Sunday, 25 September 2016

Conversas com a minha avó


-Então, avó, porque chora?
-Porque tenho saudades das minhas netas.
-De que netas, avó?
-Olha, uma esteve cá há pouco tempo, mas já não me lembro do nome. Tem uma menina. É a Érica. A outra parece-me que se chama Dina, estou à espera dela para me mostrar o Simão. E há ainda outra. Aquela que me roubava chocolates quando era pequena.
-Avó, essa que lhe roubava chocolates, era eu. :)
-Oh…a sério? Deixa lá. Se fosse hoje eu deixava-te roubar chocolates à vontade. 

Outono

Com que agonia se ouve a voz das fontes? 
Se ela tem humildes alegrias quando canta
Saboreio um inverno em cada planta
E um verão em longínquos horizontes
Árvores maternas abrem os braços
Verdes, tristes, num gesto criador
Com impulsos derradeiros abrem espaços
E chegam mais perto ao seu senhor.
Mas tudo, risos e sonhos subsistem
Doura a tarde sonhos feitos de abandono
Nas sombras dos jardins em que resistem, 
eu passo, e piso folhas mortas de outono.
Se antes voaram bem alto como pombas
Hoje, sombras vagas a errar 
Por entre sombras.

Sunday, 18 September 2016

Outra alegoria da caverna

Vender a alma ao diabo parece ser mais ou menos recorrente para a maioria das pessoas. Terei eu já vendido a minha algumas vezes, sobretudo quando em troca de um mísero salário aturo o que em condições menos adversas nem a troco de milhões aturaria. Mas vendê-la da forma abjecta como José António Saraiva o faz com este livro, que revela a intimidade de várias figuras públicas, é se calhar um sinal inequívoco de que este homem já não tem alma, sequer. 
Mas não devemos culpar apenas o jornalista que muito provavelmente verá aqui uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro. Afinal, o livro será um sucesso e ele sabe-o. Num país onde impera a venda de revistas cor-de-rosa e pasquins que relatam dramas de faca e alguidar, não se espera outra coisa. 
A Maria que cumpre religiosamente o ritual da compra da Nova Gente e da Caras, entrará muito provavelmente, pela primeira vez numa livraria, para comprar o “ Eu e os Políticos”. Muitas “marias” deste Portugal o farão. Muitos “manueis” as imitarão. 
O jornalista Saraiva engrandecerá o ego com o seu sucesso editorial, a Gradiva inchará a gaveta do lucro e milhares de portugueses ficarão mais pobres. Não pelo dinheiro que pagarão pelo livro, mas pelo que de mau ele representa. 
Espantam-me aqui sobretudo duas coisas: Que as personalidades visadas permitam que a sua vida íntima seja explorada por terceiros com vista ao enriquecimento e mediatismo pessoal, e ainda, que um profissional que gozava de respeito e admiração entre os seus pares se permita a este mergulho na lama. 
Só a Gradiva me parece agir da forma coerente que tem caracterizado a maioria das grandes editoras. Essa já não me desilude. Como outras, publica cada vez menos escritores e cada vez mais gente que garante vendas, ainda que mal saiba escrever uma linha ou não tenha de facto, nada para contar, ou melhor: para acrescentar. 
Não há muito tempo, foi o apresentador de televisão Júlio Isidro, agora é o Saraiva. Tudo em nome das vendas. Culpa, claro das pessoas que deixaram de comprar escritores, e unicamente para alimentar a coscuvilhice, preferem levar para casa a roupa suja das caras conhecidas.
Há uma imagem que ilustra na perfeição este estado de negação em que se vive neste mundo. Se enfiados num poço fundo e escuro, que se lhes atire uma escada. A maioria preferirá parti-la para com ela fazer uma fogueira ao invés de usá-la para sair do poço e ver de novo a luz. Uma espécie de alegoria da caverna. 
É isto. É triste mas é isto.

E tudo o Vento Levou...


"Não te vou beijar. Embora precises muito de ser beijada. É esse o teu mal.Precisas de ser beijada com frequência, e por alguém que o saiba."


Wednesday, 7 September 2016

Funeral



Não o faço diariamente, mas volta e meia instruo os meus filhos sobre o meu funeral. Não que a morte me espere já ali ao virar da esquina, mas sei que me espreita. Cruzou-se comigo algumas vezes. A primeira de que me lembro, eu tinha 4 anos e olhei-a nos olhos, no fundo de uma mina de água. Por entre o lodo e musgo verdete, folhas de nenúfar a dormitar silenciosamente sobre as águas, ela deixou-me passar incólume, de regresso aos braços da minha avó.
De novo nos voltámos a encarar aos 19, nessa altura num bloco operatório gélido e imaculado. E outra vez aos 30. Apanhou-me de surpresa a cruzar um tapete de alcatrão. A chegada dela fez-se acompanhar de um baque ensurdecedor. Tombei com a cabeça sobre o vidro que se estilhaçou e de um ângulo completamente novo, observei toda a parafernália que habitualmente envolve um acidente na estrada. Muita gente curiosa se juntou, dando livres asas ao desejo de ver sangue, os bombeiros e a polícia assinalando marcha de urgência, desenvolvendo esforços para me manterem viva. Vi tudo. Ouvi tudo. E do centro da minha inconsciência, observei a cena. Via um filme. Onde eu estava, com a morte ao meu lado, podia muito bem ser uma sala de cinema. E as cenas chocantes que se projectavam perante os meus olhos faziam-me estremecer na cadeira. Pensava: Coitada! O carro vai incendiar-se e os bombeiros não conseguem tirá-la lá de dentro!”
Conseguiram. Escapei por um triz. Não sei em que momento a morte me deixou, mas quando dei por mim já estava entregue às equipas médicas. Só queria saber dos meus filhos. Se eles estavam bem. O carro havia sido em parte consumido pelo fogo e eu tinha escapado viva. Os meus filhos tinham escapado vivos. E a morte ter-se-ia, a dada altura, talvez por detestar o ajuntamento de multidões que vão ali só para a ver, timidamente afastado.
Todavia, ronda-me que eu bem a sinto. Espreita por uma oportunidade. Um deslize. Uma distracção. Um acto impensado. É assim que ela age. Como um predador que se esconde atrás das estepes das savanas, espera silenciosamente a presa. Ao mínimo descuido e estamos nas suas garras.
Por isso, por previdência, não vá o diabo tecê-las e eu acabar com os quatro costados num buraco de terra fria e húmida, no meio de vizinhos que não conheço de lado nenhum (Deus sabe como eu detesto ter vizinhança por perto), instruí-os. Não quero ir parar a um cemitério. A nenhum cemitério. Não quero ir parar a lugares onde encontrarei restos de outros que morreram antes de mim. 

Quero um funeral Viking. Quero deslizar sobre as águas calmas de uma lagoa, deitada no interior de um pequeno barco a remos ou sobre uma jangada. Na margem, um arqueiro experimentado nas lides da flecha, há-de lançar-me um archote certeiro, a ponta enrolada por uma tira de pano imbuída em querosene. As labaredas hão-de consumir o meu corpo à medida que a corrente me leva ao oceano. Depois, as ondas hão-de engolir-me e as minhas cinzas viajarão pelos sete mares.

Agora a sério…é uma pena que não se permita em Portugal um funeral temático. Toda a gente devia poder decidir como é que quer despedir-se deste mundo. 

Não terei o meu funeral Viking.Terei que me contentar com o crematório na capital. Mas instruí os meus filhos. Quero ao menos que o pote com as minhas cinzas seja enterrado onde possam plantar uma árvore. Uma floreira. Que nesse momento em que me dispõem na terra como uma semente, se ouça ao fundo o violino do David Garrett a soltar as notas de Bach. Quero o Air na minha despedida. E rosas brancas. E tulipas. Apenas rosas brancas e tulipas que podem vir de todas as cores. E quero que os meus filhos fiquem atentos ao preciso momento em que soar a última nota. Fiquem atentos. Nesse instante, nesse preciso instante, no nanominimicro segundo que antecederá o silêncio, eu pousarei um beijo nas vossas faces e dir-vos-ei ao ouvido que não poderia ter-vos amado mais, pois coube-me no coração, por vós, todo o amor que algum dia foi germinado.

Encontrado por aí...


Se encontrares uma mulher que escreve, deixa-a por perto.
Ela é aquela com sombras debaixo dos olhos e que cheira a Candy da Prada e chá de cidreira.
Aquela debruçada sobre um caderno qualquer gatafunhado de palavras complicadas.
Essa é a escritora.
Com os dedos ocasionalmente manchados pela tinta das canetas, a tinta que vai viajar entre as vossas mãos quando entrelaçares os teus dedos nos dela.

Monday, 5 September 2016

Ana de puta…puta de vida.

Uma pequena tatuagem de um colibri sobre o ombro direito desnudo e liberto da grossa camisola de lã, que a gola arredondada fazia lembrar a boca de um vulcão. Ana passeava o seu corpo sobre os passeios mal iluminados e escondidos das ruas que circundam o centro comercial. 
Meneava-se sobre os saltos altos de onde jorrava um par de pernas escanzeladas, adornadas por meias de rede que terminavam onde começava a curta saia de napa. Os cigarros que consumia avidamente não chegavam para lhe roubar o frio dos ossos, nem o torpor da alma.

«preciso de beber um copo.»Estava disposta a vender-se por um pouco de calor. E por cigarros. Não lhe importava o dinheiro, por uma vez que fosse. Mesmo que o estômago estivesse vazio há demasiadas horas. Mesmo que uma ou outra substância proibida lhe faltasse no cérebro para poder continuar mais um pouco. «nem um gajo aparece!»
Os dias de fim de ano até costumavam ser bons, mas agora não conseguia perceber o vazio de gente. Não tinha um ar andrajoso, embora também não enchesse o olho a alguém sem a junção de mais qualquer coisa - um gesto, meia dúzia de palavras, um convite explícito. Os cabelos compridos ofereciam-lhe um ar adolescente. Tinha um rosto anguloso, mas bem estruturado, assente num corpo franzino.
Farta de martelar a calçada com os saltos altos onde se pendurava, endireitou-se, encostou a carteira coçada e gasta ao peito com brusquidão e meteu-se a caminho em direcção a quem entrava e saía pela grande porta de vidro do Shopping. Estendia a mão e pedia, pedia, mas dali não levou mais que alguns olhares de escárnio e desprezo. Era a puta da vida – pensava Ana - a puta da vida ainda mais puta que ela, que a empurrava para a escuridão da noite, sem o copo de vodka que lhe daria a ilusão das temperaturas de Julho. A puta de vida que a empurrava para o quarto alugado nas águas furtadas, um canto nauseabundo a cheirar a mijo de ratos, onde não a esperava qualquer folia própria da época, mas apenas mais um final de ano, como outro qualquer, com o mesmo vazio no estômago, com a mesma ausência de lágrimas de sempre, onde os dias não tinham o atrevimento de ser diferentes, por uma vez que fosse.
Ao lado passa-lhe um daqueles homens que não sabem o que é ser pousio de olhares femininos. Daqueles homens que mais parecem lugares de ninguém e que em segredo acalentam o desejo de serem ocupados, possuídos por qualquer uma" sem- terra". A derradeira oportunidade fê-la implorar-lhe «fode-me, fode-me! Olha vês, são só cinco euros e podes foder-me!» 
Viu-lhe nos olhos o espanto, o encolher de ombros,a palmadinha no traseiro, a nota ainda quente a sair do bolso dele para as mãos dela, o acelerar do passo, o renault clio cinza em 2ªmão, o sémen que lhe escorria pelos cantos da boca. A Vodka e as temperaturas de Julho, viriam a seguir.

Sunday, 4 September 2016

Os bons, os maus livros e o preconceito com os autores portugueses




Há umas semanas atrás tive o prazer de ler alguns bons livros. Sei que são bons, porque ainda hoje dou comigo a pensar no Rhenan, na Maria, na Freya, no Fion e na Maeve, sinto arrepios ao lembrar-me do Lochan e ponho-me a imaginar o que andarão eles a fazer por esta altura, quase não resistindo à tentação de abrir de novo o “Yggdrasil”, só para me certificar de que eles não andam lá por dentro a fazer muita bagunça.
A mesma sensação apanha-me quando passo pela estante e deito o olho ao “Dia Em Que Nasci”. O livro é pequeno, lê-se de uma acentada, mas é como um pastel de nata ou um daqueles “mil folhas” em miniatura: Delicioso. O Tomé, a Alice e a Ana ficaram-me para sempre numa das minhas gavetas de memórias (sim, as mulheres também têm gavetas, e eu tenho pelo menos uma só para as memórias literárias). 
Perguntem-me se não me emocionei quando a Maria entrou pela primeira vez no quarto do Rhenan ou se não me indignei por causa das correntes que o pai do Tomé usava para o prender e eu dir-vos-ei que sim. Ora, quando isto acontece, quando o autor consegue transmitir emoções ao leitor, então muito provavelmente o leitor estará perante uma boa história. Sortudo! 
Ando sempre atrás de boas histórias e não raramente fui (em tempos), atrás das grandes campanhas de marketing que as editoras fazem em prol das suas vendas. Pudera! A maioria dos livros que encontramos nas livrarias são importados de fora e as editoras portuguesas pagam os direitos de autor a peso d’ouro! É preciso vendê-los. 
A Becca Fitzpatrick vendeu bem o Hush Hush no Canadá?(como se vender bem no Canadá se possa comparar a vender bem em Portugal) Então compra-se e depois fala-se dele até à exaustão, pagam-se lugares de destaque nas livrarias, colocam-se os exemplares mesmo ali à frente do nariz de quem entra decidido a levar o D.Quixote, ou outro qualquer, ou ainda, completamente às aranhas sem ter a mínima ideia de que livro comprar. Vê-se aquele, a capa é apelativa e… pimbas! Daí à caixa vai um “danoninho”, paga-se e leva-se para casa, para então se descobrir que o livro é uma grande merda. Assim, sem mais nem menos. Uma grande Merda! O que é verdadeiramente de bradar aos céus, é que se em vez de Becca Fitzpatrick, o nome do autor fosse Filipe Vieira Branco, ou MBarreto Condado ou…Ana Cristina Pinto, muito provavelmente estaria a ganhar mofo num canto qualquer onde ninguém chega.
Lembro-me de um outro, “ O Céu existe mesmo”, livro que a Lua de Papel, do Grupo Leya, até publicidade na televisão pagou e olhem só o que os portugueses compraram: papel higiénico encadernado, decorado com uma fila imensa de palavras. Na capa consta um selo que diz “ 3ª Edição em 15 dias! O livro sensação do ano!” Olhem que porra, claro que quando se vê isto na capa de um livro a vontade é comprar! “Bestseller nº1 do New York Times, 2 milhões de exemplares vendidos em 6 meses”. Efectivamente, este foi o título que mais vendeu em 2011, pelo menos em Portugal. Vergonha, vergonha! Quantos rolos da Renova, daqueles de luxo, dupla ou tripla folha, perfumado e com desenhos, teria eu comprado pelo mesmo valor que paguei pelo argamasso de folhas do tal Todd Burpo e mais não sei quem? O que raio nos andam a impingir para ler? 
Até há uns tempos atrás eu ainda acreditava que é o público que determina o sucesso de um livro. Hoje percebo que são obviamente as editoras. São elas que escolhem o que editam e compram. Ainda antes do leitor comum decidir alguma coisa, aparecem os livreiros que escolhem o que colocam nas livrarias. E onde colocam. O lugar onde o livro está diz muito sobre as suas vendas. Se não está nos destaques ou num expositor ali mesmo à frente dos olhos, esqueçam. O pobre anda a passar um mau bocado. Não é por ser certamente um mau livro, a razão por que não está visível. As razões são sempre outras e todas se prendem aos euros, como as correntes aos tornozelos do Tomé. Quanto se ganha com o livro X ou com o livro Y? Ou mais exactamente: Quanto se perde, caso não venda?

Nós vamos por arrasto. Muitas vezes vítimas do fenómeno da carneirada. Nós, que gostamos de voar (rasteirinho) como as galinhas, mas em bando, como os gansos, repetimos o que vimos aos outros e temos muito pouco desenvolvida a nossa capacidade de análise. Vamos atrás e pronto. É mais fácil. E há coisas que em carneirada não se admitem: Dizer que afinal não era bem aquilo. Fica mal. Afinal se todos gostam, por que raio não gostei também? O problema só pode ser meu! 
Bom, já não é novidade nenhuma para ninguém que o rei vai nu em mais contextos das nossas vidas do que é possível contabilizar e é se calhar por isso que hoje, pudesse eu mudar radicalmente a minha vida e tornar-me-ia eremita. Começo a cansar-me de viver entre pessoas que preferem o que parece ao que é. Termino por isso este texto a pregar aos peixes. Há bons e maus autores dentro de cada género, há bons e maus autores nas grandes e nas pequenas editoras. Mas acreditem que as hipóteses de se encontrar bons autores fora das livrarias crescem a olhos vistos, ao mesmo ritmo que os grandes grupos editoriais têm necessidade de facturar. E acima de tudo, acabem com o estigma do “ se é português” não deve ser lá grande coisa. Lembrem-se do José Luis Peixoto, do José Cardoso Pires, do Luis Miguel Rocha, da Alexandra Lucas Coelho, do Miguel Torga ( que ao longo da sua vida só fez edições de autor) e tantos outros que sangraram para se fazerem notar e que agora, muitos deles injustamente esquecidos para dar lugar às Noras Roberts e Erikas Leonards James deste mundo. 
E acima de tudo, tenham em conta o mais importante: se o autor é português, não pertence à pandilha que aparece nas revistas cor-de-rosa, não é sequer apresentador de televisão e a editora aposta nele, então a garantia de qualidade é exponencialmente grande! Como é que sei isto? Tomem lá um exemplo: O livro do Paulo Caiado, “ Um Momento Meu”, é bom não é? Se ainda não sabem, têm bom remédio. ;)

(Adenda: Não posso terminar sem recomendar aqui alguns dos melhores livros de autores portugueses que já tive o prazer de ler e que não se encontram por aí a pulular nas livrarias. São eles: As Crónicas de Tellargya de Hélder Martins,Sonhos Roubados de Pedro Santos Vaz, Entre o silêncio das pedras de Luis Ferreira, O Dia Em Que Nasci de Filipe Vieira Branco e no meu género preferido, amei, amei, amei ,...YGGDRASiL, Profecia do Sangue de MBarreto Condado e O Erro de Deus de Carlos Queirós.

E já agora...e já agora nada que fica feio recomendar o meu. ;)

Wednesday, 31 August 2016

Ao meu menino d'oiro

 Vinte e dois anos a ser tua mãe.
 Vinte e dois anos de somas: + amor+orgulho+esperança+companhia+sorrisos+ vida. Não te amo daqui até à lua, porque seria tão pouco. Amo-te daqui até não sei onde, porque o onde que não sabemos onde fica encontra-se por caminhos que não têm fim. Parabéns a nós que somos a extensão um do outro. Eu, a tua extensão para o passado. Tu, a minha extensão para o futuro.


Saturday, 27 August 2016

Soul até à Alma


Amy Winehouse foi uma figura de tragédia. Ela encarnou a figura do talento prodigioso que raramente aproveita as oportunidades que tem para ser o que merece: uma estrela amada. Amada pela sua voz, amada pelo seu timbre verdadeiramente ‘soul’, até amada pelos seus desastres. 
Houve talentos desses consumidos pelas drogas e pelo álcool, destruídos pela fama e pela má-sorte. Mas Amy Winehouse foi uma espécie de Sísifo que não consegue transportar até ao cume da montanha o peso extraordinário da sua vida.
Caíu demasiadas vezes devorada pelos seus fantasmas ou pelo álcool, o que começou a ser um excesso, até mesmo para os seus fãs mais adolescentes, como uma repetição da desgraça, uma espécie de drama aguardado com a irregularidade de uma coisa que já não seduzia nem impressionava.
Para mim,uma das vozes mais marcantes dos últimos anos.

O Paciente Inglês





My Darling,...

"... I'm waiting for you — how long is a day in the dark, or a week? (...)

I know you will come and carry me out into the palace of winds. That's all I've wanted — to walk in such a place with you, with friends, on earth without maps."




Friday, 26 August 2016

Há filhos orfãos de pais vivos.

Desistir de desistir. (A todas as mães que não desistem.)

Tenho algumas amigas que são pais e mães de pequenas crianças ou jovens adolescentes. Uma delas, que carrega sobre os ombros o pesadíssimo e solitário mundo do “tudo eu”, pediu-me há uns dias: “Deixo-te o mote: «Há filhos orfãos de pais vivos». Sei que vai sair daí um texto com tudo o que eu gostava de escrever mas que não consigo.”


Eu própria sou mãe de um jovem adulto e uma adolescente (quase, quase jovem adulta), e faço sozinha, desde há vários anos, o que posso e tantas vezes o que não posso para que eles sintam em todos os dias das suas vidas que eu estou cá para eles. Que eu não desisti deles. 
E isso pode ser um paradoxo, porque não desistir deles, levou-me muitas vezes a desistir de mim. 
Quem é que não faz a menor ideia do preço que uma mãe paga para criar os seus filhos sozinha? O pai. O pai que desistiu. O pai que não quis saber. O pai que aproveitou todas as vantagens de não ter que se preocupar com outras vidas dependentes da sua, e recomeça, absolutamente egoísta mas também absolutamente livre. 
Posso contar-vos uma história:

Era uma vez uma jovem mulher que se cansou de viver ao lado de uma pedra. Um dia, depois de muito tempo a tomar copos de vermute na varanda e a ouvir Andréa Boccelli, ganhou coragem para fazer cair o pano da peça de teatro em que era personagem secundária. Caiu o pano. Olhou os adereços. Estavam feios e gastos. Pegou no guião, rasgou-o e reescreveu a sua história. 

Uma mulher, duas crianças, as suas roupas e uma cadela que se chamava Maria,(tinha o pêlo cinzento encaracolado e os olhos mais doces do mundo). 
Trocou o inferno do luxo de uma vivenda construída a gosto por um apartamento exíguo e velho. Levou com ela tudo o que lhe era importante e deixou para ele as coisas que não têm importância nenhuma mas que ainda assim, ele defendeu como uma loba que protege as crias: A casa, os móveis, os electrodomésticos, os cortinados rocócó que ela sempre detestou, o ouro que lhe fora dado pela mãe e que ele achou por bem esconder para que ela não pudesse levá-lo. É quase a cantiga da Ágatha: “Podes ficar com as jóias, o carro e a casa…”Ele ficou. E nem tentou ficar com eles. 

Hoje ela nem conta pelos dedos as vezes que não se reconheceu ao ver o seu reflexo ou quantas vezes chorou a olhar para os miúdos, sentindo que o mundo inteiro, repleto de gente, só os tinha aos três. Ela não conta quantas vezes já se sentou no chão atrás da porta e desistiu…ou numa calçada no meio da rua e desistiu. Ou se deitou na cama, fechou os olhos… e desistiu.
Primeiro vieram os aniversários das crianças e nem uma vez o telefone tocou e a voz do pai do outro lado, disse: “ Parabéns.”. Depois os Natais. Mais uma vez o telefone mudo, a ausência e a falta de um presente. Já lá vai mais de uma dezena de anos. Deixou de doer.
Quem é que não faz a menor ideia do quanto a vida pode ser difícil para uma mulher que desistiu de o ser para nunca desistir de ser mãe? O pai. O pai que nunca desistiu de nada a não ser de ser Pai.

A mãe que um dia decide mudar o cenário e reescrever o seu guião, falha inúmeras vezes. A mãe falha. Várias vezes. E nada ao redor dela muda. Nada. Nem os ventos, nem as marés. O Universo não tem pena dela. Não importa quantas vezes ela implora, ou quantas vezes ela se humilha, ou se sente só. Não recebe nenhum sinal divino. Então, ela cansa-se, inclusive, de desistir. E como quem não se pode dar ao luxo de parar, ela continua. 
Toda a tristeza e dor que carrega no peito é dela e ninguém a sente como ela. 

Há dias em que não acredita em novos amanheceres e contradiz tudo o que já viveu, a malícia do tempo e a veracidade da sua própria memória. Ela, que amou tão poucas vezes, mas que amou muito em todas elas, sabe que o amor não é como os outros sentimentos. O amor tem uma lâmina escondida que a corta e lapida. Dói. Depois dele, nunca mais se é a mesma. Mas a vida não lhe dá escolha: Há que vivê-la. Levantar depois das quedas. Superar. Faz parte. E dá medo. 

Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, sabem que vão para uma guerra e que não haverá armadura ou elmo que as proteja.

Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, são feitas de muito mais coragem que medo. Todas. Qualquer mãe sabe disso. Mesmo que de vez em quando o esqueça.
 Às vezes ela chega ao limite, mas aguenta-se. Estoicamente. Então, ela percebe que pode aguentar um bocadinho mais, e o seu limite vai ficando cada vez maior. 

Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, são heroínas de histórias que devem ser partilhadas. Ensinadas. Valorizadas.
O mundo está cheio de nada para lhes dar e ainda assim, elas nunca desistem. Porque desistir na verdade, não é opção. É apenas um pedido de socorro que só elas ouvem. 
Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, ensinam aos filhos que não há coração de pai que não os aceite. Há é pais sem coração.

(Não sei se escrevi um texto com tudo o que gostavas de escrever, mas foi para ti, para mim, para todas as mães que aqui se revêm e para todos os filhos órfãos de pais vivos, que o escrevi.)

Tuesday, 23 August 2016

Os Intocáveis...(d)a realidade que supera a ficção

( A propósito do caso do rapaz de Ponte de Sôr)

O mais incrível no meio disto tudo, é que para tantas pessoas, desde que um caso envolva muçulmanos, já não se pode comentar desfavoravelmente (para os muçulmanos claro, mesmo que nunca se toque no pormenor religioso), porque fazê-lo é sinal de xenofobia, preconceito e racismo. Ora portanto, se um muçulmano atacar um português/nãomuçulmano, a culpa é certamente do português que o terá ofendido primeiro com declarações xenófobas e racistas e o muçulmano só se defendeu.
Se é o português que ataca o muçulmano, o português deve ser exemplarmente castigado porque atacou um ser indefeso,pertencente a uma minoria e que não tem culpa de ser alvo da xenofobia, racismo e preconceito.
Imagine-se um tipo que é seguidor de Alá e comete uma violação. Se a vítima o quiser denunciar terá que estar preparada para responder a um chorrilho de perguntas. Todas elas iguais (ou parecidas com esta: "Está a denunciar o pobre rapaz porque ele é muçulmano, não é? confesse lá. Admita. Você não está nada preocupada com a violação. O que a chateia realmente é o facto de ele ser muçulmano." Isto repetido à exaustão, dá vontade da vítima, vencida pelo cansaço, acabar por gritar: " Quero que se f** os muçulmanos! "
E pronto. A xenofobia acaba de ser provada. C'um catano! Imagine-se este cenário,se um muçulmano se lembra de matar alguém. Porra...dá para denunciar? Se calhar não dá porque o assassino é muçulmano. Ainda se fosse da Igreja do Sétimo Dia, ou Testemunha de Jeová... Enfim...Azar do caraças!


Ou seja: Não toques nos muçulmanos, por favor! Se alguém te quiser fazer mal, só tens direito à defesa se o teu agressor não for muçulmano. Se for, tem lá paciência. Deixa-o fazer-te o que lhe apetecer e a seguir pede-lhe desculpas.

(isto está a ficar bonito, está!)

Friday, 5 August 2016

Porque hoje fizeste 18 anos...



... e as tuas asas cresceram. Está cada vez mais perto o dia em que deixarás o ninho.

Começo por dizer-te Obrigada.

Obrigada por não seres exactamente como eu te idealizei em sonhos. Fascina-me constatar que és única, diferente e muito, muito melhor que qualquer sonho.
Tenho escrita no meu coração, uma longa lista das coisas que deveria ter feito contigo e para ti, e não fiz. Às vezes pergunto-me se no teu coração haverá alguma pequena lista das coisas que sim, fiz.
As receitas para a felicidade costumam ser muito simples: ri muito (inclusive de ti própria, acima de tudo de ti própria) e ama muito. Ama os teus amigos, o teu trabalho, (faz um trabalho que ames, para que nunca tenhas que trabalhar), ama a natureza que te sustenta e te rodeia, ama a quem te fizer "objecto" do seu amor e partilha a tua vida com quem achares digno dessa partilha. Respeita o teu corpo. O teu corpo é um templo, não um terminal de autocarros. Num templo entra quem vem para adoração. Ao terminal, vai apenas quem está de passagem. 
Desejo que encontres o amor firme, profundo e quotidiano de um homem íntegro e que o vivas para o resto da vida. Mas também desejo que nem que seja por uma só vez, experimentes a loucura, a paixão total e esmagadora, que a vivas plenamente e a deixes ir depois.
Quando quiseres correr atrás do arco-íris, fá-lo. Mas aproveita cada troço do caminho que te leva até lá.
Lembra-te que a mais audaz, a mais altruísta das intenções não vale a mais pequenina das acções. Por isso, mesmo que não consigas fazer o melhor, faz alguma coisa.
Nada me ensinou tanto como ensinar-te a ti. A meio de um qualquer sermão que te pregava, vi com clareza as minhas próprias falhas e tentei dar uma reviravolta à minha vida. 
E por isso, pelo amor, pelos nossos 6.570 dias, Obrigada!


Sunday, 31 July 2016

Os maus lençóis do Quintino



Será normal tanta censura num mundo que brada pela liberdade de expressão?

Não é surpreendente, uma vez que estamos na moda do multiculturalismo e qualquer voz que se levante contra é imediatamente criticada. Para além do mais, o pobre foi logo falar nos ciganos, e como sabemos, esta etnia passou a ter uma elevada "cotação de mercado", depois do Europeu. Acho que não passou despercebido a ninguém, que até mesmo quem, com frequência, reclamava porque os ciganos isto e os ciganos aquilo, de repente desfralda a bandeira do " Se é cigano é 5 estrelas! Ponham os olhos no Quaresma!" E de repente,parece que há 10 milhões de portugueses a quererem ser ciganos. 
Como se vê, nós somos facilmente levados pelo vento, e hoje pensamos frito, amanhã defendemos cozido. Na verdade, o problema maior é a falta de opinião própria. 
Relativamente ao comentário do psicólogo Quintino, acho que ele generalizou. Mas não é sempre pela regra da maioria que se formam opiniões? 
Há excepções louváveis entre a etnia cigana, de gente que trabalha honestamente, paga os seus impostos, se enquadra na sociedade, respeita as regras da sociedade. Há. Tal como há excepções de animais altamente bem treinados que vão buscar o jornal aos donos, ajudam na limpeza da casa e são excelentes babysitter. Mas não são a regra. São excepções. Existem mentes brilhantes por esse mundo fora, que se distinguem das restantes e desenvolvem carreiras notáveis, na arte, na ciência, por aí fora...Mas são excepções. Não são a regra.Por muito que nos custe, não somos todos mentes brilhantes,só porque alguns o conseguem ser.
Portanto, existem sim, pessoas de etnia cigana,muitíssimo respeitáveis e bem menos "ciganos" que os que não o são etnicamente. Mas são excepções! Não são a regra! 
A própria palavra "Cigano" tem um sentido pejorativo e no nosso inconsciente, ainda está inculcada a ideia de que cigano é sinónimo de desonesto, andarilho, marginal, desordeiro, etc. 
Não me parece que os ciganos carreguem realmente este enorme fardo de desajustes sociais, mas não se pode pôr lentes cor-de rosa e de repente dizer que não há desajuste. Porque há! 
Como tal, acredito que no momento actual, se queremos levar esta coisa da igualdade e multiculturalidade para o nível seguinte e com o rigor que ela merece, não podemos arranjar bodes expiatórios, não podemos tapar o sol com a peneira e de repente fingir que não há diferenças nenhumas e que nos adaptamos todos muito bem uns aos outros. Não se pode, só porque incomoda, atacar quem põe o dedo na ferida e diz claramente que há um proteccionismo desmedido a pessoas de etnia cigana e que do mesmo proteccionismo não gozam os restantes. Se agimos assim, cheira-me a sentimento de culpa, devido a séculos de marginalização e desprezo por pessoas de etnias/raças diferentes. Mas não se tira por decreto, dos nossos genes, a lei natural e ancestral que nos conduziu até aqui e que caso nos tenhamos esquecido é: A lei da sobrevivência. A lei do mais forte: Adaptação. O programa que temos incutido no nosso ADN responde a essa necessidade. Se queremos mudar isso e alinhar a nossa consciência com o conceito de unidade e coesão,que o façamos com honestidade e não com servilismo de modas. Estamos a falar de mudanças radicais nas estruturas das sociedades e há que estar preparado para elas. Não se pode, imbuídos pelo espírito da fraternidade universal, dizer que vamos todos dar as mãos, sem antes criar condições para isso. Primeiro, é preciso que entre nós e os outros se derrubem os muros e baixem as armas com que competimos uns com os outros diariamente. E esta é a grande dificuldade e é também por isto que estamos a viver tempos muito confusos e violentos. É que nós temos já um pé no mundo novo que desejamos construir. Mas o resto do nosso corpo, a nossa mente, ainda está a viver no velho programa do "Olho por olho e dente por dente". Competição,combate, conquista. Ainda vai levar muito tempo para que possamos finalmente, olhar para os outros e não vermos neles uma ameaça, mas vai levar mais tempo ainda para chegarmos ao dia em que deixaremos efectivamente de ser uns para os outros, uma ameaça. E enquanto o formos, não vejo nenhum mal dizê-lo.

Friday, 15 July 2016

Os (des)unidos contra o Terrorismo


Acabámos de festejar um campeonato europeu que nos trouxe a doce conquista da vitória. No relvado, os portugueses humilharam a França, um país de gente orgulhosa e arrogante. Mas há vida fora dos relvados e é com ela que temos que nos preocupar. Hoje já não se brinca com a derrota francesa. Seria no mínimo de mau gosto continuarmos a lançar a nossa felicidade sobre um povo que sofreu uma vez mais os efeitos do ódio Islâmico. Mohamed Lahouaiej Bouhlel, um franco-tunisino de 31 anos, conduziu um camião de tir e acelerou sobre a multidão que festejava a tomada da Bastilha em Nice. Mais uma vez, a França sofreu um duro golpe e a Europa Inteira é Nice, como já foi Paris, como já Charlie. 
Curiosamente, nunca somos Paquistão, Iraque, Afeganistão, Síria e por aí vamos. Mas não se admirem, porque na verdade, não somos mais do que cada um por si quando a violência nos escolhe. 
O que acontece aos outros é só mais uma desgraça que vitimou mais não sei quantos humanos sem rosto e sem nome. Os atentados, por serem cada vez mais comuns, vão esfriando as nossas emoções, e chegará o dia em que nem sequer nos indignaremos. Será apenas mais um. Esta é a estrada. É nesta estrada da indiferença que caminhamos. Sabemos que estamos nela, quando, quem morre no Médio-Oriente não nos tira o apetite, não nos faz escrever um texto, não nos inibe a alegria da festa.
A verdade é que há humanos mais humanos que outros. Os americanos mais humanos que os europeus, os europeus são mais humanos que os árabes ou os africanos e dentro da Europa, os alemães e os franceses são os mais humanos de todos. Os ingleses que recearam deixar de estar no pódio do humanismo, optaram pelo brexit para continuarem a ser humanos. Na cauda estamos nós. Estão os gregos, os espanhóis, os italianos e os irlandeses. É um facto. 
Mas voltemos a Mohamed Lahouaiej Bouhlel. Sabe-se para já, que não são conhecidas ligações deste homem ao radicalismo islâmico. É de supor portanto, que ele talvez tenha agido por conta própria. Ou não. Se foi pago para fazer o que fez é importante saber quem lhe pagou. Mas receio que fiquemos pela religião que professa como motivo impulsionador do crime que cometeu ontem. Mohamed era muçulmano. É o quanto basta. Já houve tempos em que se dava caça às bruxas. Hoje, dar caça aos muçulmanos parece-nos ser o único garante de estabilidade e segurança. Talvez, antes de pensar em Mohamed enquanto muçulmano, se deva pensar nele enquanto mercenário pago para desviar as atenções do mundo sobre uma derrota humilhante; ou um individuo revoltado com a vida no gueto; o estigma do islamismo a pesar-lhe sobre a cabeça; o desemprego a atirá-lo para a fome; um tipo pobre em valores morais; um sociopata/psicopata descontrolado… As hipóteses são várias. Independentemente de qual tenha sido o motivo, as regras deste novo jogo impõem que se pare de brincar com o fogo. Que se pare de financiar grupos rebeldes, que se pare de invadir países para lhes extrair recursos, que se pare de depor os seus governos, que se pare de aceitar migrantes nos nossos territórios sem as devidas cautelas. Alto! Fechar fronteiras? Não! Para quê? Para que não se formem guetos, para que não haja lugar a revoltosos, gente que morde a mão de quem a estende. Ninguém deixa o seu país, a sua terra, a sua gente porque quer. Quem o faz é empurrado pelas circunstâncias da má sorte no seu país de origem. Quando a má sorte é provocada pelos anfitriões…o que se pode esperar daí?
Os tementes das ditaduras, deviam saber que não será o fecho das fronteiras a empurrar-nos para uma. Também eu temo as ditaduras e estou convicta disso. São as fronteiras abertas, que dão medo aos povos, que causam insegurança e que fazem crescer as extremas-direitas e esquerdas favoráveis aos regimes autoritários. Os (des)unidos contra o terrorismo deviam saber que a indústria bélica que lhes dá tanto a ganhar lhes dá ainda mais a perder. Um dia, o petróleo e o gás acabarão, mas até lá, milhões terão ficado expatriados, milhões ter-se-ão infiltrado entre nós, milhões ter-nos-ão odiado e milhões terão morrido. Compensa? Não me parece. Mas isso, sou eu, que não percebo nada de política e menos ainda de relações internacionais.

Ana Cristina Pinto


Saturday, 25 June 2016

Há mais de 700 milhões de europeus. 10 milhões são portugueses e isso nota-se…(cada vez menos).


Sou eurocéptica desde sempre. Acredito na velha máxima de cada macaco no seu galho e gosto muito da ideia de cooperação, mas misturas, só na culinária.

Isto para dizer que ao contrário de um longo texto que li a criticar fortemente a escolha dos britânicos no Brexit, teria optado igualmente pelo “out” se fosse britânica. Votarei num estrondoso “fora”, se algum dia me for dada a possibilidade de o fazer pelo meu país.

A ideia que se semeou ao longo das últimas décadas de que o orgulho nacional é igual a racismo e xenofobia é descaradamente estúpida (digo eu). Aquilo que nos dá “chão” enquanto indivíduos é a nossa identidade e não é com orgias culturais que conseguimos mantê-la. Gosto sobretudo de saber quais são as minhas raízes e temo que a globalização e a multiculturalidade tão desejadas nestes tempos conturbados não nos permita a médio/longo prazo, identificá-las. Não tem nada de mal reconhecermos os espanhóis pelas Paellas ou o seu fabuloso Polvo à Galega, as sevilhanas ou as largadas de toiros. Da mesma maneira, gosto de saber que a melhor cerveja do mundo ainda é a alemã, o fado será eternamente português e que nenhuma outra cozinha no planeta terá as mil e uma maneiras de cozinhar o bacalhau. São precisamente as diferenças que nos separam, que nos deviam unir, mas em vez disso, queremos acabar com as diferenças para “teoricamente” nos tornarmos todos iguais. A ideia mais tola de sempre é precisamente esse canto das sereias chamado “Igualdade”. Não serve senão para enganar os mais incautos. Na hora da verdade, as diferenças estarão sempre lá, e serão apontadas da forma mais pejorativa de que formos capazes, porque ninguém vê com bons olhos a incapacidade de adaptação do outro, ou a inflexibilidade para o molde. Então, porque não construir sociedades mais justas com base nas diferenças? 

Se costumamos dizer que cada um é como é na pequena escala do individualismo, porque é que nos custa tanto assumir que colectivamente cada também é como é? 

Dizer que a economia dos países mudou e que a mudança justifica o maralhal de culturas e a perda de soberania dos povos só convence quem se rendeu ao capitalismo tirano dos países “fortes” da Europa. Nem percebo porque raio se defende tanto uma economia comum, se para a colocar em prática é preciso arruinar a autonomia dos povos que têm (tinham) os seus próprios meios para prosperar. Veja-se Portugal: Agricultura, pescas, industria. Digam o que disserem, não somos um país de coitadinhos e recursos não nos faltam. O que nos falta é gente decente e capaz de governar com verdadeiro sentido de Estado.

O Reino Unido, sempre desconfiado do bloco económico europeu, ficou sempre com um pé de fora e ainda assim conseguiu manter uma libra forte. O Reino Unido, habituado à sua soberania e orgulhoso dela, não esteve para se vergar ao autoritarismo alemão. Ninguém o devia levar a mal por isso. Antes pelo contrário, seguir-lhe o exemplo, (que ideia tão estúpida!- Dirão alguns) seria o nosso recomeçar tão necessário para que Portugal não se acabe e seja no tempo dos nossos netos, um país capaz de abraçar outras culturas com respeito por elas e pela sua própria. No tempo dos nossos netos, já que não conseguimos fazê-lo no nosso, tempo dos seus hereges (disse bem, hereges) avós.

Monday, 18 April 2016

Os restos do mundo

É preciso alguém que nos acompanhe para que não fiquemos sozinhos com o resto do mundo. Porque é no que o mundo se tornou: Restos.
Restos de paz, restos de amor, restos de sonhos e de bondade. É por isso que já ninguém quer este mundo. Ninguém gosta de restos. Secretamente sonhamos com os apocalipses. Os bíblicos e os cinematográficos. O Day After que há-de vir carregado de novas possibilidades. Um Armagedom promissor, um desvio de rota que nos leve a bater de frente com um pedregulho espacial ou que nos conduza à entrada abrupta num buraco negro, de minhoca talvez, uma dobra no universo que nos catapulte para os novos amanhãs tão diferentes de hoje. Secretamente desejamos o fim. Invejamos o jurássico e as eras glaciares. A hecatombe há-de salvar-nos de nós mesmos, qual arca a proteger-nos do dilúvio. A morte há-de salvar-nos da vida.Secretamente desejamos o fim. É a possibilidade do Fim que nos fascina nas profecias. Incumpridas. Em vez do alívio trazem-nos a frustração do erro. Escarnecemos do Nostradamus porque não soube fazer as contas e ridicularizamos os Maias porque ignoraram a vida para além de 2012. O fim é o nosso ponteiro predilecto no Doomsday Clock e o hieróglifo incógnito nas paredes de Gizé. Ninguém o diz em voz alta para que outros não pensem que nos tornámos suicidas. Mas tornámos. Continuamos a trabalhar, a comer, a fornicar e a procriar para nos mantermos ocupados e não explodirmos de impaciência por vermos o fim ainda tão longe. Nos intervalos compramos o bilhete para a melhor fila do cinema e comemos pipocas com o ruído do entusiasmo a trespassar-nos os tímpanos para calarmos o horror que sai da tela. É o fim. É a nossa guerra dos mundos, dos nossos mundos interiores que nos faz agradecer a Cameron pela vinda do exterminador. E é também a guerra dos nossos mundos interiores que nos obriga a recear a madrugada dos mortos. O nosso instinto de sobrevivência acaba sempre por falar mais alto que a morbidez impetuosa que nos corre nas veias. A morte salva-nos da vida. Cormac McCarthy tem razão. Estamos na estrada. A nossa existência é uma estrada. Onde ela nos levará depende muito de quem somos. De que matéria somos feitos. Se na estrada, a objectiva que nos retracta captar ainda um resto de felicidade tola, somos a esperança. Se esse resto não nos bastar, somos renúncia. Haja por isso quem nos acompanhe para não ficarmos a sós com o resto do mundo. O resto do mundo é um abismo. É preciso alguém que nos agarre para não cairmos no abismo.


Saturday, 16 April 2016

De livro em livro

Sempre dei livros aos meus filhos. Cedo, muito cedo, vários volumes de livros infantis, contos, Os Irmãos Grimm, Christian Andersen, Disney… Depois os juvenis; a História de Portugal; ciência, Civilizações Antigas; As Grandes Construções do Homem; mistérios e lendas; muita banda desenhada, Tintin, Asterix, Corto Maltese (o Rafael ficou fã), o maravilhoso conto de Marguerite Yourcenar : A Fuga de Wong-Fô, (ainda hoje choro quando o leio). Enfim, paredes e mais paredes forradas de livros e hoje posso dizer que só não os tenho na casa de banho. Por gosto e necessidade lá fomos coleccionando histórias de todos os tamanhos e para todos os gostos. Por necessidade, confesso: Eça, Camões, Camilo. Por gosto, Pessoa, Virgílio, Saramago, Lobo Antunes, Natália Correia, Florbela Espanca. Saltamos de livro em livro, de história em história como quem salta pocinhas e procura mergulhar nas profundezas do saber. Cá em casa lê-se de tudo e cresce-se com o que se lê. Aprendemos, sonhamos, emocionamo-nos, choramos e rimos.
Há 10 anos, o meu filho tinha apenas 11 e já sabia que nem toda a gente tem a sorte de acordar com o chilrear dos passarinhos ou com as buzinadelas dos carros que descem a avenida e se dirigem ao centro da cidade. Aos 11 anos ele já sabia que existem mulheres escondidas nas burkas, escondidas nas esquinas cinzeladas, por baixo dos néons em pedaços, mulheres que acordam todos os dias com o barulho ensurdecedor de bombas a rasgar o céu, o estrondo aterrorizador de edifícios que em menos de nada se transformam em escombros, rajadas de metralhadoras a substituir o bulício das ruas, gritos desesperados de pais que seguram os filhos mortos nos braços. Aos 11 anos o meu menino já sabia que nem todas as mulheres, nem todos os homens, nem todas as crianças deste mundo dormem à noite, imitando-o na sua cama quente e confortável. Ensinei-lhe que para muitos, as noites dão mais medo que sono, e que o medo nos pode transformar em zombies tacteando no escuro um remédio que nos cure as dores do corpo e da alma. Ensinei-lhe que enquanto dormimos, comemos, passeamos e amamos, há pessoas no mundo que caminham pelo deserto em que se transformaram cidades inteiras e não têm tempo para dormir, o que comer ou quem amar e que nas noites em que são zombies contemplam retalhos de rios onde corre mais sangue que água. Aos 11 anos o meu pequeno filho já sabia que havia uma África e um Médio Oriente dilacerados pelas guerras que aparecem nos intervalos dos mercados, “lembra-te filho, as guerras aparecem sempre nos intervalos dos mercados, nos intervalos das compras e das vendas, nos intervalos da acumulação de coisas que não valem as vidas que se acabam. Lembra-te: No Médio Oriente um bom ditador é o garante da estabilidade. “Sem um bom ditador, todo o Médio Oriente é um matadouro, filho. Religião, petróleo, armas, todos os pretextos são bons para fazer jorrar sangue”. Às vezes, onde há muitos sádicos é preciso haver um sádico ainda maior que encerre os outros em arame farpado.
Defendo-o ainda hoje: Sadam era o macho Alpha de uma matilha perigosa e sanguinária. E sobre isto, sobre tudo isto se pode aprender nos livros, e que felizes, afortunados que nós somos por não ser a vida a ensinar-nos. “Os vendilhões nunca se foram embora do templo, filho. Repara como apenas nisto concordaram Alá, Jeová e Cristo: Crescei e multiplicai-vos.” Para grande azar dos cristãos e até mesmo dos judeus, os muçulmanos são os únicos que seguem a advertência divina à risca. Há 10 anos, quando os meus filhos me perguntavam para onde iam as pessoas mortas, eu podia dizer-lhes que elas iam para dentro da estória de Wong Fô e que uma vez aconchegadinhas nas páginas, podiam finalmente dormir no interior de uma das suas telas. Porque nas telas de Wong Fô a beleza é tão intensa, que nada no mundo se lhes compara e só uma beleza assim é capaz de compensar uma vida inteira de sofrimento e de noites sem dormir. Podia, mas preferi sempre confrontá-los com a verdade. Os livros, por mais mágicos que sejam, revelam apenas a grande vontade do autor em embelezar este mundo. Não que o mundo não seja belo o quanto baste. Nós é que se calhar precisamos de extrair da leitura uma nova forma de o olharmos.