Thursday, 9 March 2017

A inveja das pulgas da minilândia


 Foto de Miguel Castelo Branco.

 "Há por aí um jornaleco do tamanho de uma folha de couve ressequida e amarelecida que dá pelo nome de «I», cambado, vazio e minúsculo, servido por periodiqueiros vão-de-escadas que mal sabem assinar o nome ou agarrar numa caneta.
Ora, esse pedaço de papel dedica hoje duas páginas a reproduzir fragmentos mal amanhados de passagens de textos do Rafael Pinto Borges, um trabalho mesquinho, torto na forma, vil no conteúdo. Os coscuvilheiros andaram a devassar-lhe a página no FB, a retirar frases, ligando-as a outras, para fazer a caricatura e a diabilização de um rapaz que - eles sabem - vale aquilo que 90% desta terra tristonha, envergonhada, dúctil e cinzenta não possui: inteligência viva, curiosidade cultural inesgotável, frontalidade, racionalidade e patriotismo transbordante.
Mal sabem as criaturinhas que o Rafael já terá lido oito vezes aquilo que eles lerão ao longo das suas vidinhas nodosas, que escreve admiravelmente, fala fluentemente três ou quatro idiomas - até russo e farsi compreende - e é, aceito-o de barato, superior a milhares de académicos de recibo verde. Sei que as cabeças ridículas e anãs produzem opiniões ridículas e anãs, mas que a inveja - que anda à solta pelas redes sociais (à esquerda, à direita, ao centro) - é o melhor testemunho do grande sucesso desta jornada triunfante que ontem conheceu o seu epílogo. Pois, gostem ou não, o Rafael e as dezenas de bons patriotas que militam por Portugal na Nova Portugalidade não vão parar; pelo contrário, vão-lhes proporcionar incontáveis momentos de inveja, de coscuvilhice e, naturalmente, de maledicência."
Miguel Castelo Branco

Sabemos bem que para qualquer jornalista, deturpar e/ou manipular, o que é dito é extremamente fácil. Basta fazer o que fez a jornalistazeca do i que não satisfeita em ter contactado apenas um dos envolvidos nesta polémica da conferência promovida pela Nova Portugalidade, ainda se deu ao luxo de cortar frases, descontextualizando o que é dito pelo Rafael Pinto Borges, para mais facilmente justificar a acusação de xenofobia,racismo, colonialismo, e salazarismo que lhe é descarada e injustamente feita. Eu que fiz jornalismo ao longo de mais de 20 anos e orgulho-me de ter sempre lutado pela imparcialidade, isenção e justiça, que sempre levei a minha actividade profissional com responsabilidade, pugnando sempre pela verdade dos factos, chegando a rejeitar as "linhas de orientação politica" da entidade que me pagava o ordenado, sofrendo por isso suspensões, não me revejo nesta forma suja de fazer jornalismo. A Ana Petronilho, claramente "pombo-correio" do BE, bem podia dedicar-se a outra actividade. Vender banha da cobra, por exemplo. Que se reflicta sobre o exemplo. Quando se parte para a difamação mais abjecta de um jovem que ainda é apenas um estudante universitário, bem se pode perceber que tipo de jornalismo é feito em relação a personalidades que verdadeiramente causam incómodo.
A saber:
Foto de Nova Portugalidade.
Uma rga arranjada depois da AE ter cedido o espaço. Vamos a factos: A Nova Portugalidade pediu a sala e para tal esclareceu de imediato que o objectivo seria realizar a conferencia subordinada ao tema " Populismo ou Democracia" tendo como exemplo Le Pen, Trump e Brexit. A AE achou interessante a realização de tal palestra e deu o "SIM". Nada portanto até aqui contra a NP, cujo presidente, Rafael Pinto Borges, é aluno da FCSH. O problema surgiu quando a AE soube quem era o orador. E foi nessa altura que meia duzia de bloquistas ressabiados decidiram reunir para impedir a concretização da conferencia. Como tal, os meninos pidescos da AE fariam bem em assumir que o problema deles não é com a NP, mas sim com Jaime Nogueira Pinto, que resolveram silenciar! Como se tivessem o direito! Como se!!!! Meia dúzia de garotos que ainda têm muito pão a comer para chegarem ao nível de Jaime Nogueira Pinto têm o descaramento atroz de o silenciar! É no mínimo repugnante! A atitude do director, conivente com a arbitrariedade dos pidescos é condenável sim, na medida em que não esteve à altura de lidar com estes putos mimados. Que este episódio sirva de lição e que nunca mais se repita!

O policiamento semântico

Fillon afirmou  não ser autista, e logo foi denunciado por uma galáxia de associações iradas. Há, pois, sob pena de retaliação, que riscar do léxico a utilização comum de vocábulos como cego/cegueira, surdo/surdez, deficiente/deficiência, gago/gaguez, coxear, paralítico/paralisia. O Ocidente transformou-se num imenso campo de concentração.”
(Miguel Castelo Branco)
É melhor que se pergunte primeiro sobre o que é que se pode falar para não incomodar ninguém. Há por aí muitas “virgens” ofendidas que se transformam em verdadeiras “hooligans” famintas de uma boa cena de porrada. Valha-nos o Facebook que lhes tira as máscaras e mostra quem elas são. E quem são elas? São as defensoras do politicamente correcto. As que infestam as redes sociais com publicações que falam da igualdade, da fraternidade, da democracia mas censuram imediatamente quem mostra outra linha de pensamento. Essas são as “virgens” que matariam quem não pensa como elas, se soubessem que ao fazê-lo, não seriam presas. Matariam em nome da democracia. Como não podem matar, hostilizam, denigrem, combatem com recurso à mentira, colocando nas nossas bocas coisas que nunca dissemos. São estas as “virgens” que escrevem coisas “românticas” como “ Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo” ao mesmo tempo em que “condenam à morte” quem se arrisca a dizê-lo! São as “Virgens” que estrebucham e latem como cães com esgana quando encontram quem se lhes opõe. Faltando os argumentos para rebater ideias, partem para ataques pessoais.
Digam-me do que é que eu posso falar para não incomodar ninguém! Restam-me se calhar as telenovelas, porque nem o futebol. Ai o futebol! Sou sportinguista e os benfiquistas arrasam-me.
Não posso mostrar que apoio Trump, Le Pen ou qualquer ideal nacionalista porque me torno racista, homofóbica, xenófoba, e o diabo a quatro. Não posso mencionar o perigo de uma islamização porque me chamam racista…outra vez. Não posso dizer que nem morta apoiarei grupos feministas porque me chamam "machista" ou pior misógina (mesmo sendo eu mulher, o que é que isso interessa?) Não posso dizer que não concordo com o aborto ou a eutanásia porque me chamam fascista. Ah…e retrógrada! Chamam-me retrógrada quase tantas vezes como as que mexem as pestanas. Não estou, portanto, na moda. Sou antiguinha. Cheiro a mofo e a naftalina! Depreendo que para se ser moderno deve-se é defender o AMOR recorrendo à defesa da morte. Para ser moderninha o meu cartaz devia dizer: “Eutanasiem-se e abortem-se para aí à vontade!”.
Não posso mencionar grupos como o LGBT, ou apenas gays, lésbicas ou transsexuais se não for para lhes elogiar as plumas e as lantejoulas com que se vestem nas paradas. Referir o "non sense", o "mau gosto", faz de mim homofóbica… outra vez.
Já agora…Para que raio servem as plumas e as lantejoulas? Não são já ridículos o bastante aqueles e aquelas ou devo dizer “aquelx” (ai a ideologia de género!),que para mostrar ao mundo com quem se enrolam na cama ganham trejeitos do sexo oposto? Dizia hoje um amigo que “talvez o façam para se convencerem a eles mesmos de que realmente são aquilo”. Sapatonas de cabelinho curto, botinha à tropa e maneirismos “à gajo” e larilas que afinam a voz, balançam as ancas para darem dois passos e andam com as mãos no ar como se enxotassem moscas…a sério? É preciso isso? E que tal se deixassem de guinchar como porcos a caminho do matadouro para que todos fiquem a saber quais são as vossas preferências sexuais e em vez disso, vivam, VIVAM, a vossa sexualidade da forma que vos faz mais felizes, com a discrição que é exigida a qualquer pessoa que não quer passar por ordinária, rameira, oferecida, vulgar.
Sabem, caros gays, lésbicas, trans, bi,tri, quadri e restantes renas do pai natal, ninguém quer saber de que forma é que chegam ao orgasmo. NINGUÉM QUER SABER! A vossa, a minha e a vida sexual dos caracóis só é interessante para vocês próprios, para mim e para os caracóis (respectivamente). Posto isto, caros pidescos, desculpem lá se vos incomodo, mas eu vou continuar a dizer o que penso. Quem não gostar faça o favor de ir ler as 50 sombras mais negras, as cenas do “ Avante” ou para os que preferem a lógica da batata, o Borda D’água.


Foto de Ana Kandsmar.

Thursday, 2 February 2017

Mas quem apoia o Trump? Quem, eu?



Foto de Ana Kandsmar.

Mas por que raio é que vocês pensam que eu apoio o Trump? Eu não apoio o Trump!
Reparem, eu sou como vocês que apoiam a imigração ilegal. Apoio a inexistência de qualquer barreira que impeça a entrada seja de quem for, seja em que país for. Estamos a falar do muro? O famoso muro entre o México e a América? Mas isso é uma afronta à liberdade do povo mexicano! Sou completamente contra que se tente impedi-los de passarem para o país vizinho, sem qualquer legalidade para tal, podendo assim trabalhar sem pagar impostos, ou obedecer a qualquer outra obrigação imposta pelas leis americanas. É uma afronta aos cartéis de droga que assim vêem a vida a andar para trás quando querem passar o produto! É uma afronta aos imigrantes ilegais de qualquer outro país, que usem a fronteira do México para entrar na terra do tio Sam. O que eu apoio é a abertura das fronteiras de todos os países, sem restrições, tal como acontece aqui na Europa. Toda a gente circula, não à vontade, mas à vontadinha! E assim é que é bom! Caramba, se não houvesse Schengen, teria sido uma complicação dos diabos para que se tivessem movido dentro da Europa, os terroristas de Paris, de Nice, de Berlim, de Colónia, de Madrid, de Londres. Escusam de me lembrar que muitos destes terroristas nasceram na Europa. Isso já sabemos. Mas depois de terem deixado o seu rasto de sangue, circularam de uns países para os outros, sem qualquer dificuldade, certo? Graças ao senhor que existe Schengen. Digam em uníssono: Avé, Avé! Conseguem ao menos imaginar agora a minha indignação com as medidas absolutamente estúpidas de Trump? C’um caneco! Há que ter pena daquele traficante de droga, que vai ter muito mais dificuldade em passar um muro que já existia, mas que agora ficará mais alto, mais robusto, mais extenso, convenientemente patrulhado. Eu cá se andasse a passar cocaína entre o México e a América, ficava lixada! Ficava pelos cabelos! Assim, estou solidária. E pensemos nas famílias, meus Deus! Mas vocês estão loucos? Eu vivo num país onde ninguém leva a mal a evasão fiscal! Ninguém se chateia quando alguém se furta a pagar os seus impostos e o meu governo não tem qualquer medida para conter ao máximo esse tipo de abuso! Também era o que faltava! Ora, então, por que raio, apoiaria eu um tipo, que ainda por cima é feio como o diabo e aposto que cheira mal da boca, numa medida que põe cobro à imigração ilegal e também acaba com essa possibilidade de haver gente, que foge às suas obrigações contributivas? São mas é tontos! Imigração Ilegal é que é! Repitam comigo muitas vezes, vá lá: Imigração Ilegal é que é! Façamos disto um mantra! Imigração Ilegal é que é! Ohmmmmmmmmmmm…!
Sejamos francos, até o Canadá concorda com a imigração ilegal. Deve ser por isso que ninguém se insurge contra o Canadá que vai deportar nos próximos tempos, milhares de portugueses. Essa coisa de haver deportação de imigrantes ilegais tugas naquele país e ser essa a razão pela qual, vêm todos de carrinho, (desculpem, de aviãozinho), é uma daquelas notícias fake da Imprensa Falsa, certo? Ou seja, meus caros, os portugueses que estão a ser despejados na sua terra natal, são-no porque passavam a vida a reclamar das temperaturas negativas do Canadá e não porque são imigrantes ilegais. Parem lá de dizer parvoíces, porque o único que não gosta de imigantes ilegais é o Trump. Portanto, crucifique-se o raio do artolas!
Outra coisa de que o Trump não gosta é da ideia de receber muçulmanos às pazadas. E isso, tal como a vocês também me revolta. Felizmente na Europa ninguém toma esse tipo de atitude. Cá, nós estamos muito dispostos a recebê-los, benza-nos Deus! O quê? A Suécia está a fazer o mesmo que o Trump? Estão a deportar muçulmanos? Muçulmanos, que é como quem diz…árabes. No meio deles, também cristãos, não? Epá, mas está mal! Mas que raio é isso? Ainda há pouco tempo estavam a portar-se tão bem! Olhem a Suíça que nalgumas escolas até baniu a carne de porco das ementas! Então, não é muito mais bonita esta coisa da inclusão de culturas que têm tanto a ver connosco como o cú com as calças? Isso é xenofobia, pá! Ponham-se os olhos em Londres, Bruxelas, Paris, Colónia, Berlim,…lá não há nada dessa coisa horrível que é a xenofobia! Vivem todos harmoniosamente, coabitam todos pacificamente sendo que existem áreas em qualquer uma destas cidades que praticamente estão restritas a nativos, onde as mulheres nacionais não passam, e para o fazerem têm que cobrir os cabelinhos com o lenço. Mas está tudo bem. Há polícia aos magotes a patrulhar as ruas, precisamente para garantir que coabitam todos pacificamente e está-se bem. Eu por mim, acharia um piadão ter à porta do meu prédio, um gajo entroncado, com cara de buldogue francês (perdoem-me já todos os buldogues) e de Kalashnikov na mão. 
Em alguns países europeus, retiram-se das ruas os símbolos cristãos para não ofender os nossos protegidos islâmicos e está tudo bem. Reparem, eu e vocês também temos um comportamento semelhante nas nossas casas. Quando temos visitas que coabitam connosco alguns dias no nosso sacrossanto lar, ajustamos os nossos hábitos e costumes às nossas visitas em vez das visitas ajustarem o seu “modus vivendi” aos seus anfitriões. É que não faltava mais nada, não o fazermos! É o mínimo para as regras da sã convivência! A visita tem por hábito dormir até ao meio dia quando nós costumamos acordar às 7? É óbvio que passamos a sair da cama ao meio dia, para não acordarmos a criatura a quem oferecemos o tecto. A visita tem por hábito arrotar à mesa e cuspir para o chão? É nossa obrigação passar a cobrir a tijoleira de cuspo e fazermos concertos de arrotos ao jantar. Ainda se economiza na água para lavar a dita, basta passar a esfregona, e os jantares pelos menos, ficam muito mais animados!
Ah, pá, e depois há a questão das mulheres. Eu lá seria capaz de apoiar um tipo que é misógino? Nada disso. O gajo trata as mulheres abaixo de cão, diz umas alarvidades em relação às mulheres que optam por expor-se, assim a modos que…em demasia, estão a ver? Mas bolas, abençoadas sejam, como dizia uma amiga minha! Têm todo o direito e também merecem todo o meu apoio. Elas e os muçulmanos, que eu cá sou multicultural e tenho a certeza de que eles sim, têm muito o que nos ensinar sobre como tratar bem as mulheres. É também por isso que faz todo o sentido que hordas de feministas se insurjam contra o idiota do Trump e participem em manifestações organizadas por mulheres muçulmanas. Quando a América, ou qualquer outro país da Europa estiver apinhada de islâmicos quero vê-las de maminhas ao léu a reivindicarem os direitos às suas liberdades! 
Ahhh…pois é…não vou ver, sabem porquê? Porque esses muçulmanos a quem devemos toda a tolerância do mundo não a terão connosco e acabarão com os movimentos feministas enquanto o Maomé esfrega um olho. Oh…que chatice! 
Opá…ganhem mazé juízo!

P.S ( Não, não gostei dessa ideia de deixar de fora da lista de países interditos a Arábia Saudita e o Egipto. Não, não gostei que tivesse sido incluído o Irão, por razões óbvias. Sim, o Trump tem falta de sensibilidade politica, e a diplomacia não é o seu forte. Sim, eu apoio o Trump. Até ver.)

Tuesday, 31 January 2017

Os Murros e os Muros

Somos maus por sermos bons ou somos bons por sermos maus?

Podíamos ter aprendido alguma coisa com séculos de divisão religiosa, racial e étnica. Não aprendemos. Não há sinais de que 2017 venha a ser um ano melhor do que os que o precederam. A Europa continuará a escalar a montanha do autoritarismo liberal e a guerra contra o terror acabará por converter-se numa guerra de extermínio. E a ver bem, tudo isto acontece porque nos tornámos outra vez, adeptos do niilismo. Niilismo em todas as frentes, diga-se. Moral, ético, existencial, político. Diga-se também que do niilismo à anarquia não vai nenhum passo. Se as sociedades actuais não acreditam em nada, não respeitam nada e exigem total liberdade para tudo e para todos, é porque estão decadentes. Mas isso, todos sabemos, e não é preciso ser especialista em coisa alguma para o perceber. "Um niilista é um homem que não se curva ante qualquer autoridade; nem aceita nenhum princípio, qualquer que seja o respeito que esse princípio envolva". Era assim no tempo de Turguêniev quando escreveu a obra "Pais e Filhos", e continua a ser assim, hoje.
Não aprendemos nada com o alastramento das desigualdades e embora séculos de história nos mostrem que elas trazem ao colo conflitos sociais, continuamos a dissemina-la. Os que ainda nos manipulam, entretanto conscientes da extensão do mal que produzem, vão receando a revolta das marionetas. E diz-se por aí, constroem bunkers, ora para se protegerem de um cataclismo, de uma guerra nuclear, ou, cada vez maior a hipótese, da rebelião dos mais pobres. Há muitas formas de morrer. Talvez um bunker evite algumas. Não evitará certamente a lei da vida. Morre-se de qualquer maneira.
Mas é pena que tenhamos chegado aqui. Enquanto escrevo isto, sinto um pouco do que terá sido a tristeza de Anne Frank ao chegar ali. Ao momento terrível em que já não se pode fazer vista grossa ao conflito, ao ódio e ao temor de perder a vida. E fico ainda mais triste porque sei que os próximos anos, talvez mais 10, 15, serão anos de profundas atribulações e todos eles depois de 2017 serão ainda piores que durante. Deixaremos para os nossos filhos, que aprenderam connosco a intrepidez do niilismo, a necessidade de o repudiarem, às pressas, para então recuperarem o que foi perdido às nossas mãos. Usarão como armas várias paixões mortais: racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, e homofobia. Estamos então à beira de uma guerra onde o mal combate o mal. E logo nós que temos sempre em mente as guerras entre o mal e o bem, hoje, como podemos observar, tudo mentira. É sempre o mal que combate o mal. Deve ser porque somos afinal humanos e todos os humanos são maus. Ou quase todos. Talvez que o bem se silencie nesta coisa dos conflitos. O bem nunca se quer envolver. E como dizia Mandela, “ Para que o mal vença, basta que os bons não façam nada.”
O apartheid, sob diversas modulações, será restaurado graças aos novos impulsos separatistas. Construiremos mais muros. Controlaremos mais fronteiras com policiamentos que não se farão rogados a premir gatilhos e as alianças cada vez mais frágeis acabarão por ruir como castelos de cartas. O mundo tal como era desde o final da Segunda Guerra Mundial, acabou. Sofremos mudanças com a Guerra Fria e a derrota do comunismo, sofremos mudanças com as descolonizações, mas se mantínhamos o mundo respirável era porque ainda queríamos muito acreditar. As democracias entretanto instauradas, a queda do muro de Berlim, tudo isso ainda nos fazia acreditar…. De lá para cá demos um salto gigantesco no vazio. Deixámo-nos de efabulações. Tornámo-nos outra vez niilistas e o mundo tornou-se irrespirável.
O Hunger Games que conhecemos do cinema é uma analogia bem construída daquilo que é afinal a nossa realidade. Começou logo no princípio do século com o choque entre a democracia e o capitalismo. A democracia liberal e o capitalismo neoliberal digladiam-se pelo primeiro lugar no pódio. Os governos economicistas e o povo digladiam-se pelo primeiro lugar no pódio. O Humanismo perdeu, creio que definitivamente, o primeiro lugar no pódio. 
Os desejos humanos colocaram a tecnologia num pedestal sagrado e o capitalismo venceu o humanismo nesse processo.
Se há um demónio a culpar por tudo o que já foi feito até aqui, esse demónio chama-se capitalismo. Foi ele que tornou mais profundo o fosso entre ricos e pobres, foi ele que devastou o Médio Oriente, é também ele que muito mais do que qualquer guerra, multiplica refugiados, pois, como alguns já se terão dado conta, mais do que em busca da paz, eles saem em busca daquilo que só o dinheiro pode comprar. E eis que chegámos aqui.
Nos anos 70, e ainda nalguns que se lhe seguiram, os miúdos brincavam na rua. Tudo corria bem até ao momento em que as brincadeiras deixavam de ser pacíficas. Nessa altura, os nossos pais mal nos viam envolvidos em brigas, pegavam-nos pelos braços e obrigavam cada um a seguir para sua casa. Acabava ali a discórdia. Cada um em sua casa. Embora as minhas memórias de infância sejam mal comparadas com o que se vai passando pelo mundo, sinto que é preciso haver “pais” que nos puxem pelo braço e nos obriguem a cada um, a ficar na sua própria casa. Recordo-me que o meu pai, perante a minha insistência em voltar à rua, dava um murro na mesa e dizia “Basta! Cada um no seu canto!” É preciso agora, perante esta guerra entre culturas, entre muçulmanos e cristãos, árabes e ocidentais, que alguém dê o murro na mesa e diga “Basta! Cada um no seu canto!” Trump está a dar esse murro na mesa e as medidas de controlo de fronteiras mais não são que a tal advertência: “Basta! Cada um na sua casa!” Os murros e os muros, serão cada vez mais. Mas agora, há que dizê-lo: Fazem parte da paisagem. 

Wednesday, 25 January 2017

Silêncio

Nesta peregrinação de dúvidas e torturas, Silêncio recupera um passado português quase esquecido. Nem sempre a árvore da fé consegue ramificar.

Foto de Ana Kandsmar.
Espero que não se imponham limites ao número de estrelas a dar a Andrew Garfield. Ou a Martin Scorsese. “Silêncio” é muito provavelmente a primeira maravilha da 7ª Arte em 2017. 
Saio do cinema com a alma partida. Sempre me interessei por estas incursões religiosas.
O que é que um homem é capaz de fazer por um Deus invisível? Matar e deixar-se morrer? Certamente. Ou pelo menos, no que à cristandade diz respeito já foi assim em tempos. 
Não deixam saudades, esses tempos. Mas o que se pode tirar do filme de Scorsese é muito mais do que uma cegueira religiosa. Subsistem em toda a película, dois momentos distintos: a fé e a dúvida. 
Para muitos católicos terá ganho a dúvida, pois, a história centra-se nos apóstatas Ferreira e Rodrigues. Quanto a mim, que não sou católica, ganhou a Fé. Um e outro, especialmente, Rodrigues, continuaram a acreditar e morreram a acreditar. 
Aparece-nos ainda Kichijiro, o homem moderno do séc. XVII. O homem que quer ser salvo de todas as formas em que é possível ser-se salvo. No corpo e no espírito. Não quer perder a Terra e ainda assim ganhar o céu. Tal como todos nós, sobreviventes do Sec.XXI, que queremos a salvação de tudo o que nos for possível salvar, Kichijiro também quer todas as salvações. 
Reparem em quantas vezes trai a si mesmo e quer confessá-lo. Julga-se obviamente um traidor de Deus, da fé que diz sentir, mas trai-se apenas a si próprio, de cada vez que permite que outros o verguem ao medo de seguir o seu próprio caminho. 
Não consigo deixar de pensar que temos todos, uns mais do que outros- e queira Deus que eu seja uma das que menos- um pouco de Kichijiro. Vejo por aí gente de convicções tão fracas que por muito menos, pisariam sem hesitações os seus próprios pulmões, quanto mais uma imagem de Cristo. Esmagá-los-iam sem pestanejar, até ao sufoco. 
E é por isto que chego a admirar a frieza nipónica. A frieza que é cínica e amável como só a frieza consegue ser. Se Inoue (o inquisidor) fosse um homem apaixonado, teria sido forçosamente cruel. Assim, não o foi. Permitiu a Kichijiro enganar-se a si próprio de todas as vezes que foi confrontado com a sua essência, a profundidade dos seus pensamentos, e eis que sendo a profundidade rasa, escolheu agradar ao seu carrasco, para mais uma vez pedir perdão a si próprio. 
Vejo isto todos os dias. Nas conversas de café, nos murais do Facebook, nos gabinetes dos legisladores, no palanque dos governantes. Que os Kichijiros deste mundo, possam também enganar-se e traír-se. Possam também procurar a absolvição. 
Não a encontrarão, como Kichijiro não encontrou.

Thursday, 19 January 2017

“We did a lot of shit.”




Foto de Ana Kandsmar.

Li algures que este homem poderia ter dizimado a humanidade com uma bomba atómica, e ainda assim, seria glorificado pelos média, e por arrasto, por toda a população que se satisfaz com o que lê e ouve nas notícias. Há muita gente que se satisfaz com o que lê e ouve nas notícias. E é por isso incrível, a quantidade de gente não pensante que se deixa manipular pela propaganda da Reuters que já vem filtrada pelas várias agências de inteligência, nomeadamente a CIA, e da qual são subscritores os mais variados meios de comunicação do mundo, incluindo a CNN. 
A América beneficiou imenso com a Segunda Guerra Mundial, que arruinou os seus principais oponentes (a Europa, a União Soviética, a China e o Japão). Granjeou condições de exercer a sua hegemonia económica, tanto mais que metade da produção industrial global estava concentrada em meia centena de Estados. Talvez seja por causa da sobrepopulação. Quanto mais gente, mais escassez, e isso, não há como negar, mas também pode ser apenas a ganância que os mobiliza. O controlo de tudo nas mãos de meia dúzia é muito bom, sobretudo para a meia dúzia. 
Seja como for, lá que parece haver uma agenda para nos infernizarem a vida, parece. 
Portanto, vamos aos anjos. Nada melhor do que se colocar nos boletins de voto uma cara simpática que personifique (neste caso) o sonho americano. Tal como Martin Luther King defendeu naquele seu famoso discurso durante a Marcha de Washington em 63. “ Eu tenho um sonho que as minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver numa nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu carácter.” A América chegou lá e ainda bem, só é pena que tenha chegado apenas a meio sonho cumprido. O sonho de King devia ter-se realizado também na parte em que as pessoas são julgadas pelo seu carácter. Obama, consolidou o Black Power nas terras do tio Sam e a lufada de ar que levou aos americanos (e ao mundo), foi tão fresca, que nos deixámos ludibriar pelo seu carisma. Não digo que Obama seja um mau homem. Parece-me que não é, de todo. Mas para o nosso mal, foi um excelente fantoche. Só as imagens da família perfeita, as fofices entre Obama e Michelle, ele quase um cavalheiro inglês, ela, a perfeita grande mulher por trás do grande homem, o cão d’água português a correr feliz pelos corredores da Casa Branca, é que nos turvaram a visão. A nós e à Academia que lhe atribuiu o Nobel da Paz. Obama mereceu-o tanto quanto Hitler ou Estaline. Milhares de mortos em todo o Médio Oriente, não lhe dão propriamente o móbil para a atribuição de tão importante louvor. Lembro-me do famoso caso dos drones. Mas há mais. Vejamos: O financiamento do Estado Islâmico e a farsa em torno do esforço para combater o terrorismo. A colocação de fantoches no lugar de governos estáveis e respeitados no Médio Oriente. A América trucidou a Síria e levou o mundo inteiro a crer que os vilões nesta história bebiam vodka e usavam ushanka. Culminamos com a campanha difamatória de que a Russia terá usado hackers para manipular os resultados eleitorais que deram a vitória a Trump e a expulsão dos seus diplomatas. Tudo a bem da mentira. Em matéria de politica internacional, Obama colou o mundo ao movimento derradeiro do DoomsdayClock. Deu combustível às “revoluções de veludo” no leste europeu e financiou a horda fascista na Ucrânia. Desafiou a paciência de Putin. Mas, Obama não foi apenas um mau presidente para fora, foi-o também para dentro. Wall Street manteve-se incólume mesmo após a sua promessa de lhe cortar os tentáculos de polvo, e ao invés disso, favoreceu a banca e deu um novo fôlego ao capital. O programa ObamaCare revelou-se um desastre. Eis que após o primeiro mandato, o reformador e moralista do “Yes we can”, passou a sê-lo do “Yes we Did”, e completo: “We did a lot of shit.” 
A América é um país que pela sua importância não pode continuar a resvalar para o abismo. Porque quando cair, não cairá sozinha. Levará com ela um planeta inteiro. Relembremos erros do passado que nos custaram caro: O golpe fascista de 1973 no Chile, a intervenção militar no Panamá,Honduras e Paraguai. A invasão e destruição da Líbia e finalmente a intervenção criminosa no Iraque que constituiu a bola de neve que nos empurrou até aqui. 
Por tudo isto, Obama vai amanhã e já vai tarde. Não sei que tipo de presidente será Trump e desconfio que o tão afamado establishment do qual Obama faz parte não o deixará aquecer o lugar, mas espero que este “let’s make America great again”, aconteça e se transforme num Let’s Make The World Great Again. Com Trump ou qualquer outro. Não sou só eu que agradeço. É o mundo inteiro que agradece.

Tuesday, 3 January 2017

Imortais

"Somos imortais mas temos que morrer primeiro."

Ana Kandsmar in " O Livro de Jade do Céu."


Sunday, 1 January 2017

Bem-Vindo 2017!

Foto de Ana Kandsmar.

Que sejas tu, o Novo Ano, portador do fim do globalismo. Não de um globalismo que una, sendo que essa é a primeira ideia que lhe associamos, mas deste globalismo que destrói nações, arrasa as suas economias e identidade cultural. Que devolvas a soberania a cada povo, a sua autonomia com tudo o que lhe é adjacente, incluindo uma moeda própria. Que as parcerias sejam de facto parcerias, com base no respeito e aceitação das diferenças ao contrário da pretensão que nos tem acompanhado nos últimos anos: A ditadura da igualdade. Que sejamos capazes de caminhar lado a lado, sem a tirania das submissões. Que tu 2017, nos tragas a coragem necessária para que recusemos os totalitarismos das forças externas que oprimem povos inteiros. Que sejas um novo ano criador da força indutora da verdadeira democracia.
Desejo que finalmente tu, 2017, mostres aos que gritam que querem salvar o planeta o quão importante é hesitar mais antes de comprar o par de sapatos que vem da China, passa pela Holanda e só depois chega a Portugal, ainda assim vendido a preço de tuta-e-meia. Que se perceba que o que é muito barato para nós, provavelmente será muito caro a alguém. Que sejas o ano em que não fechamos os olhos à dor do outro.
Que não continuemos a destruir o planeta mil vezes mais cada dia por um novo gadget ou uma porra de um creme para o rosto. Que se olhe também por isto, para os que partilham o planeta connosco. Há mais vida na Terra que não é humana do que aquela que o é. Haja respeito! Não se salva o planeta com medidas patéticas e hipócritas. Haja consciência!

Os últimos anos têm sido uma âncora para a nova consciência de Unidade. Que não se confunda Unidade com falsa união. Os que defendem o individualismo dos cidadãos transformados em nómadas, os que defendem o espirito de cidadão do mundo, o cidadão que perde raízes, que não tem pertença e que erra por aqui e por ali consoante as necessidades dos mercados e do comércio livre, esquecem-se de que não estão a tornar-se unos, integrantes de qualquer coisa, mas ao contrário, apartados de tudo, isolados, e por consequência, cada vez mais egoístas e perdidos. Que os que defendem a migração percebam que migrar quase nunca é consequência de escolha, e que quase sempre se migra por necessidade. Que 99% dos migrantes prefeririam continuar a viver nos seus países de origem e que, se não se deve impedir a livre circulação de pessoas, é exigível que se criem condições para que seja possível a cada um escolher Ficar. 
Por anos acreditámos no poder da liberdade individual. O “ Eu Quero e Posso” tornou-nos reféns de uma selva de onde ninguém se salva sem sacrificar o outro. Esquecemo-nos de que mesmo na selva onde vivem os animais selvagens e inferiores, existem códigos de conduta e ética. Abre-nos os olhos para a necessidade de mudarmos no sentido da evolução e não do seu inverso. O homem não vem à Terra há milhares de anos para, chegado aqui, ter-se convertido num consumidor emburrecido e apenas isto.
2017, espero que nos mostres a diferença entre pertença/ identidade e xenofobia/racismo. E ensina a quem prega o seu contrário que defender a primeira não é praticar a segunda. Traz finalmente a paz para quem vive sobre a ameaça das armas. A paz para o Médio Oriente. A cada país a recuperação do que é seu e a coragem para lutar pela prosperidade a que tem direito. Que o empobrecimento dos povos, o desemprego, a precariedade, a corrupção, os lobbies, a insegurança, a decadência e o medo, sobretudo o Medo, tenhas deixado lá atrás, entregues a 2016.
Sejamos todos mais felizes contigo, 2017.

Wednesday, 28 December 2016

Em Destaque

Este Blog esteve ontem em destaque no BlogsPortugal. Obrigada!





Monday, 26 December 2016

Last Christmas...


Resultado de imagem para george michaelEu tinha 15 anos e as paredes do meu quarto não deixavam antever uma lasquinha de tinta. Por todo o lado, posters do George Michael, quase todos, relíquias encontradas no interior da Bravo, uma das poucas revistas que comprava com regularidade.A porta do quarto era o espaço reservado à Madonna com a sua saia de folhos, laçarote no cabelo e crucifixos nas orelhas,imagem oficial do videoclipe "Like a Virgin". Uma das laterais do roupeiro era lugar de repouso de Simon Le Bon, o fofuxo vocalista dos Duran Duran. Mas à minha volta, o espaço livre deixado pelos móveis,não podia ser preenchido por outro que não o Michael, o rosto mais bonito e sexy que alguma vez vira, na época um inspirador de suspiros que só viria a desapontar-me quando se confirmou a sua homossexualidade. Lembro-me de ter ficado tristíssima quando descobri que o mais provável era que ele nunca olhasse para mim, não por eu ser uma anónima de quem ele não suspeitava sequer a existência, mas porque eu era rapariga. Que me perdoem os inquisidores dos devaneios da adolescência, mas que ele era bonito era e embora a paixoneta me tivesse passado, as músicas ficaram para sempre e a minha favorita era "One More Try". 
2016 levou-me quase todas as referências musicais, não lhe perdoo que me tenha levado mais esta. 😪




Friday, 23 December 2016

Feliz Natal!

"Natal. E, só pelo facto de o ser, o mundo parece outro. Auroreal e mágico. "

Miguel Torga

                       

Thursday, 22 December 2016

Quase Natal


São 6 e meia da manhã. Ainda não dormi. Na rua chove copiosamente e a casa está fria. É Dezembro. Quase Natal. Adiei por mais um dia a compra de meia dúzia de presentes, mas deambulei pelo centro comercial da cidade. Observei a azáfama das lojas cheias de clientes, as mãos ansiosas a passarem cartões de crédito nas caixas, a carregarem sacos, embrulhos, roupas, perfumes, telemóveis. 
À mesma hora em que um rapaz encorpado, esculpido por muitas horas de ginásio, passava por mim com um LCD debaixo do braço, rebentava mais uma bomba em Aleppo. À mesma hora em que uma mãe indicava ao empregado da loja que queria um embrulho bonito para o novo iphone da filha adolescente, mais uma dezena de miúdos na Somália sucumbia à desidratação, desnutrição e falta de vacinas. À mesma hora em que um grupo de raparigas exibia orgulhosamente os vestidos para a festa de fim de ano, acabados de comprar na Stradivários, o Washington Times comunicava ao mundo que na Holanda, a eutanásia é oferecida como cura para o alcoolismo. À mesma hora em que me sento para me deliciar com um calzone carregado de queijo derretido e pepperoni, também leio no feed do Facebook que na Síria, mães e pais preferiram matar as suas próprias filhas para evitar que elas fossem vítimas de estupro por membros do Daesh. 
É Natal. Eu estava a ouvir cânticos, observava as luzes multicolores, os brilhos das decorações natalícias e metia na boca mais uma garfada do meu calzone. Mas a notícia das meninas sírias assassinadas pelos próprios pais, tirou-me o apetite e o encantamento e colocou-me à frente a minha filha, a minha linda Mariana, e transportou-nos às duas para o meio das ruínas de Aleppo. E aos meus olhos, a minha menina, tornou-se vítima da má sorte por ter nascido em tão horrível lugar onde é preciso matar para não morrer, onde é preciso morrer para não sofrer a humilhação e a desonra. São quase 5 da manhã. A esta hora em Aleppo, como em tantos outros lugares do mundo, há quem passe indiferente ao nosso natal, noites inteiras ao relento, à chuva, na melhor das hipóteses ao abrigo de meias paredes, recantos que oferecem um tecto e um bocado de chão onde estender um velho cobertor. A esta hora, as mães de Aleppo acolhem os seus filhos nos braços, colocam-lhes as mãos sobre as cabeças, protegem-lhes os ouvidos do barulho ensurdecedor das bombas. As mães que não pregam olho, passam a noite a olhar os céus, atentas aos clarões dos bombardeiros, embaladas pelo ronronar dos estômagos vazios, os seus e os dos seus filhos. Pés calçados, prontos a caminhar rapidamente na direcção de outro refúgio se é o perigo que pressentem sobre as suas cabeças. É natal. E em França, onde também há natal, é ofensivo mostrar o dom supremo que é a Vida. Envergonham-se as mulheres que recusam fazer parte da eugenia e retira-se-lhes a bravura com que aceitam os seus filhos “diferentes” nos braços. Eu poderia continuar a escrever sobre todas as calamidades deste mundo, sobre todos os horrores que precisamente a esta hora estão a acontecer, atirando para o mais desumano desespero, milhares, milhões de pessoas em todo o mundo e quando acabasse, já seria natal outra vez, mas do próximo ano. Mas é natal e no natal o tempo é o de pensar na ceia, no bacalhau e nas rabanadas, nas luzes e nos enfeites, nos presentes e no orçamento que é preciso esticar para os comprar. Tanto apêndice para um natal que é apenas o aniversário de Jesus, o Homem que ensinou o Amor, a fé, a solidariedade, a simplicidade e o respeito pelo outro. O mundo está a abrir-se debaixo dos nossos pés e nós, ainda que nos sintamos no pedestal, estamos também a cair para o abismo, tal como as raparigas que os pais matam na Síria para não serem violadas pelos mercenários do ISIS, tal como os miúdos da Somália que morrem a revirar os olhos em busca de um pouco de pão…tal como…o tipo que está aí em baixo, a enrolar-se num pedaço de cartão à porta do vosso prédio. E vocês ainda acham que é natal? Não me FODAM! ISTO NÃO É NATAL! Isto não é Natal.

                            Foto de Ana Kandsmar.

Milagres

"Há quem diga que um dia ainda vai olhar para trás e rir-se de todas as adversidades. Eu acho que vou chorar. Talvez de alegria mas vou chorar, porque é inumano percorrer caminhos inóspitos, atravessar desertos e chegar em algum lugar melhor sem considerar que pequenos ou grandes milagres operaram na nossa vida. E não se ri de milagres."

Ana Kandsmar in Mar de Deus


Saturday, 10 December 2016

"Um romance mitológico de cortar a respiração, com muito suspense e emoções fortes."

Assista ao novo BookTrailer d'A Guardiã, O Livro de Jade do Céu. Agora com um preço especial antes de ir para as livrarias. Apenas 19 euros com oferta do portes de envio para Portugal Continental. Encomendas para o e-mail beedynamicbook@gmail.com!

Quem ainda não leu O Livro de Jade do Céu, leia aqui mais uma opinião de um leitor. 

Grata, Nuno Novo!


"Concluída que está a leitura do livro "A Guardiã - O Livro de Jade do Céu", como ficou prometido, e porque gosto de honrar os meus compromissos, cumpre-me, agora, emitir a minha modesta opinião.
Já de há uns tempos a esta parte, que o livro me tinha suscitado curiosidade. O título era (é) bastante apelativo para quem gosta de explorar no imaginário, campos da criação divina/mitológica.
As minhas expectativas iniciais, agora que está concluída a sua interessante e intensa leitura, não foram de modo algum, defraudadas. Antes pelo contrário.
Um romance mitológico de cortar a respiração, com muito suspense e emoções fortes.
Embarquei num "espectro de luz" e viajei por muitos dos lugares míticos da história universal.
Avalon e Camelot, com as suas lendárias personagens de Rei Arthur e Lancelot e a rivalidade pela disputa de Genneviere, a donzela que conquistou o coração de ambos.
Breve passagem pela Terra Santa e Palestina, sem esquecer a cidade de Petra e os seus deslumbrantes monumentos na vizinha Babilónia e Mesopotâmia.
Uma viagem pelo Renascimento e pela mão do artista Michellangelo, passando de igual modo, figuras e obras bem portuguesas. E claro, por Lisboa e Zona Oeste, em geral e Óbidos, em particular. Sem esquecer a sua ex-libris licorosa e claro, o comércio que a envolve e serve, em copinhos de chocolate.
A abordagem saudável e equilibrada à história da religião muçulmana, do seu profeta Maomé, e as diferentes interpretações do seu conceito.
Sem esquecer, uma viagem ao imaginário de James Murray Barry, e o mundo encantado de Peter Pan.
A abordagem a personagens bíblicas cirúrgicas, símbolos e rituais de adoração ao Demo. E com uma pitada de enigmas e charadas q.b..
Uma história de amor improvável, com ligeiros despertar de sensualidade.

Adorei. Muito!

Dan Brown, em o "Código da Vinci", aborda, também, este tipo de rituais de Ordens/Seitas, no caso em concreto, do Priorado do Sião. E o mítico Graal... afinal, a descendência Merovingia!
Ana Kandsmar, fiquei deveras surpreendido com a forma como conciliaste este emaranhado mitológico, e o descreves de forma tão ilustre e peculiar.
Afinal, o bem e o mal; a luz e as trevas; o Yin e o Yang; o certo e o errado; o dia e a noite; o calor e o frio; Deus e o Demónio, serão sempre indissociáveis!
Trouxe-me à memória uma frase que proferia muitas vezes a minha saudosa avó materna "o amor e o ódio, caminham sempre de mãos dadas, há que os saber equilibrar e controlar".
Voltando ainda à obra de Dan Brown, retenho algumas expressões que com alguma regularidade foram utilizadas, tais como "anuir" e seus derivados, "tamborilar" e "assomou-se".
De igual forma, neste fantástico e surpreendente romance, recorres com alguma frequência a termos como "aquiescer" e "excruciante". A tua percepção e a forma como revés o Outono e o descreves com tamanha objectividade no papel de Luana Kelman😉

Parabéns.
Adorei e recomendo vivamente a sua leitura."

(Nuno Novo)



Thursday, 1 December 2016

Já à venda!



À venda nas livrarias a partir de Janeiro.  Compre agora, enviando o seu pedido para beedynamicbook@gmail.com







in Mar De Deus

"Deixa que as tuas escolhas reflictam as tuas esperanças, não os teus medos."
Ana Kandsmar in Mar de Deus


Sunday, 20 November 2016

Confira aqui alguns excertos d'O Livro de Jade do Céu

                 
«Não receies as Gárgulas. Ao invés disso, entra. Atravessa o recinto que te leva à beleza das açucenas. Num dia em que não haja oração nem o burburinho das vozes que ressoam os cânticos, cruza o arregaço das cortinas que compõe o arco e contempla o céu das oito pétalas. No alto hás-de ver um Anjo. Um Anjo que segura o que não guarda. Colocar-te-ás no lugar dele. E eis que, estando tu no lugar do anjo, verás o que ele vê e guardarás e que ele guarda».

"Recuo à minha infância. Pronunciar aquele nome, Júlia, a minha tia Júlia, era voltar a sentir o cheiro do pão-de-ló acabado de cozer, o barulho repetitivo do pedal da máquina de costura, o sabor das fatias do pão caseiro com mel, o barulho do granizo a cair sobre o telhado de zinco da adega, as manhãs dos primeiros dias de Dezembro passadas a apanhar musgo nas várzeas que na Primavera se transformavam em pasto para as ovelhas. E os olhos doces. Os olhos doces da minha tia Júlia que pareciam sempre transbordar de amor e de bondade."



"Há anos que não vou ao Iraque. É uma loucura ir ao Iraque. Aquele país é um deserto retalhado por dois rios onde corre mais sangue que água. Ninguém quer ir ao Iraque. A menos que o faça por dinheiro. Vão os senhores da guerra, os heróis da guerra, os lunáticos da guerra, e os curiosos pela guerra. Os repórteres. Os contadores de histórias que nunca dizem a verdade. Contam apenas estórias. Eu sou arqueóloga. Não conto estórias. Conto a história. Já fui ao Iraque. Para encontrar vestígios do tempo em que o Iraque vivia em paz."


"A chegada à cidade de pedra é, tal como previsto, um regresso ao passado. Já experimentei a forte sensação da nostalgia em muitos lugares do mundo, e Petra não é diferente. Pelo contrário. A cidade arrancada das rochas parece ter o condão de me extasiar, de me deixar completamente rendida à beleza, ao misticismo, ao corredor do tempo que se abre perante os meus olhos, impiedoso e cruel. As palavras do velho Yeshua ressoam na minha mente e trazem-me de novo a imagem de Al-Uzza, humilhada, expropriada da terra, das gentes e da vida que um dia lhe pertenceram. Na terra que já foi minha, olhando, sentindo e absorvendo os aromas, crio a ilusão de que nunca antes soube da existência deste lugar."

"Os homens sonham secretamente com os apocalipses. Os bíblicos e os cinematográficos. O Day After que há-de vir carregado de novas possibilidades. Um Armagedom promissor, um desvio de rota que os leve a bater de frente com um pedregulho espacial ou que os conduza à entrada abrupta num buraco negro, de minhoca talvez, uma dobra no universo que os catapulte para os novos amanhãs tão diferentes de hoje. Secretamente desejam o fim. Invejam o jurássico e as eras glaciares. A hecatombe há-de salvá-los deles mesmos, qual arca a protege-los do dilúvio. A morte há-de salvá-los da vida."


"Kasbel murmura de novo qualquer coisa de ininteligível e o meu corpo gira no ar como se apanhado por um remoinho. Depois deixa-me cair. Por breves segundos, sou disparada para fora da couraça física que acolhe Eluaryne e vejo-a a ser lançada no chão. A violência do impacto suga-me de novo para dentro do corpo que é projectado a vários metros de distância. Sinto um ardor bárbaro no meu rosto quando ele raspa o solo."



“-É neste ponto que nos reunimos a Jonas e ao seu complexo, não é Michel? Jonas é alguém que tem asas para voar, que tem um desejo de espaço, um desejo de infinito, mas não tem coragem. Ele apara as suas asas, para continuar adaptado à sociedade na qual se encontra e que o proíbe de ir ao outro, de ir ao inimigo, de ir ao diferente, limitando-se apenas à dor da sua perda.”



“-Nero elevou-se aos píncaros da criatividade depois de ter posto Roma a arder! É verdade, ainda te lembras daquelas maravilhosas labaredas que arrasaram Cartago? Fui eu! Hiroxima e Nagasaki? Também fui eu! Tal como fui eu o criador das máfias, de todos os tipos de tráfico, da toxicodependência, da prostituição, violação, pedofilia. O Holocausto! Auschwitz! Ah, Auschwitz! Que maravilha da criação! Antes disso, o massacre de São Bartolomeu ou o genocídio arménio haviam sido brincadeiras de crianças! Adorei cada uma das minhas criações. A lepra, a cólera, a sida, os cigarros, as discotecas, o sexo anal, o adultério, os assassínios, as marés negras, os assaltos à mão armada, a indústria farmacêutica, o Heavy Metal! Mas Auschwitz... Ah, que saudades que eu tenho de Auschwitz!”

"Os meus olhos não se desviam do Mensageiro e avanço a cada palavra dele para o interior das minhas próprias memórias. Da teia do tempo que me separa daqueles acontecimentos trágicos, surgem ténues recordações. A princípio esmorecidas, embaciadas, como um espelho envolto em vapor. Imagens confusas como se emparedadas por um nevoeiro denso, que a pouco-e-pouco, se tornam claras e reais. O coração que me bate no peito acompanha-as, identifica-as e agita-se, galgando num pulsar crescente. Aquele corpo deitado no chão frio da cripta fora o meu. Foram minhas as roupas rasgadas, atiradas aos cantos escuros do aposento. Foram meus os seios desnudos e violentados, a carne suja e rasgada, a dor, a humilhação e por fim a perda."



"Os olhos do arcanjo passeiam pela divisão, apreciam o sofá largo, em forma de L e saltam deslumbrados para as serigrafias a preto e branco nas paredes. Todas elas retractam momentos únicos na história. Uma mulher que atira um cravo à espingarda de um soldado durante a revolução de Abril; um rapazinho mal vestido e sujo, perdido numa das ruas de Berlim, destruída pela guerra; o genial mestre do suspense, Hitchcock, fumando o seu charuto enquanto uma espiral de fumo branco parece querer evadir-se da moldura e ainda uma outra, cuja concentração de muçulmanos em plena oração em Meca, impressiona até o mais acérrimo dos ateus."




"Emudecidos perante o cenário deslumbrante que se desenha em frente dos olhos, os celestiais não se dão conta de que a minha transformação está prestes a começar. Continuo a ser o corpo humano que permanece ao lado deles, mas já não falta muito para que Eluaryne ocupe o meu lugar. Com calma e precisão, vou colocando por ordem cada uma das páginas do Livro de Jade do Céu. As minhas mãos movem-se devagar como se manuseasse um bisturi numa mesa de operações. Por vezes, a luz ténue da lua, revela fugazmente o esplendor da sua forma. Quando os reflexos dourados da nova energia se avolumam nas extremidades do meu corpo, olho para as minhas mãos e vejo-as cristalinas e brilhantes."

"O rosto do meu raptor é belo e fleumático. Os olhos daquele ser, forte e imponente, desviam-se dos meus para fixar Miguel e Mendel que continuam no chão. Com um desdenhoso estalar de dedos, põe fim ao meu grito e aperta-me contra ele. Encosta a boca no meu ouvido e sussurra num linguajar que eu não entendo. Sinto a minha pulsação acelerar. Vejo Miguel de espada em riste. A Justiceira brilha no escuro na direcção de Kasbel que se esquiva, colocando-se na minha retaguarda."
"Ele solta uma gargalhada. Um som metálico cortante, que me gela até aos ossos. A minha transformação ainda não está completa, mas a dor no meu corpo selado pelos braços do Arcanjo Negro, é um sinal de que fiquei num limbo. A meio de um caminho em que Eluaryne e o corpo de Luana estão perfeitamente fundidos, sem que haja qualquer hipótese de fuga para uma ou para outra. Assustada, a centenas de metros acima das cabeças de Miguel e Mendel, esvazio a mente na esperança de dar espaço a Eluaryne para que ela se escape para Kollob. Mentalmente, recito o Pai Nosso para deixar a minha mente em branco."

Ana Kandsmar in A Guardiã, O Livro de Jade do Céu

Friday, 18 November 2016

Amar as estrelas...



Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, 
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido 
tem o que dizem, quando estão contigo? "
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac

O maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal

"À minha frente estão duas gavetas onde só guardo tesouros. Coisas de muito valor. Uma tem pacotinhos de supari, masala tea bags, caixas de incenso, sabonetes de açafrão e sândalo, um sari lindo, rendado, fiadas de flores de jasmim já secas e esboroadas e ainda um cd de Ravi Shankar. Um cd que quando toca, solta um som tão mágico e envolvente como só uma cítara pode ter. Um dia, eu hei-de morrer e a Índia, continuará a ser a Índia. Com ou sem dejetos e cadáveres que boiam indiferentes ao choque dos turistas, o Ganges e o Yamuna, continuarão a ser os rios onde já molhei os meus pés.
Na outra gaveta tenho postais ilustrados, fotografias que eternizaram momentos irrepetíveis, e alguns textos que fui escrevendo, inspirada pelas paisagens e pessoas que emprestam a alma àqueles lugares. Ainda hoje guardo tudo com a convicção de que se a minha casa sofresse um incêndio, seriam estes pequenos (grandes) tesouros que eu tentaria salvar a todo o custo. Quando tenho saudades da Índia, enfio o nariz na gaveta e deixo-me inundar pelos cheiros dos mercados enquanto a cítara de Ravi Shankar enche a casa. Quando é a nostalgia de lugares tão belos e indiscritíveis, preciso de olhar as fotografias. Afronto-as para me relembrar dos pormenores. Vejo os minaretes em Istambul e ouço-os verter para fora as vozes afinadas dos muezins. Vejo a Via Dolorosa impregnada de peregrinos que se misturam com muçulmanos e judeus, aytolas e rabinos, crentes e ateus. É assim Jerusalém. Um enorme templo de onde os vendilhões nunca saíram. Vejo um aborígene de pele escamada pelo sol, que sopra um didgeridoo ecoando o som harmonioso pelo deserto australiano com as Olgas como pano de fundo. O cenário mágico das ilhas de Pazcuaro, as pirâmides de Tikal, as ruelas estreitas de Varanasi pontilhadas de santuários… E preciso das palavras. Quando lhes sinto a falta, leio nas frases que brotaram cruas dos meus silêncios, o maior amor do mundo, cristalizado, perene, imortal."

Ana kandsmar in A Guardiã- O Livro de Jade do Céu

Sunday, 13 November 2016

Que livros vai comprar neste Natal?

Aproveite agora com um preço inferior ao das livrarias e oferta dos portes de envio!
Peça já para beedynamicbook@gmail.com ou envie mensagem privada!
(Até 18 de Novembro!)