da minha dor. Ver a verdadeira dor. Parei de sentir a minha dor. 
O criador deixou Aleppo ,onde chora diariamente a sorte dos seus filhos. Deixou o Sudão, deixou Caracas, deixou Ankara, deixou Islamabad. Deixou todos estes infernos por alguns minutos, talvez por estar farto de chorar a sorte das suas gentes e veio aqui, à minha rua, a minha casa, rir-se de mim e rir-se comigo. Atira-me as fotos de quem, ao contrário de mim, não tem, nunca teve e provavelmente nunca terá vodka para lhe amenizar a dor e por certo, não encontraria nunca nas minhas razões, motivo algum para verter lágrimas. 
Tomada esta consciência, volto a chorar, já não por mim, mas pelo menino sudanês e por todas as pessoas deste mundo cujo único mal que fizeram foi nascer no lugar errado, sempre vítimas da ilimitada maldade humana. E por Deus. Choro por tê-lo distraído da sua missão de ajudar quem realmente precisa. Espero que não volte a perder tempo comigo. Diz-se que o Senhor é omnipresente, mas eu desconfio que não é bem assim e quer o Sudão quer Aleppo… ainda ficam um bocadinho longe.

AK in Mar de Deus

Saturday, 1 October 2016

As Borboletas de Aleppo



Foto- Ryad Alhussen 


Eu não sei se o Trump manterá a sua palavra em relação ao Médio Oriente.Por ora, ele diz que isto tem que acabar e apenas por isto, quero que ele ganhe. A senhora Clinton, pelo contrário, já fez saber que o seu programa levará ainda mais morte ao Levante.
É preciso parar! Que ninguém se engane acreditando que o sofrimento de uns não será o sofrimento de outros. 

**O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque.

O Livro de Jade do Céu

"A chuva acaba de fazer um intervalo e o sol espreita timidamente por detrás das nuvens. O cheiro da terra molhada é intenso e convidativo. Um dos aromas da natureza que mais amo. Faz-me lembrar dos primeiros dias de outono, a época sazonal de que mais gosto. Uma época de quietude e introspeção. Uma época de balanço, como aquela que invade os velhos em fim de vida. No outono reflete-se sobre tudo e sobre nada. Sobre as atitudes e as escolhas, sobre o passado e o presente. O outono é a época do ano em que parecem nascer todos os porquês do mundo e o futuro, ainda que mudo e invisível reveste-se de um manancial imenso de possibilidades.
É disso que gosto no outono. Na estação das primeiras chuvas e das folhas mortas levadas pelo vento, tudo é possível. A morte e o renascimento ligam-se ferozmente num enlaçar de mãos profícuo. "


(In O Livro de Jade do Céu")


Tuesday, 27 September 2016

Mar de Deus

"Baixaram as persianas, abriram a porta que os expunha finalmente à crueza da realidade, e à luz da rua que quase os cegava. Era o fim do sonho. Voltavam ao inicio, ao ponto de partida. Cada um para o seu lado, noutro sonho qualquer. "

Ana Kandsmar in Mar de Deus

Sunday, 25 September 2016

Conversas com a minha avó


-Então, avó, porque chora?
-Porque tenho saudades das minhas netas.
-De que netas, avó?
-Olha, uma esteve cá há pouco tempo, mas já não me lembro do nome. Tem uma menina. É a Érica. A outra parece-me que se chama Dina, estou à espera dela para me mostrar o Simão. E há ainda outra. Aquela que me roubava chocolates quando era pequena.
-Avó, essa que lhe roubava chocolates, era eu. :)
-Oh…a sério? Deixa lá. Se fosse hoje eu deixava-te roubar chocolates à vontade. 

Outono

Com que agonia se ouve a voz das fontes? 
Se ela tem humildes alegrias quando canta
Saboreio um inverno em cada planta
E um verão em longínquos horizontes
Árvores maternas abrem os braços
Verdes, tristes, num gesto criador
Com impulsos derradeiros abrem espaços
E chegam mais perto ao seu senhor.
Mas tudo, risos e sonhos subsistem
Doura a tarde sonhos feitos de abandono
Nas sombras dos jardins em que resistem, 
eu passo, e piso folhas mortas de outono.
Se antes voaram bem alto como pombas
Hoje, sombras vagas a errar 
Por entre sombras.

Sunday, 18 September 2016

Outra alegoria da caverna

Vender a alma ao diabo parece ser mais ou menos recorrente para a maioria das pessoas. Terei eu já vendido a minha algumas vezes, sobretudo quando em troca de um mísero salário aturo o que em condições menos adversas nem a troco de milhões aturaria. Mas vendê-la da forma abjecta como José António Saraiva o faz com este livro, que revela a intimidade de várias figuras públicas, é se calhar um sinal inequívoco de que este homem já não tem alma, sequer. 
Mas não devemos culpar apenas o jornalista que muito provavelmente verá aqui uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro. Afinal, o livro será um sucesso e ele sabe-o. Num país onde impera a venda de revistas cor-de-rosa e pasquins que relatam dramas de faca e alguidar, não se espera outra coisa. 
A Maria que cumpre religiosamente o ritual da compra da Nova Gente e da Caras, entrará muito provavelmente, pela primeira vez numa livraria, para comprar o “ Eu e os Políticos”. Muitas “marias” deste Portugal o farão. Muitos “manueis” as imitarão. 
O jornalista Saraiva engrandecerá o ego com o seu sucesso editorial, a Gradiva inchará a gaveta do lucro e milhares de portugueses ficarão mais pobres. Não pelo dinheiro que pagarão pelo livro, mas pelo que de mau ele representa. 
Espantam-me aqui sobretudo duas coisas: Que as personalidades visadas permitam que a sua vida íntima seja explorada por terceiros com vista ao enriquecimento e mediatismo pessoal, e ainda, que um profissional que gozava de respeito e admiração entre os seus pares se permita a este mergulho na lama. 
Só a Gradiva me parece agir da forma coerente que tem caracterizado a maioria das grandes editoras. Essa já não me desilude. Como outras, publica cada vez menos escritores e cada vez mais gente que garante vendas, ainda que mal saiba escrever uma linha ou não tenha de facto, nada para contar, ou melhor: para acrescentar. 
Não há muito tempo, foi o apresentador de televisão Júlio Isidro, agora é o Saraiva. Tudo em nome das vendas. Culpa, claro das pessoas que deixaram de comprar escritores, e unicamente para alimentar a coscuvilhice, preferem levar para casa a roupa suja das caras conhecidas.
Há uma imagem que ilustra na perfeição este estado de negação em que se vive neste mundo. Se enfiados num poço fundo e escuro, que se lhes atire uma escada. A maioria preferirá parti-la para com ela fazer uma fogueira ao invés de usá-la para sair do poço e ver de novo a luz. Uma espécie de alegoria da caverna. 
É isto. É triste mas é isto.

E tudo o Vento Levou...


"Não te vou beijar. Embora precises muito de ser beijada. É esse o teu mal.Precisas de ser beijada com frequência, e por alguém que o saiba."


Wednesday, 7 September 2016

Funeral



Não o faço diariamente, mas volta e meia instruo os meus filhos sobre o meu funeral. Não que a morte me espere já ali ao virar da esquina, mas sei que me espreita. Cruzou-se comigo algumas vezes. A primeira de que me lembro, eu tinha 4 anos e olhei-a nos olhos, no fundo de uma mina de água. Por entre o lodo e musgo verdete, folhas de nenúfar a dormitar silenciosamente sobre as águas, ela deixou-me passar incólume, de regresso aos braços da minha avó.
De novo nos voltámos a encarar aos 19, nessa altura num bloco operatório gélido e imaculado. E outra vez aos 30. Apanhou-me de surpresa a cruzar um tapete de alcatrão. A chegada dela fez-se acompanhar de um baque ensurdecedor. Tombei com a cabeça sobre o vidro que se estilhaçou e de um ângulo completamente novo, observei toda a parafernália que habitualmente envolve um acidente na estrada. Muita gente curiosa se juntou, dando livres asas ao desejo de ver sangue, os bombeiros e a polícia assinalando marcha de urgência, desenvolvendo esforços para me manterem viva. Vi tudo. Ouvi tudo. E do centro da minha inconsciência, observei a cena. Via um filme. Onde eu estava, com a morte ao meu lado, podia muito bem ser uma sala de cinema. E as cenas chocantes que se projectavam perante os meus olhos faziam-me estremecer na cadeira. Pensava: Coitada! O carro vai incendiar-se e os bombeiros não conseguem tirá-la lá de dentro!”
Conseguiram. Escapei por um triz. Não sei em que momento a morte me deixou, mas quando dei por mim já estava entregue às equipas médicas. Só queria saber dos meus filhos. Se eles estavam bem. O carro havia sido em parte consumido pelo fogo e eu tinha escapado viva. Os meus filhos tinham escapado vivos. E a morte ter-se-ia, a dada altura, talvez por detestar o ajuntamento de multidões que vão ali só para a ver, timidamente afastado.
Todavia, ronda-me que eu bem a sinto. Espreita por uma oportunidade. Um deslize. Uma distracção. Um acto impensado. É assim que ela age. Como um predador que se esconde atrás das estepes das savanas, espera silenciosamente a presa. Ao mínimo descuido e estamos nas suas garras.
Por isso, por previdência, não vá o diabo tecê-las e eu acabar com os quatro costados num buraco de terra fria e húmida, no meio de vizinhos que não conheço de lado nenhum (Deus sabe como eu detesto ter vizinhança por perto), instruí-os. Não quero ir parar a um cemitério. A nenhum cemitério. Não quero ir parar a lugares onde encontrarei restos de outros que morreram antes de mim. 

Quero um funeral Viking. Quero deslizar sobre as águas calmas de uma lagoa, deitada no interior de um pequeno barco a remos ou sobre uma jangada. Na margem, um arqueiro experimentado nas lides da flecha, há-de lançar-me um archote certeiro, a ponta enrolada por uma tira de pano imbuída em querosene. As labaredas hão-de consumir o meu corpo à medida que a corrente me leva ao oceano. Depois, as ondas hão-de engolir-me e as minhas cinzas viajarão pelos sete mares.

Agora a sério…é uma pena que não se permita em Portugal um funeral temático. Toda a gente devia poder decidir como é que quer despedir-se deste mundo. 

Não terei o meu funeral Viking.Terei que me contentar com o crematório na capital. Mas instruí os meus filhos. Quero ao menos que o pote com as minhas cinzas seja enterrado onde possam plantar uma árvore. Uma floreira. Que nesse momento em que me dispõem na terra como uma semente, se ouça ao fundo o violino do David Garrett a soltar as notas de Bach. Quero o Air na minha despedida. E rosas brancas. E tulipas. Apenas rosas brancas e tulipas que podem vir de todas as cores. E quero que os meus filhos fiquem atentos ao preciso momento em que soar a última nota. Fiquem atentos. Nesse instante, nesse preciso instante, no nanominimicro segundo que antecederá o silêncio, eu pousarei um beijo nas vossas faces e dir-vos-ei ao ouvido que não poderia ter-vos amado mais, pois coube-me no coração, por vós, todo o amor que algum dia foi germinado.

Encontrado por aí...


Se encontrares uma mulher que escreve, deixa-a por perto.
Ela é aquela com sombras debaixo dos olhos e que cheira a Candy da Prada e chá de cidreira.
Aquela debruçada sobre um caderno qualquer gatafunhado de palavras complicadas.
Essa é a escritora.
Com os dedos ocasionalmente manchados pela tinta das canetas, a tinta que vai viajar entre as vossas mãos quando entrelaçares os teus dedos nos dela.

Monday, 5 September 2016

Ana de puta…puta de vida.

Uma pequena tatuagem de um colibri sobre o ombro direito desnudo e liberto da grossa camisola de lã, que a gola arredondada fazia lembrar a boca de um vulcão. Ana passeava o seu corpo sobre os passeios mal iluminados e escondidos das ruas que circundam o centro comercial. 
Meneava-se sobre os saltos altos de onde jorrava um par de pernas escanzeladas, adornadas por meias de rede que terminavam onde começava a curta saia de napa. Os cigarros que consumia avidamente não chegavam para lhe roubar o frio dos ossos, nem o torpor da alma.

«preciso de beber um copo.»Estava disposta a vender-se por um pouco de calor. E por cigarros. Não lhe importava o dinheiro, por uma vez que fosse. Mesmo que o estômago estivesse vazio há demasiadas horas. Mesmo que uma ou outra substância proibida lhe faltasse no cérebro para poder continuar mais um pouco. «nem um gajo aparece!»
Os dias de fim de ano até costumavam ser bons, mas agora não conseguia perceber o vazio de gente. Não tinha um ar andrajoso, embora também não enchesse o olho a alguém sem a junção de mais qualquer coisa - um gesto, meia dúzia de palavras, um convite explícito. Os cabelos compridos ofereciam-lhe um ar adolescente. Tinha um rosto anguloso, mas bem estruturado, assente num corpo franzino.
Farta de martelar a calçada com os saltos altos onde se pendurava, endireitou-se, encostou a carteira coçada e gasta ao peito com brusquidão e meteu-se a caminho em direcção a quem entrava e saía pela grande porta de vidro do Shopping. Estendia a mão e pedia, pedia, mas dali não levou mais que alguns olhares de escárnio e desprezo. Era a puta da vida – pensava Ana - a puta da vida ainda mais puta que ela, que a empurrava para a escuridão da noite, sem o copo de vodka que lhe daria a ilusão das temperaturas de Julho. A puta de vida que a empurrava para o quarto alugado nas águas furtadas, um canto nauseabundo a cheirar a mijo de ratos, onde não a esperava qualquer folia própria da época, mas apenas mais um final de ano, como outro qualquer, com o mesmo vazio no estômago, com a mesma ausência de lágrimas de sempre, onde os dias não tinham o atrevimento de ser diferentes, por uma vez que fosse.
Ao lado passa-lhe um daqueles homens que não sabem o que é ser pousio de olhares femininos. Daqueles homens que mais parecem lugares de ninguém e que em segredo acalentam o desejo de serem ocupados, possuídos por qualquer uma" sem- terra". A derradeira oportunidade fê-la implorar-lhe «fode-me, fode-me! Olha vês, são só cinco euros e podes foder-me!» 
Viu-lhe nos olhos o espanto, o encolher de ombros,a palmadinha no traseiro, a nota ainda quente a sair do bolso dele para as mãos dela, o acelerar do passo, o renault clio cinza em 2ªmão, o sémen que lhe escorria pelos cantos da boca. A Vodka e as temperaturas de Julho, viriam a seguir.

Sunday, 4 September 2016

Os bons, os maus livros e o preconceito com os autores portugueses




Há umas semanas atrás tive o prazer de ler alguns bons livros. Sei que são bons, porque ainda hoje dou comigo a pensar no Rhenan, na Maria, na Freya, no Fion e na Maeve, sinto arrepios ao lembrar-me do Lochan e ponho-me a imaginar o que andarão eles a fazer por esta altura, quase não resistindo à tentação de abrir de novo o “Yggdrasil”, só para me certificar de que eles não andam lá por dentro a fazer muita bagunça.
A mesma sensação apanha-me quando passo pela estante e deito o olho ao “Dia Em Que Nasci”. O livro é pequeno, lê-se de uma acentada, mas é como um pastel de nata ou um daqueles “mil folhas” em miniatura: Delicioso. O Tomé, a Alice e a Ana ficaram-me para sempre numa das minhas gavetas de memórias (sim, as mulheres também têm gavetas, e eu tenho pelo menos uma só para as memórias literárias). 
Perguntem-me se não me emocionei quando a Maria entrou pela primeira vez no quarto do Rhenan ou se não me indignei por causa das correntes que o pai do Tomé usava para o prender e eu dir-vos-ei que sim. Ora, quando isto acontece, quando o autor consegue transmitir emoções ao leitor, então muito provavelmente o leitor estará perante uma boa história. Sortudo! 
Ando sempre atrás de boas histórias e não raramente fui (em tempos), atrás das grandes campanhas de marketing que as editoras fazem em prol das suas vendas. Pudera! A maioria dos livros que encontramos nas livrarias são importados de fora e as editoras portuguesas pagam os direitos de autor a peso d’ouro! É preciso vendê-los. 
A Becca Fitzpatrick vendeu bem o Hush Hush no Canadá?(como se vender bem no Canadá se possa comparar a vender bem em Portugal) Então compra-se e depois fala-se dele até à exaustão, pagam-se lugares de destaque nas livrarias, colocam-se os exemplares mesmo ali à frente do nariz de quem entra decidido a levar o D.Quixote, ou outro qualquer, ou ainda, completamente às aranhas sem ter a mínima ideia de que livro comprar. Vê-se aquele, a capa é apelativa e… pimbas! Daí à caixa vai um “danoninho”, paga-se e leva-se para casa, para então se descobrir que o livro é uma grande merda. Assim, sem mais nem menos. Uma grande Merda! O que é verdadeiramente de bradar aos céus, é que se em vez de Becca Fitzpatrick, o nome do autor fosse Filipe Vieira Branco, ou MBarreto Condado ou…Ana Cristina Pinto, muito provavelmente estaria a ganhar mofo num canto qualquer onde ninguém chega.
Lembro-me de um outro, “ O Céu existe mesmo”, livro que a Lua de Papel, do Grupo Leya, até publicidade na televisão pagou e olhem só o que os portugueses compraram: papel higiénico encadernado, decorado com uma fila imensa de palavras. Na capa consta um selo que diz “ 3ª Edição em 15 dias! O livro sensação do ano!” Olhem que porra, claro que quando se vê isto na capa de um livro a vontade é comprar! “Bestseller nº1 do New York Times, 2 milhões de exemplares vendidos em 6 meses”. Efectivamente, este foi o título que mais vendeu em 2011, pelo menos em Portugal. Vergonha, vergonha! Quantos rolos da Renova, daqueles de luxo, dupla ou tripla folha, perfumado e com desenhos, teria eu comprado pelo mesmo valor que paguei pelo argamasso de folhas do tal Todd Burpo e mais não sei quem? O que raio nos andam a impingir para ler? 
Até há uns tempos atrás eu ainda acreditava que é o público que determina o sucesso de um livro. Hoje percebo que são obviamente as editoras. São elas que escolhem o que editam e compram. Ainda antes do leitor comum decidir alguma coisa, aparecem os livreiros que escolhem o que colocam nas livrarias. E onde colocam. O lugar onde o livro está diz muito sobre as suas vendas. Se não está nos destaques ou num expositor ali mesmo à frente dos olhos, esqueçam. O pobre anda a passar um mau bocado. Não é por ser certamente um mau livro, a razão por que não está visível. As razões são sempre outras e todas se prendem aos euros, como as correntes aos tornozelos do Tomé. Quanto se ganha com o livro X ou com o livro Y? Ou mais exactamente: Quanto se perde, caso não venda?

Nós vamos por arrasto. Muitas vezes vítimas do fenómeno da carneirada. Nós, que gostamos de voar (rasteirinho) como as galinhas, mas em bando, como os gansos, repetimos o que vimos aos outros e temos muito pouco desenvolvida a nossa capacidade de análise. Vamos atrás e pronto. É mais fácil. E há coisas que em carneirada não se admitem: Dizer que afinal não era bem aquilo. Fica mal. Afinal se todos gostam, por que raio não gostei também? O problema só pode ser meu! 
Bom, já não é novidade nenhuma para ninguém que o rei vai nu em mais contextos das nossas vidas do que é possível contabilizar e é se calhar por isso que hoje, pudesse eu mudar radicalmente a minha vida e tornar-me-ia eremita. Começo a cansar-me de viver entre pessoas que preferem o que parece ao que é. Termino por isso este texto a pregar aos peixes. Há bons e maus autores dentro de cada género, há bons e maus autores nas grandes e nas pequenas editoras. Mas acreditem que as hipóteses de se encontrar bons autores fora das livrarias crescem a olhos vistos, ao mesmo ritmo que os grandes grupos editoriais têm necessidade de facturar. E acima de tudo, acabem com o estigma do “ se é português” não deve ser lá grande coisa. Lembrem-se do José Luis Peixoto, do José Cardoso Pires, do Luis Miguel Rocha, da Alexandra Lucas Coelho, do Miguel Torga ( que ao longo da sua vida só fez edições de autor) e tantos outros que sangraram para se fazerem notar e que agora, muitos deles injustamente esquecidos para dar lugar às Noras Roberts e Erikas Leonards James deste mundo. 
E acima de tudo, tenham em conta o mais importante: se o autor é português, não pertence à pandilha que aparece nas revistas cor-de-rosa, não é sequer apresentador de televisão e a editora aposta nele, então a garantia de qualidade é exponencialmente grande! Como é que sei isto? Tomem lá um exemplo: O livro do Paulo Caiado, “ Um Momento Meu”, é bom não é? Se ainda não sabem, têm bom remédio. ;)

(Adenda: Não posso terminar sem recomendar aqui alguns dos melhores livros de autores portugueses que já tive o prazer de ler e que não se encontram por aí a pulular nas livrarias. São eles: As Crónicas de Tellargya de Hélder Martins,Sonhos Roubados de Pedro Santos Vaz, Entre o silêncio das pedras de Luis Ferreira, O Dia Em Que Nasci de Filipe Vieira Branco e no meu género preferido, amei, amei, amei ,...YGGDRASiL, Profecia do Sangue de MBarreto Condado e O Erro de Deus de Carlos Queirós.

E já agora...e já agora nada que fica feio recomendar o meu. ;)

Wednesday, 31 August 2016

Ao meu menino d'oiro

 Vinte e dois anos a ser tua mãe.
 Vinte e dois anos de somas: + amor+orgulho+esperança+companhia+sorrisos+ vida. Não te amo daqui até à lua, porque seria tão pouco. Amo-te daqui até não sei onde, porque o onde que não sabemos onde fica encontra-se por caminhos que não têm fim. Parabéns a nós que somos a extensão um do outro. Eu, a tua extensão para o passado. Tu, a minha extensão para o futuro.


Saturday, 27 August 2016

Soul até à Alma


Amy Winehouse foi uma figura de tragédia. Ela encarnou a figura do talento prodigioso que raramente aproveita as oportunidades que tem para ser o que merece: uma estrela amada. Amada pela sua voz, amada pelo seu timbre verdadeiramente ‘soul’, até amada pelos seus desastres. 
Houve talentos desses consumidos pelas drogas e pelo álcool, destruídos pela fama e pela má-sorte. Mas Amy Winehouse foi uma espécie de Sísifo que não consegue transportar até ao cume da montanha o peso extraordinário da sua vida.
Caíu demasiadas vezes devorada pelos seus fantasmas ou pelo álcool, o que começou a ser um excesso, até mesmo para os seus fãs mais adolescentes, como uma repetição da desgraça, uma espécie de drama aguardado com a irregularidade de uma coisa que já não seduzia nem impressionava.
Para mim,uma das vozes mais marcantes dos últimos anos.

O Paciente Inglês





My Darling,...

"... I'm waiting for you — how long is a day in the dark, or a week? (...)

I know you will come and carry me out into the palace of winds. That's all I've wanted — to walk in such a place with you, with friends, on earth without maps."




Friday, 26 August 2016

Há filhos orfãos de pais vivos.

Desistir de desistir. (A todas as mães que não desistem.)

Tenho algumas amigas que são pais e mães de pequenas crianças ou jovens adolescentes. Uma delas, que carrega sobre os ombros o pesadíssimo e solitário mundo do “tudo eu”, pediu-me há uns dias: “Deixo-te o mote: «Há filhos orfãos de pais vivos». Sei que vai sair daí um texto com tudo o que eu gostava de escrever mas que não consigo.”


Eu própria sou mãe de um jovem adulto e uma adolescente (quase, quase jovem adulta), e faço sozinha, desde há vários anos, o que posso e tantas vezes o que não posso para que eles sintam em todos os dias das suas vidas que eu estou cá para eles. Que eu não desisti deles. 
E isso pode ser um paradoxo, porque não desistir deles, levou-me muitas vezes a desistir de mim. 
Quem é que não faz a menor ideia do preço que uma mãe paga para criar os seus filhos sozinha? O pai. O pai que desistiu. O pai que não quis saber. O pai que aproveitou todas as vantagens de não ter que se preocupar com outras vidas dependentes da sua, e recomeça, absolutamente egoísta mas também absolutamente livre. 
Posso contar-vos uma história:

Era uma vez uma jovem mulher que se cansou de viver ao lado de uma pedra. Um dia, depois de muito tempo a tomar copos de vermute na varanda e a ouvir Andréa Boccelli, ganhou coragem para fazer cair o pano da peça de teatro em que era personagem secundária. Caiu o pano. Olhou os adereços. Estavam feios e gastos. Pegou no guião, rasgou-o e reescreveu a sua história. 

Uma mulher, duas crianças, as suas roupas e uma cadela que se chamava Maria,(tinha o pêlo cinzento encaracolado e os olhos mais doces do mundo). 
Trocou o inferno do luxo de uma vivenda construída a gosto por um apartamento exíguo e velho. Levou com ela tudo o que lhe era importante e deixou para ele as coisas que não têm importância nenhuma mas que ainda assim, ele defendeu como uma loba que protege as crias: A casa, os móveis, os electrodomésticos, os cortinados rocócó que ela sempre detestou, o ouro que lhe fora dado pela mãe e que ele achou por bem esconder para que ela não pudesse levá-lo. É quase a cantiga da Ágatha: “Podes ficar com as jóias, o carro e a casa…”Ele ficou. E nem tentou ficar com eles. 

Hoje ela nem conta pelos dedos as vezes que não se reconheceu ao ver o seu reflexo ou quantas vezes chorou a olhar para os miúdos, sentindo que o mundo inteiro, repleto de gente, só os tinha aos três. Ela não conta quantas vezes já se sentou no chão atrás da porta e desistiu…ou numa calçada no meio da rua e desistiu. Ou se deitou na cama, fechou os olhos… e desistiu.
Primeiro vieram os aniversários das crianças e nem uma vez o telefone tocou e a voz do pai do outro lado, disse: “ Parabéns.”. Depois os Natais. Mais uma vez o telefone mudo, a ausência e a falta de um presente. Já lá vai mais de uma dezena de anos. Deixou de doer.
Quem é que não faz a menor ideia do quanto a vida pode ser difícil para uma mulher que desistiu de o ser para nunca desistir de ser mãe? O pai. O pai que nunca desistiu de nada a não ser de ser Pai.

A mãe que um dia decide mudar o cenário e reescrever o seu guião, falha inúmeras vezes. A mãe falha. Várias vezes. E nada ao redor dela muda. Nada. Nem os ventos, nem as marés. O Universo não tem pena dela. Não importa quantas vezes ela implora, ou quantas vezes ela se humilha, ou se sente só. Não recebe nenhum sinal divino. Então, ela cansa-se, inclusive, de desistir. E como quem não se pode dar ao luxo de parar, ela continua. 
Toda a tristeza e dor que carrega no peito é dela e ninguém a sente como ela. 

Há dias em que não acredita em novos amanheceres e contradiz tudo o que já viveu, a malícia do tempo e a veracidade da sua própria memória. Ela, que amou tão poucas vezes, mas que amou muito em todas elas, sabe que o amor não é como os outros sentimentos. O amor tem uma lâmina escondida que a corta e lapida. Dói. Depois dele, nunca mais se é a mesma. Mas a vida não lhe dá escolha: Há que vivê-la. Levantar depois das quedas. Superar. Faz parte. E dá medo. 

Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, sabem que vão para uma guerra e que não haverá armadura ou elmo que as proteja.

Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, são feitas de muito mais coragem que medo. Todas. Qualquer mãe sabe disso. Mesmo que de vez em quando o esqueça.
 Às vezes ela chega ao limite, mas aguenta-se. Estoicamente. Então, ela percebe que pode aguentar um bocadinho mais, e o seu limite vai ficando cada vez maior. 

Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, são heroínas de histórias que devem ser partilhadas. Ensinadas. Valorizadas.
O mundo está cheio de nada para lhes dar e ainda assim, elas nunca desistem. Porque desistir na verdade, não é opção. É apenas um pedido de socorro que só elas ouvem. 
Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, ensinam aos filhos que não há coração de pai que não os aceite. Há é pais sem coração.

(Não sei se escrevi um texto com tudo o que gostavas de escrever, mas foi para ti, para mim, para todas as mães que aqui se revêm e para todos os filhos órfãos de pais vivos, que o escrevi.)