Vinte e dois anos de somas: + amor+orgulho+esperança+companhia+sorrisos+ vida. Não te amo daqui até à lua, porque seria tão pouco. Amo-te daqui até não sei onde, porque o onde que não sabemos onde fica encontra-se por caminhos que não têm fim. Parabéns a nós que somos a extensão um do outro. Eu, a tua extensão para o passado. Tu, a minha extensão para o futuro.
Wednesday, 31 August 2016
Ao meu menino d'oiro
Vinte e dois anos a ser tua mãe.
Saturday, 27 August 2016
Soul até à Alma
Amy Winehouse foi uma figura de tragédia. Ela encarnou a figura do talento prodigioso que raramente aproveita as oportunidades que tem para ser o que merece: uma estrela amada. Amada pela sua voz, amada pelo seu timbre verdadeiramente ‘soul’, até amada pelos seus desastres.
Houve talentos desses consumidos pelas drogas e pelo álcool, destruídos pela fama e pela má-sorte. Mas Amy Winehouse foi uma espécie de Sísifo que não consegue transportar até ao cume da montanha o peso extraordinário da sua vida.
Caíu demasiadas vezes devorada pelos seus fantasmas ou pelo álcool, o que começou a ser um excesso, até mesmo para os seus fãs mais adolescentes, como uma repetição da desgraça, uma espécie de drama aguardado com a irregularidade de uma coisa que já não seduzia nem impressionava.
Para mim,uma das vozes mais marcantes dos últimos anos.
O Paciente Inglês

My Darling,...
"... I'm waiting for you — how long is a day in the dark, or a week? (...)
I know you will come and carry me out into the palace of winds. That's all I've wanted — to walk in such a place with you, with friends, on earth without maps."
Friday, 26 August 2016
Há filhos orfãos de pais vivos.
Desistir de desistir. (A todas as mães que não desistem.)
Tenho algumas amigas que são pais e mães de pequenas crianças ou jovens adolescentes. Uma delas, que carrega sobre os ombros o pesadíssimo e solitário mundo do “tudo eu”, pediu-me há uns dias: “Deixo-te o mote: «Há filhos orfãos de pais vivos». Sei que vai sair daí um texto com tudo o que eu gostava de escrever mas que não consigo.”
Tenho algumas amigas que são pais e mães de pequenas crianças ou jovens adolescentes. Uma delas, que carrega sobre os ombros o pesadíssimo e solitário mundo do “tudo eu”, pediu-me há uns dias: “Deixo-te o mote: «Há filhos orfãos de pais vivos». Sei que vai sair daí um texto com tudo o que eu gostava de escrever mas que não consigo.”
Eu própria sou mãe de um jovem adulto e uma adolescente (quase, quase jovem adulta), e faço sozinha, desde há vários anos, o que posso e tantas vezes o que não posso para que eles sintam em todos os dias das suas vidas que eu estou cá para eles. Que eu não desisti deles.
E isso pode ser um paradoxo, porque não desistir deles, levou-me muitas vezes a desistir de mim.
Quem é que não faz a menor ideia do preço que uma mãe paga para criar os seus filhos sozinha? O pai. O pai que desistiu. O pai que não quis saber. O pai que aproveitou todas as vantagens de não ter que se preocupar com outras vidas dependentes da sua, e recomeça, absolutamente egoísta mas também absolutamente livre.
Posso contar-vos uma história:
Era uma vez uma jovem mulher que se cansou de viver ao lado de uma pedra. Um dia, depois de muito tempo a tomar copos de vermute na varanda e a ouvir Andréa Boccelli, ganhou coragem para fazer cair o pano da peça de teatro em que era personagem secundária. Caiu o pano. Olhou os adereços. Estavam feios e gastos. Pegou no guião, rasgou-o e reescreveu a sua história.
Uma mulher, duas crianças, as suas roupas e uma cadela que se chamava Maria,(tinha o pêlo cinzento encaracolado e os olhos mais doces do mundo).
Trocou o inferno do luxo de uma vivenda construída a gosto por um apartamento exíguo e velho. Levou com ela tudo o que lhe era importante e deixou para ele as coisas que não têm importância nenhuma mas que ainda assim, ele defendeu como uma loba que protege as crias: A casa, os móveis, os electrodomésticos, os cortinados rocócó que ela sempre detestou, o ouro que lhe fora dado pela mãe e que ele achou por bem esconder para que ela não pudesse levá-lo. É quase a cantiga da Ágatha: “Podes ficar com as jóias, o carro e a casa…”Ele ficou. E nem tentou ficar com eles.
Hoje ela nem conta pelos dedos as vezes que não se reconheceu ao ver o seu reflexo ou quantas vezes chorou a olhar para os miúdos, sentindo que o mundo inteiro, repleto de gente, só os tinha aos três. Ela não conta quantas vezes já se sentou no chão atrás da porta e desistiu…ou numa calçada no meio da rua e desistiu. Ou se deitou na cama, fechou os olhos… e desistiu.
Primeiro vieram os aniversários das crianças e nem uma vez o telefone tocou e a voz do pai do outro lado, disse: “ Parabéns.”. Depois os Natais. Mais uma vez o telefone mudo, a ausência e a falta de um presente. Já lá vai mais de uma dezena de anos. Deixou de doer.
Quem é que não faz a menor ideia do quanto a vida pode ser difícil para uma mulher que desistiu de o ser para nunca desistir de ser mãe? O pai. O pai que nunca desistiu de nada a não ser de ser Pai.
A mãe que um dia decide mudar o cenário e reescrever o seu guião, falha inúmeras vezes. A mãe falha. Várias vezes. E nada ao redor dela muda. Nada. Nem os ventos, nem as marés. O Universo não tem pena dela. Não importa quantas vezes ela implora, ou quantas vezes ela se humilha, ou se sente só. Não recebe nenhum sinal divino. Então, ela cansa-se, inclusive, de desistir. E como quem não se pode dar ao luxo de parar, ela continua.
Toda a tristeza e dor que carrega no peito é dela e ninguém a sente como ela.
Há dias em que não acredita em novos amanheceres e contradiz tudo o que já viveu, a malícia do tempo e a veracidade da sua própria memória. Ela, que amou tão poucas vezes, mas que amou muito em todas elas, sabe que o amor não é como os outros sentimentos. O amor tem uma lâmina escondida que a corta e lapida. Dói. Depois dele, nunca mais se é a mesma. Mas a vida não lhe dá escolha: Há que vivê-la. Levantar depois das quedas. Superar. Faz parte. E dá medo.
Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, sabem que vão para uma guerra e que não haverá armadura ou elmo que as proteja.
Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, são feitas de muito mais coragem que medo. Todas. Qualquer mãe sabe disso. Mesmo que de vez em quando o esqueça.
Às vezes ela chega ao limite, mas aguenta-se. Estoicamente. Então, ela percebe que pode aguentar um bocadinho mais, e o seu limite vai ficando cada vez maior.
Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, são heroínas de histórias que devem ser partilhadas. Ensinadas. Valorizadas.
O mundo está cheio de nada para lhes dar e ainda assim, elas nunca desistem. Porque desistir na verdade, não é opção. É apenas um pedido de socorro que só elas ouvem.
Todas as mães que levam pela mão os filhos que os pais não quiseram, ensinam aos filhos que não há coração de pai que não os aceite. Há é pais sem coração.
Tuesday, 23 August 2016
Os Intocáveis...(d)a realidade que supera a ficção
( A propósito do caso do rapaz de Ponte de Sôr)
O mais incrível no meio disto tudo, é que para tantas pessoas, desde que um caso envolva muçulmanos, já não se pode comentar desfavoravelmente (para os muçulmanos claro, mesmo que nunca se toque no pormenor religioso), porque fazê-lo é sinal de xenofobia, preconceito e racismo. Ora portanto, se um muçulmano atacar um português/nãomuçulmano, a culpa é certamente do português que o terá ofendido primeiro com declarações xenófobas e racistas e o muçulmano só se defendeu.
Se é o português que ataca o muçulmano, o português deve ser exemplarmente castigado porque atacou um ser indefeso,pertencente a uma minoria e que não tem culpa de ser alvo da xenofobia, racismo e preconceito.
Imagine-se um tipo que é seguidor de Alá e comete uma violação. Se a vítima o quiser denunciar terá que estar preparada para responder a um chorrilho de perguntas. Todas elas iguais (ou parecidas com esta: "Está a denunciar o pobre rapaz porque ele é muçulmano, não é? confesse lá. Admita. Você não está nada preocupada com a violação. O que a chateia realmente é o facto de ele ser muçulmano." Isto repetido à exaustão, dá vontade da vítima, vencida pelo cansaço, acabar por gritar: " Quero que se f** os muçulmanos! "
E pronto. A xenofobia acaba de ser provada. C'um catano! Imagine-se este cenário,se um muçulmano se lembra de matar alguém. Porra...dá para denunciar? Se calhar não dá porque o assassino é muçulmano. Ainda se fosse da Igreja do Sétimo Dia, ou Testemunha de Jeová... Enfim...Azar do caraças!
Ou seja: Não toques nos muçulmanos, por favor! Se alguém te quiser fazer mal, só tens direito à defesa se o teu agressor não for muçulmano. Se for, tem lá paciência. Deixa-o fazer-te o que lhe apetecer e a seguir pede-lhe desculpas.
(isto está a ficar bonito, está!)
Friday, 5 August 2016
Porque hoje fizeste 18 anos...
Começo por dizer-te Obrigada.
Obrigada por não seres exactamente como eu te idealizei em sonhos. Fascina-me constatar que és única, diferente e muito, muito melhor que qualquer sonho.
Tenho escrita no meu coração, uma longa lista das coisas que deveria ter feito contigo e para ti, e não fiz. Às vezes pergunto-me se no teu coração haverá alguma pequena lista das coisas que sim, fiz.
As receitas para a felicidade costumam ser muito simples: ri muito (inclusive de ti própria, acima de tudo de ti própria) e ama muito. Ama os teus amigos, o teu trabalho, (faz um trabalho que ames, para que nunca tenhas que trabalhar), ama a natureza que te sustenta e te rodeia, ama a quem te fizer "objecto" do seu amor e partilha a tua vida com quem achares digno dessa partilha. Respeita o teu corpo. O teu corpo é um templo, não um terminal de autocarros. Num templo entra quem vem para adoração. Ao terminal, vai apenas quem está de passagem.
Desejo que encontres o amor firme, profundo e quotidiano de um homem íntegro e que o vivas para o resto da vida. Mas também desejo que nem que seja por uma só vez, experimentes a loucura, a paixão total e esmagadora, que a vivas plenamente e a deixes ir depois.
Quando quiseres correr atrás do arco-íris, fá-lo. Mas aproveita cada troço do caminho que te leva até lá.
Lembra-te que a mais audaz, a mais altruísta das intenções não vale a mais pequenina das acções. Por isso, mesmo que não consigas fazer o melhor, faz alguma coisa.
Nada me ensinou tanto como ensinar-te a ti. A meio de um qualquer sermão que te pregava, vi com clareza as minhas próprias falhas e tentei dar uma reviravolta à minha vida.
E por isso, pelo amor, pelos nossos 6.570 dias, Obrigada!
Sunday, 31 July 2016
Os maus lençóis do Quintino
Será normal tanta censura num mundo que brada pela liberdade de expressão?
Não é surpreendente, uma vez que estamos na moda do multiculturalismo e qualquer voz que se levante contra é imediatamente criticada. Para além do mais, o pobre foi logo falar nos ciganos, e como sabemos, esta etnia passou a ter uma elevada "cotação de mercado", depois do Europeu. Acho que não passou despercebido a ninguém, que até mesmo quem, com frequência, reclamava porque os ciganos isto e os ciganos aquilo, de repente desfralda a bandeira do " Se é cigano é 5 estrelas! Ponham os olhos no Quaresma!" E de repente,parece que há 10 milhões de portugueses a quererem ser ciganos.
Como se vê, nós somos facilmente levados pelo vento, e hoje pensamos frito, amanhã defendemos cozido. Na verdade, o problema maior é a falta de opinião própria.
Relativamente ao comentário do psicólogo Quintino, acho que ele generalizou. Mas não é sempre pela regra da maioria que se formam opiniões?
Há excepções louváveis entre a etnia cigana, de gente que trabalha honestamente, paga os seus impostos, se enquadra na sociedade, respeita as regras da sociedade. Há. Tal como há excepções de animais altamente bem treinados que vão buscar o jornal aos donos, ajudam na limpeza da casa e são excelentes babysitter. Mas não são a regra. São excepções. Existem mentes brilhantes por esse mundo fora, que se distinguem das restantes e desenvolvem carreiras notáveis, na arte, na ciência, por aí fora...Mas são excepções. Não são a regra.Por muito que nos custe, não somos todos mentes brilhantes,só porque alguns o conseguem ser.
Portanto, existem sim, pessoas de etnia cigana,muitíssimo respeitáveis e bem menos "ciganos" que os que não o são etnicamente. Mas são excepções! Não são a regra!
A própria palavra "Cigano" tem um sentido pejorativo e no nosso inconsciente, ainda está inculcada a ideia de que cigano é sinónimo de desonesto, andarilho, marginal, desordeiro, etc.
Não me parece que os ciganos carreguem realmente este enorme fardo de desajustes sociais, mas não se pode pôr lentes cor-de rosa e de repente dizer que não há desajuste. Porque há!
Como tal, acredito que no momento actual, se queremos levar esta coisa da igualdade e multiculturalidade para o nível seguinte e com o rigor que ela merece, não podemos arranjar bodes expiatórios, não podemos tapar o sol com a peneira e de repente fingir que não há diferenças nenhumas e que nos adaptamos todos muito bem uns aos outros. Não se pode, só porque incomoda, atacar quem põe o dedo na ferida e diz claramente que há um proteccionismo desmedido a pessoas de etnia cigana e que do mesmo proteccionismo não gozam os restantes. Se agimos assim, cheira-me a sentimento de culpa, devido a séculos de marginalização e desprezo por pessoas de etnias/raças diferentes. Mas não se tira por decreto, dos nossos genes, a lei natural e ancestral que nos conduziu até aqui e que caso nos tenhamos esquecido é: A lei da sobrevivência. A lei do mais forte: Adaptação. O programa que temos incutido no nosso ADN responde a essa necessidade. Se queremos mudar isso e alinhar a nossa consciência com o conceito de unidade e coesão,que o façamos com honestidade e não com servilismo de modas. Estamos a falar de mudanças radicais nas estruturas das sociedades e há que estar preparado para elas. Não se pode, imbuídos pelo espírito da fraternidade universal, dizer que vamos todos dar as mãos, sem antes criar condições para isso. Primeiro, é preciso que entre nós e os outros se derrubem os muros e baixem as armas com que competimos uns com os outros diariamente. E esta é a grande dificuldade e é também por isto que estamos a viver tempos muito confusos e violentos. É que nós temos já um pé no mundo novo que desejamos construir. Mas o resto do nosso corpo, a nossa mente, ainda está a viver no velho programa do "Olho por olho e dente por dente". Competição,combate, conquista. Ainda vai levar muito tempo para que possamos finalmente, olhar para os outros e não vermos neles uma ameaça, mas vai levar mais tempo ainda para chegarmos ao dia em que deixaremos efectivamente de ser uns para os outros, uma ameaça. E enquanto o formos, não vejo nenhum mal dizê-lo.
Friday, 15 July 2016
Os (des)unidos contra o Terrorismo
Acabámos de festejar um campeonato europeu que nos trouxe a doce conquista da vitória. No relvado, os portugueses humilharam a França, um país de gente orgulhosa e arrogante. Mas há vida fora dos relvados e é com ela que temos que nos preocupar. Hoje já não se brinca com a derrota francesa. Seria no mínimo de mau gosto continuarmos a lançar a nossa felicidade sobre um povo que sofreu uma vez mais os efeitos do ódio Islâmico. Mohamed Lahouaiej Bouhlel, um franco-tunisino de 31 anos, conduziu um camião de tir e acelerou sobre a multidão que festejava a tomada da Bastilha em Nice. Mais uma vez, a França sofreu um duro golpe e a Europa Inteira é Nice, como já foi Paris, como já Charlie.
Curiosamente, nunca somos Paquistão, Iraque, Afeganistão, Síria e por aí vamos. Mas não se admirem, porque na verdade, não somos mais do que cada um por si quando a violência nos escolhe.
O que acontece aos outros é só mais uma desgraça que vitimou mais não sei quantos humanos sem rosto e sem nome. Os atentados, por serem cada vez mais comuns, vão esfriando as nossas emoções, e chegará o dia em que nem sequer nos indignaremos. Será apenas mais um. Esta é a estrada. É nesta estrada da indiferença que caminhamos. Sabemos que estamos nela, quando, quem morre no Médio-Oriente não nos tira o apetite, não nos faz escrever um texto, não nos inibe a alegria da festa.
A verdade é que há humanos mais humanos que outros. Os americanos mais humanos que os europeus, os europeus são mais humanos que os árabes ou os africanos e dentro da Europa, os alemães e os franceses são os mais humanos de todos. Os ingleses que recearam deixar de estar no pódio do humanismo, optaram pelo brexit para continuarem a ser humanos. Na cauda estamos nós. Estão os gregos, os espanhóis, os italianos e os irlandeses. É um facto.
Mas voltemos a Mohamed Lahouaiej Bouhlel. Sabe-se para já, que não são conhecidas ligações deste homem ao radicalismo islâmico. É de supor portanto, que ele talvez tenha agido por conta própria. Ou não. Se foi pago para fazer o que fez é importante saber quem lhe pagou. Mas receio que fiquemos pela religião que professa como motivo impulsionador do crime que cometeu ontem. Mohamed era muçulmano. É o quanto basta. Já houve tempos em que se dava caça às bruxas. Hoje, dar caça aos muçulmanos parece-nos ser o único garante de estabilidade e segurança. Talvez, antes de pensar em Mohamed enquanto muçulmano, se deva pensar nele enquanto mercenário pago para desviar as atenções do mundo sobre uma derrota humilhante; ou um individuo revoltado com a vida no gueto; o estigma do islamismo a pesar-lhe sobre a cabeça; o desemprego a atirá-lo para a fome; um tipo pobre em valores morais; um sociopata/psicopata descontrolado… As hipóteses são várias. Independentemente de qual tenha sido o motivo, as regras deste novo jogo impõem que se pare de brincar com o fogo. Que se pare de financiar grupos rebeldes, que se pare de invadir países para lhes extrair recursos, que se pare de depor os seus governos, que se pare de aceitar migrantes nos nossos territórios sem as devidas cautelas. Alto! Fechar fronteiras? Não! Para quê? Para que não se formem guetos, para que não haja lugar a revoltosos, gente que morde a mão de quem a estende. Ninguém deixa o seu país, a sua terra, a sua gente porque quer. Quem o faz é empurrado pelas circunstâncias da má sorte no seu país de origem. Quando a má sorte é provocada pelos anfitriões…o que se pode esperar daí?
Os tementes das ditaduras, deviam saber que não será o fecho das fronteiras a empurrar-nos para uma. Também eu temo as ditaduras e estou convicta disso. São as fronteiras abertas, que dão medo aos povos, que causam insegurança e que fazem crescer as extremas-direitas e esquerdas favoráveis aos regimes autoritários. Os (des)unidos contra o terrorismo deviam saber que a indústria bélica que lhes dá tanto a ganhar lhes dá ainda mais a perder. Um dia, o petróleo e o gás acabarão, mas até lá, milhões terão ficado expatriados, milhões ter-se-ão infiltrado entre nós, milhões ter-nos-ão odiado e milhões terão morrido. Compensa? Não me parece. Mas isso, sou eu, que não percebo nada de política e menos ainda de relações internacionais.
Tuesday, 5 July 2016
Saturday, 25 June 2016
Há mais de 700 milhões de europeus. 10 milhões são portugueses e isso nota-se…(cada vez menos).
Sou eurocéptica desde sempre. Acredito na velha máxima de cada macaco no seu galho e gosto muito da ideia de cooperação, mas misturas, só na culinária.
Isto para dizer que ao contrário de um longo texto que li a criticar fortemente a escolha dos britânicos no Brexit, teria optado igualmente pelo “out” se fosse britânica. Votarei num estrondoso “fora”, se algum dia me for dada a possibilidade de o fazer pelo meu país.
A ideia que se semeou ao longo das últimas décadas de que o orgulho nacional é igual a racismo e xenofobia é descaradamente estúpida (digo eu). Aquilo que nos dá “chão” enquanto indivíduos é a nossa identidade e não é com orgias culturais que conseguimos mantê-la. Gosto sobretudo de saber quais são as minhas raízes e temo que a globalização e a multiculturalidade tão desejadas nestes tempos conturbados não nos permita a médio/longo prazo, identificá-las. Não tem nada de mal reconhecermos os espanhóis pelas Paellas ou o seu fabuloso Polvo à Galega, as sevilhanas ou as largadas de toiros. Da mesma maneira, gosto de saber que a melhor cerveja do mundo ainda é a alemã, o fado será eternamente português e que nenhuma outra cozinha no planeta terá as mil e uma maneiras de cozinhar o bacalhau. São precisamente as diferenças que nos separam, que nos deviam unir, mas em vez disso, queremos acabar com as diferenças para “teoricamente” nos tornarmos todos iguais. A ideia mais tola de sempre é precisamente esse canto das sereias chamado “Igualdade”. Não serve senão para enganar os mais incautos. Na hora da verdade, as diferenças estarão sempre lá, e serão apontadas da forma mais pejorativa de que formos capazes, porque ninguém vê com bons olhos a incapacidade de adaptação do outro, ou a inflexibilidade para o molde. Então, porque não construir sociedades mais justas com base nas diferenças?
Se costumamos dizer que cada um é como é na pequena escala do individualismo, porque é que nos custa tanto assumir que colectivamente cada também é como é?
Dizer que a economia dos países mudou e que a mudança justifica o maralhal de culturas e a perda de soberania dos povos só convence quem se rendeu ao capitalismo tirano dos países “fortes” da Europa. Nem percebo porque raio se defende tanto uma economia comum, se para a colocar em prática é preciso arruinar a autonomia dos povos que têm (tinham) os seus próprios meios para prosperar. Veja-se Portugal: Agricultura, pescas, industria. Digam o que disserem, não somos um país de coitadinhos e recursos não nos faltam. O que nos falta é gente decente e capaz de governar com verdadeiro sentido de Estado.
O Reino Unido, sempre desconfiado do bloco económico europeu, ficou sempre com um pé de fora e ainda assim conseguiu manter uma libra forte. O Reino Unido, habituado à sua soberania e orgulhoso dela, não esteve para se vergar ao autoritarismo alemão. Ninguém o devia levar a mal por isso. Antes pelo contrário, seguir-lhe o exemplo, (que ideia tão estúpida!- Dirão alguns) seria o nosso recomeçar tão necessário para que Portugal não se acabe e seja no tempo dos nossos netos, um país capaz de abraçar outras culturas com respeito por elas e pela sua própria. No tempo dos nossos netos, já que não conseguimos fazê-lo no nosso, tempo dos seus hereges (disse bem, hereges) avós.
Monday, 18 April 2016
Os restos do mundo
É preciso alguém que nos acompanhe para que não fiquemos sozinhos com o resto do mundo. Porque é no que o mundo se tornou: Restos.
Restos de paz, restos de amor, restos de sonhos e de bondade. É por isso que já ninguém quer este mundo. Ninguém gosta de restos. Secretamente sonhamos com os apocalipses. Os bíblicos e os cinematográficos. O Day After que há-de vir carregado de novas possibilidades. Um Armagedom promissor, um desvio de rota que nos leve a bater de frente com um pedregulho espacial ou que nos conduza à entrada abrupta num buraco negro, de minhoca talvez, uma dobra no universo que nos catapulte para os novos amanhãs tão diferentes de hoje. Secretamente desejamos o fim. Invejamos o jurássico e as eras glaciares. A hecatombe há-de salvar-nos de nós mesmos, qual arca a proteger-nos do dilúvio. A morte há-de salvar-nos da vida.Secretamente desejamos o fim. É a possibilidade do Fim que nos fascina nas profecias. Incumpridas. Em vez do alívio trazem-nos a frustração do erro. Escarnecemos do Nostradamus porque não soube fazer as contas e ridicularizamos os Maias porque ignoraram a vida para além de 2012. O fim é o nosso ponteiro predilecto no Doomsday Clock e o hieróglifo incógnito nas paredes de Gizé. Ninguém o diz em voz alta para que outros não pensem que nos tornámos suicidas. Mas tornámos. Continuamos a trabalhar, a comer, a fornicar e a procriar para nos mantermos ocupados e não explodirmos de impaciência por vermos o fim ainda tão longe. Nos intervalos compramos o bilhete para a melhor fila do cinema e comemos pipocas com o ruído do entusiasmo a trespassar-nos os tímpanos para calarmos o horror que sai da tela. É o fim. É a nossa guerra dos mundos, dos nossos mundos interiores que nos faz agradecer a Cameron pela vinda do exterminador. E é também a guerra dos nossos mundos interiores que nos obriga a recear a madrugada dos mortos. O nosso instinto de sobrevivência acaba sempre por falar mais alto que a morbidez impetuosa que nos corre nas veias. A morte salva-nos da vida. Cormac McCarthy tem razão. Estamos na estrada. A nossa existência é uma estrada. Onde ela nos levará depende muito de quem somos. De que matéria somos feitos. Se na estrada, a objectiva que nos retracta captar ainda um resto de felicidade tola, somos a esperança. Se esse resto não nos bastar, somos renúncia. Haja por isso quem nos acompanhe para não ficarmos a sós com o resto do mundo. O resto do mundo é um abismo. É preciso alguém que nos agarre para não cairmos no abismo.
Saturday, 16 April 2016
De livro em livro
Sempre dei livros aos meus filhos. Cedo, muito cedo, vários volumes de livros infantis, contos, Os Irmãos Grimm, Christian Andersen, Disney… Depois os juvenis; a História de Portugal; ciência, Civilizações Antigas; As Grandes Construções do Homem; mistérios e lendas; muita banda desenhada, Tintin, Asterix, Corto Maltese (o Rafael ficou fã), o maravilhoso conto de Marguerite Yourcenar : A Fuga de Wong-Fô, (ainda hoje choro quando o leio). Enfim, paredes e mais paredes forradas de livros e hoje posso dizer que só não os tenho na casa de banho. Por gosto e necessidade lá fomos coleccionando histórias de todos os tamanhos e para todos os gostos. Por necessidade, confesso: Eça, Camões, Camilo. Por gosto, Pessoa, Virgílio, Saramago, Lobo Antunes, Natália Correia, Florbela Espanca. Saltamos de livro em livro, de história em história como quem salta pocinhas e procura mergulhar nas profundezas do saber. Cá em casa lê-se de tudo e cresce-se com o que se lê. Aprendemos, sonhamos, emocionamo-nos, choramos e rimos.
Há 10 anos, o meu filho tinha apenas 11 e já sabia que nem toda a gente tem a sorte de acordar com o chilrear dos passarinhos ou com as buzinadelas dos carros que descem a avenida e se dirigem ao centro da cidade. Aos 11 anos ele já sabia que existem mulheres escondidas nas burkas, escondidas nas esquinas cinzeladas, por baixo dos néons em pedaços, mulheres que acordam todos os dias com o barulho ensurdecedor de bombas a rasgar o céu, o estrondo aterrorizador de edifícios que em menos de nada se transformam em escombros, rajadas de metralhadoras a substituir o bulício das ruas, gritos desesperados de pais que seguram os filhos mortos nos braços. Aos 11 anos o meu menino já sabia que nem todas as mulheres, nem todos os homens, nem todas as crianças deste mundo dormem à noite, imitando-o na sua cama quente e confortável. Ensinei-lhe que para muitos, as noites dão mais medo que sono, e que o medo nos pode transformar em zombies tacteando no escuro um remédio que nos cure as dores do corpo e da alma. Ensinei-lhe que enquanto dormimos, comemos, passeamos e amamos, há pessoas no mundo que caminham pelo deserto em que se transformaram cidades inteiras e não têm tempo para dormir, o que comer ou quem amar e que nas noites em que são zombies contemplam retalhos de rios onde corre mais sangue que água. Aos 11 anos o meu pequeno filho já sabia que havia uma África e um Médio Oriente dilacerados pelas guerras que aparecem nos intervalos dos mercados, “lembra-te filho, as guerras aparecem sempre nos intervalos dos mercados, nos intervalos das compras e das vendas, nos intervalos da acumulação de coisas que não valem as vidas que se acabam. Lembra-te: No Médio Oriente um bom ditador é o garante da estabilidade. “Sem um bom ditador, todo o Médio Oriente é um matadouro, filho. Religião, petróleo, armas, todos os pretextos são bons para fazer jorrar sangue”. Às vezes, onde há muitos sádicos é preciso haver um sádico ainda maior que encerre os outros em arame farpado.
Defendo-o ainda hoje: Sadam era o macho Alpha de uma matilha perigosa e sanguinária. E sobre isto, sobre tudo isto se pode aprender nos livros, e que felizes, afortunados que nós somos por não ser a vida a ensinar-nos. “Os vendilhões nunca se foram embora do templo, filho. Repara como apenas nisto concordaram Alá, Jeová e Cristo: Crescei e multiplicai-vos.” Para grande azar dos cristãos e até mesmo dos judeus, os muçulmanos são os únicos que seguem a advertência divina à risca. Há 10 anos, quando os meus filhos me perguntavam para onde iam as pessoas mortas, eu podia dizer-lhes que elas iam para dentro da estória de Wong Fô e que uma vez aconchegadinhas nas páginas, podiam finalmente dormir no interior de uma das suas telas. Porque nas telas de Wong Fô a beleza é tão intensa, que nada no mundo se lhes compara e só uma beleza assim é capaz de compensar uma vida inteira de sofrimento e de noites sem dormir. Podia, mas preferi sempre confrontá-los com a verdade. Os livros, por mais mágicos que sejam, revelam apenas a grande vontade do autor em embelezar este mundo. Não que o mundo não seja belo o quanto baste. Nós é que se calhar precisamos de extrair da leitura uma nova forma de o olharmos.
O Mundo é um lugar estranho...
Este mundo é um lugar estranho. As redes sociais são lugares estranhos. O Facebook é um lugar estranho. Aqui vomitam-se opiniões sobre tudo e mais qualquer coisa, dizendo e desdizendo logo de seguida o que se disse antes, só para não se perder o comboio da opinião. E é pelos dizeres e desdizeres que leio, que a minha cara de espanto é cada vez mais a que uso neste mundo estranho das opiniões em série. Às vezes, são os posts de quem defende a comunidade homossexual, o “livre trânsito” para quem levaria a humanidade à extinção se dos homossexuais dependesse a continuidade da espécie. Mas o que choca mesmo é que minutos depois o autor de tal post publique outro em que opina favoravelmente à integração das comunidades muçulmanas em Portugal, na Europa, no Ocidente. (Atenção que eu não disse árabes. Disse muçulmanos. E entre uma coisa e outra vai uma diferença igual há que existe entre portugueses e cristãos.)
Saberão estas pessoas que as comunidades muçulmanas abominam homossexuais e que vários braços do Islão lhes reservam a decapitação?
As mesmas pessoas que defendem a entrada de muçulmanos na Europa são inúmeras vezes também feministas em grau superlativo absoluto e publicam regularmente verdadeiros hinos às conquistas das mulheres, exibindo os seus troféus como marcas inequívocas dos progressos femininos. E também, minutos depois voltam ao tema “refugiados”, coitadinhos, temos de os deixar entrar, ficar, e trata-los com muito amor e carinho.
Saberão estas pessoas que grande parte dos braços do Islão nega os mais básicos e elementares direitos às mulheres?
Estas pessoas, sempre com uma grande fome de amor pelo próximo, também exibem fotos com o seu cão, o melhor amigo, e partilham amiúde imagens de maus tratos a animais, condenando-os veementemente. E mais uma vez, 5 minutos depois apelam à entrada das comunidades islâmicas dizendo que quem se insurge contra é desumano, é xenófobo e racista, como se ser muçulmano fosse uma questão de raça e não de religião.
Saberão essas pessoas, que a maioria dos muçulmanos considera imundo, impuro e passível de punição quem se atreva a ter um animal de estimação em casa?
Dizem os autores de tais posts que são a favor do Amor entre toda a humanidade, o amor entre géneros, o amor entre espécies, o amor entre bactérias e moléculas, o amor entre os átomos. São pois estas pessoas absolutamente e mais do que absolutamente, usando o superlativo absoluto da coisa , acérrimos defensores do Amor. E dizem ainda estas pessoas acérrimas defensoras do Amor, que a felicidade de cada um deve sobrepor-se à do colectivo. Que são um direito irrefutável, as liberdades individuais. (Quando são partidários de esquerda a dizer isto, então a estranheza sobe para níveis nunca vistos! Parto-me a rir!) E em nome desse amor aceitam, querem, desejam e vergam-se perante quem não partilha desses mesmos ideais de amor ao próximo e pelo contrário, rege-se por valores, que estão a anos luz deles.
Eu não quero acreditar que o Amor ainda vai ser o grande culpado pela maior tragédia humana que se pôs ao caminho, mas parece-me que este Amor assim tão desenfreado, pode mesmo atirar com a espécie dominante no planeta para um precipício do qual muito dificilmente sairá. Aqui, como em muitas outras coisas o segredo é o Equilíbrio. Nem este desmesurado sentido de liberdade individual, nem o oposto que caracteriza as comunidades islâmicas, onde o que separa o respeito, pelas regras da morte é apenas uma fina página do Al-Corão.
É pois, muito perigoso este convite a “Cada um ser feliz conforme lhe aprouver”, e é preciso olhar com olhos de “ver” para esta frase, e não só porque ela significa a felicidade à vontade do freguês. Não só porque ela significa que se eu for feliz a envolver-me sentimentalmente ou sexualmente com alguém do mesmo sexo devo fazê-lo, mas porque essa frase também significa que da mesma maneira é legítimo que eu me envolva sexualmente com animais ou com cadáveres ou praticando o incesto, ou pedofilia, ou roubando e matando quem se atravessar no meu caminho, se isso me fizer feliz. E eu tenho todo o direito a ser feliz. Logo posso fazer tudo o que me dá na real gana porque o que interessa aqui é defender o hedonismo particular, ignorando que vivemos em sociedade e que viver em sociedade não é compatível com hedonismos individuais. Nem sequer é compatível com o tal Amor Universal. Eu não posso realmente amar o outro se me estou nas tintas para o seu bem-estar face às minhas atitudes.
Por isso, que se fodam os defensores de toda a merda e coisa nenhuma. Não defendem nada! Querem defender tanta coisa, sobretudo tudo o que lhes pareça o “politicamente correcto” , que nem percebem que o que defendem de um lado, logo a seguir condenam de outro. Mandam às urtigas o que defenderam antes. Devia partir-me a rir, mas isto é grave demais para rir!
De facto acho que este mundo tem tendência a ser um lugar menos estranho se implicar regras. E por isso, acredito que as liberdades individuais têm que ter balizas em sociedade. Se não as tiver, se efectivamente cada um puder ser feliz conforme entender, fazendo o que mais lhe dá prazer sem olhar ao choque que as suas acções podem provocar no outro, instala-se o caos e a prática de todas as monstruosidades que referi em cima e muitas outras que não referi, serão um lugar-comum. Não tenho dúvidas. A verdade é que a maioria dos homens não faz o bem porque é bom, mas porque tem medo das consequências se fizer o mal. E é por isto também que as religiões têm tanto poder sobre nós. Porque nos ensinam que há castigo, que há punição se sairmos dos trilhos do bem. Sem estas balizas, seríamos todos nós, bichos. Precisamos das noções de ética e moral sempre acompanhadas de uma recompensa e de um castigo. Lamento, mas ainda não evoluímos assim tanto para dispensarmos isto. E se nós não evoluímos, imagine-se o que para ali vai de evolução quando se fala de muçulmanos. A extensa maioria, para não dizer totalidade, vive ainda tempos medievais. Não saíram de lá.
Mesmo os que vivem na Europa não saíram de lá! Veja-se Inglaterra, França, Bélgica, Suécia, Alemanha… Mas em vez da firmeza para lidar com estas pessoas, usamos a cedência. Cedemos. Ora são as carruagens só para mulheres, evitando os contactos entre elas e homens muçulmanos na Alemanha, ora são os hijabs nas cabeças das tripulantes da Air France, as tradições seculares na Suíça, a carne de porco retirada das escolas no Canadá…e muitas, muitas outras cedências, alterando assim o modo de vida do anfitrião para que o convidado se sinta em casa. Então a minha pergunta para os defensores de toda a merda e de coisa nenhuma é: Acreditam mesmo que rabos virados para Meca são compatíveis com liberdades individuais e Amor desmedido por todas as criaturas?
Foto: Muçulmanos em oração numa rua de Londres.
Apoteose
Dizem que o tempo apaga tudo, mas não é verdade: pessoas apagam pessoas. Pelos textos, personagens, reais em tantas memórias, misturam-se, sobrepõem-se, aglutinam-se numa orgia de palavras densas. O Amor em camadas geológicas, frases e gestos mortos e enterrados, relembrados pela força anímica das palavras, mesmo que desadequadas, repetidas e de gosto duvidoso. Relatos de ti na órbita elíptica da minha existência, ora em apogeu ora em perigeu, aumentando e diminuindo a distância, uma translação inquieta que nos cansou e impulsionou para o vazio. Um espaço aberto que nos alberga no escuro, em apoteose infinita. Fazemos silêncio e é por isso que escrevo. Há a vibração do som que sempre cria novas realidades e nós existimos agora, num agora que o tempo deixou nas traseiras do momento presente. A porta fechou-se. Sim,já antes se havia fechado e reabriu, voltámos à luz, mas os olhos não puderam suportá-la e ela perdeu o sentido. Reencontro-o aqui. Nas palavras…nas frases que se lançam a mim como feras prontas a consumir qualquer coisa tua que ainda persista no meu campo áurico. Tudo o que resta hoje, por força de muitas circunstâncias, vai pairando aqui… constelação de letras errantes no imenso espaço que de nós se esvaziou. Sou uma pessoa diferente. Sei mais sobre o Amor e também sobre a falta dele. “Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento”, dizia Adélia Prado. Continuarei a escrever até que o tempo se me acabe e o espaço se retraia à partícula do átomo. É aí que tudo começa.
Sunday, 20 March 2016
Pai...A imperdoável falha de não o seres
Deixámos de falar. Nem por causa dos miúdos mantemos contacto.
Nos primeiros anos ainda tentámos simular tolerância, aceitação, uma pequenina réstia de amizade que se tivesse pendurado em nós como um pequeno aranhiço que se suspende de uma teia. Passado esse tempo assumimos que não nos suportamos. Que nos desprezamos mutuamente. Ele, porque nunca me perdoou tê-lo posto a milhas da minha vida, eu, porque nunca lhe perdoei ter sido tão mau em tudo. Tão…sensaborão. Tão vazio e ao mesmo tempo tão cheio de si mesmo, como o são os balões inchados de coisa nenhuma.
Nos primeiros meses aparecia, sob o pretexto de ver os filhos. Tentava beijar-me, roçar as mãos no meu peito e eu sentia nojo. Um arrepio de puro repúdio tomava conta do meu corpo. E ao mesmo tempo que me invadia a náusea sentia pena. Dele. Dos miúdos. Mas nunca lamentei o egoísmo que me fazia pensar apenas em mim. Era um direito meu. Ninguém mo podia tirar.
Hoje cruzamo-nos na rua e se possível nem nos cumprimentamos. Se o fazemos é um aceno que nos damos um ao outro, sempre com a pressa de nos perdermos de vista. Um “ Olá, tudo bem” assim mesmo sem ponto de interrogação. Na verdade o que fazemos é dizer olá para cumprirmos as regras da boa educação e de seguida afirmamos (não que interesse ao outro), que cada um de nós está bem e recomenda-se, obrigada. Um “Olá, tudo bem” que não espera nem exige resposta como todos os outros “olás” que dizemos a pessoas de quem não queremos realmente saber, mas que cumprimentamos por conveniência.
A vantagem que temos nesses encontros onde as palavras não se fazem necessárias, é que temos logo de seguida a liberdade para seguirmos em frente, nos nossos caminhos a solo, cada um na sua, sem nos olharmos, como de resto sempre fizemos.
Nunca nos olhámos.
Construímos uma vida em comum que não era bem em comum. Eram mais linhas paralelas que não se tocavam, (são assim as linhas paralelas), olhando em direcções opostas, nunca a mesma, nunca um para o outro.
Nunca me perguntei de quem foi a culpa. Não me interessa esmiuçar uma parte da vida que ficou irremediavelmente no passado. E se dou comigo a pensar nisto hoje, é porque me dou conta de que lhe perdoo quase tudo. Quase tudo. Que ele não tenha sabido ser meu amigo, meu marido ou meu amante. Perdoo. Não lhe perdoarei nunca que ele não saiba (nunca soube), ser pai.
Nos primeiros anos ainda tentámos simular tolerância, aceitação, uma pequenina réstia de amizade que se tivesse pendurado em nós como um pequeno aranhiço que se suspende de uma teia. Passado esse tempo assumimos que não nos suportamos. Que nos desprezamos mutuamente. Ele, porque nunca me perdoou tê-lo posto a milhas da minha vida, eu, porque nunca lhe perdoei ter sido tão mau em tudo. Tão…sensaborão. Tão vazio e ao mesmo tempo tão cheio de si mesmo, como o são os balões inchados de coisa nenhuma.
Nos primeiros meses aparecia, sob o pretexto de ver os filhos. Tentava beijar-me, roçar as mãos no meu peito e eu sentia nojo. Um arrepio de puro repúdio tomava conta do meu corpo. E ao mesmo tempo que me invadia a náusea sentia pena. Dele. Dos miúdos. Mas nunca lamentei o egoísmo que me fazia pensar apenas em mim. Era um direito meu. Ninguém mo podia tirar.
Hoje cruzamo-nos na rua e se possível nem nos cumprimentamos. Se o fazemos é um aceno que nos damos um ao outro, sempre com a pressa de nos perdermos de vista. Um “ Olá, tudo bem” assim mesmo sem ponto de interrogação. Na verdade o que fazemos é dizer olá para cumprirmos as regras da boa educação e de seguida afirmamos (não que interesse ao outro), que cada um de nós está bem e recomenda-se, obrigada. Um “Olá, tudo bem” que não espera nem exige resposta como todos os outros “olás” que dizemos a pessoas de quem não queremos realmente saber, mas que cumprimentamos por conveniência.
A vantagem que temos nesses encontros onde as palavras não se fazem necessárias, é que temos logo de seguida a liberdade para seguirmos em frente, nos nossos caminhos a solo, cada um na sua, sem nos olharmos, como de resto sempre fizemos.
Nunca nos olhámos.
Construímos uma vida em comum que não era bem em comum. Eram mais linhas paralelas que não se tocavam, (são assim as linhas paralelas), olhando em direcções opostas, nunca a mesma, nunca um para o outro.
Nunca me perguntei de quem foi a culpa. Não me interessa esmiuçar uma parte da vida que ficou irremediavelmente no passado. E se dou comigo a pensar nisto hoje, é porque me dou conta de que lhe perdoo quase tudo. Quase tudo. Que ele não tenha sabido ser meu amigo, meu marido ou meu amante. Perdoo. Não lhe perdoarei nunca que ele não saiba (nunca soube), ser pai.
Pecados
Esta manhã entrei na igreja. Já há muito que não entrava na casa de Deus. É frequente passar-lhe à porta, mas apesar de a encontrar aberta, não entro. Poderia de quando em vez, gritar “Ó da casa!” e esperar que o vulto anafado do Senhor se aproximasse arrastando os pés sobre o soalho lustroso onde se ajoelham as beatas zelosas, tementes à sua ira e envergonhadas dos seus pecados. Todavia, avanço. Às vezes até acelerando o passo, confesso, não vá o Criador espreitar pela fresta de uma janela, a da sacristia que costuma estar entreaberta, e chamar-me para dois dedos de conversa. “ Então rapariga, que tens feito?” Emudecia. A uma pergunta dessa natureza, não há nada a dizer. Tenho feito o que toda a gente faz. Peco. Peco por defeito e por feitio, por determinação e teimosia, por tudo e por nada. Peco. Ainda agora quando me benzi em frente do altar, olhei a figura de Cristo na cruz e pequei. “ Era um homem bonito este Jesus”. Pequei. Achei-o belo, mesmo assim abatido e de ar sofredor, o rosto atraente, de olhos doces, mas profundamente sedutores e pensei que se tivesse sido eu no lugar de Maria Madalena me teria apaixonado perdidamente por Ele. Em menos de nada ali estava eu a imaginá-los juntos, a Ele e à Madalena, fazendo amor num qualquer barco de pescador, no meio de tainhas saltitantes implorando para serem devolvidas ao mar da Galileia, no Monte das Oliveiras enquanto os apóstolos dormissem, ou até no interior do Sinédrio, mal as portas se fechassem e os rabinos voltassem a suas casas após os sermões. Jesus, como o pintam, era um homem bonito. É um facto. Madalena, suponho, também não seria nada de deitar fora.
Nestes dois dedos de conversa com o Senhor Deus, eu teria que pedir-lhe perdão por mais este deslize. “ Como ousas atribuir ao meu filho uma conotação sexual?” Deus perguntaria, claro. Ou então não. Talvez Ele entrasse na minha mente, antes mesmo de eu lhe responder. Talvez nem fizesse a pergunta. Deus, de tão perspicaz que é, e conhecendo bem as suas criaturas em geral, e esta criatura que hoje lhe entrou pela casa dentro em particular, sabe muito bem que a razão de eu atribuir ao seu filho um sex appeal que me deporta para o plano dos blasfemos e sacrílegos, tem a ver com o facto de o achar incrivelmente parecido com o M quando ficava 1 mês sem desfazer a barba. Sabendo disso, perdoar-me-ia a intrepidez. Espero. Pelo sim pelo não, e antes que o escriba celestial some mais uma falta ao meu já extenso registo de episódios indesculpáveis, rezo um Pai Nosso e uma Avé Maria. Olho de esguelha para o Cristo, tento distrair-me com os vitrais, a imagem imaculada de Nossa Senhora, a caixa dourada das hóstias sobre o altar, mas é a santa barba do redentor que me traz outra vez a imagem do M, naqueles dias de inverno em que vestia grossas camisolas de lã e se recusava a cortar o extenso tufo de pêlos que lhe tapavam metade do rosto. Imediatamente pensei: “Tantas coisas que podias fazer comigo e só queres fazer-me falta.” Pequei de novo. Foi mais forte do que eu.
Filhos de um Deus Maior
Comprei o "Pai Nosso" da Clara Ferreira Alves. Ando a lê-lo com entusiasmo e devoção estranha. O meu fascínio pelo Médio Oriente ainda hoje é um mistério para mim. Islamismos à parte, construo do Irão uma visão romântica, bela. Fico feliz quando me dizem que me pareço com as mulheres iranianas, embora saiba que é mentira, sou 100% europeia. Ok…talvez como a minha mãe, eu guarde alguns traços árabes. Isso explicará a minha atracção por homens sarracenos? As peles morenas, tisnadas do sol, os olhos grandes, escuros e expressivos chamam-me à terra, logo a mim que sou tão céu. Sou toda céu. Uma lunática, por assim dizer. Custa-me aterrar por aqui. Há qualquer coisa na lei da gravidade que é anti- natura no meu corpo. Ao invés de me obrigar a ganhar raízes, impele-me a criar asas. E é por isso que não raramente voo para longe, atravesso as nuvens de Bagdade, flutuo sobre Ancara, meto a fundo até Istambul, parto o coração em Damasco, cruzo os papagaios de papel dos meninos de Cabul. Até que por fim em Teerão, descanso. Um descanso reparador, terno, como se braços protectores me acolhessem finalmente em casa.
Há países que eu amo como se fossem meus. É também o caso da Índia. Amo a Índia. Amo-a com um amor antigo, indissolúvel, incompreensível. Se eu, em silêncio fechar os olhos e inspirar profundamente, sinto chegar-me às narinas os 1001 perfumes indianos. Dos mercados como o Chandni Chowk, em Délhi, chegam-me apimentados e doces, odores misturados a suores, incensos, especiarias, perfumes baratos, os charutos dos turistas ingleses, óleos queimados de viaturas que se atravessam, atropelam, chocam, seguem como se a vida fosse só ali um bocadinho mais à frente. O fedor do Ganges, lenha queimada, corpos queimados, animais de rua, masalas, semolinas, chapati… Consigo até ouvir os mantras, os mesmos que se entoam na orla do rio sagrado, de frente para o Kashi-Vishvanatha Mandir, o templo de Shiva. Uns fazem eco ao redor das piras e levam a Yama, kala ou qualquer outro Deus que dedica a eternidade aos mortos humanos, as suas imperfeitas almas. Outros elevam as suas vozes a Parvati, a Ganesh, a Shiva: “Sarva Mangala Mangalye Shive Sarvartha Sadhike Tryambake Gauri Narayani Namosture.” Repete-se 9 vezes para se ter sorte no amor. Casais felizes para sempre só os há, se matraqueiam afinadamente as palavras mágicas. E este é o fascínio que a índia exerce sobre mim. De Calcutá a Goa; do Ganjes ao Yamuna; dos arrozais ao Taj Mahal; das monções ao bafo quente que me beija o rosto, um beijo do diabo, húmido, peganhento; do crepitar do carvão nos fogareiros acesos em passeios tortos, ao restolhar dos saris que secam nas cordas, do silêncio no interior dos templos, ao desassossego dos meninos de rua, as mãos estendidas pedindo moedas, pedindo pão, pedindo água, pedindo colo…a Índia é deslumbrante.
Genesis
Ontem fui ver a minha mãe. É assim que tudo começa.
Sou eu e a minha mãe.
Ela num leito de dor e fluidos que lhe escorrem pela boca do corpo. Eu a contorcer-me num espaço exíguo, húmido, escuro como uma gruta cavernosa onde a luz do sol se faz longínqua.
Ela a gemer e a cerrar os dentes, eu a abrir caminho até à luz, os meus ossos apertados e a carne magoada. Por fim, o alívio.
A mãe desmaia caindo num repouso inconsciente enquanto eu berro cá fora aturdida pela claridade e pelo frio, pelos sons e pelas mãos que me tocam. Mãos que eu não conheço. A mãe também não me conhece. Continua no seu sono profundo e não quer saber de mim. Crescemos por fim, as duas muito juntas, ela cada vez mais mulher. Eu, cada vez menos criança. Ambas vinculadas a um pacto: Uma obrigação mútua de nos aceitarmos nas diferenças, suportarmos nos conflitos, de nos aprendermos na viagem que empreendemos, de nos amarmos em todos os momentos, mesmo naqueles em que o amor nos mingua, tolhendo-se no gelo que nos corta o coração.
Ontem fui ver a minha mãe. Houve um tempo, há muitos anos, que eu a via como uma louca, sem brilho nem brio, desgastada pela vida, em constante desequilíbrio. Não me lembro de alguma vez a ter olhado como se olha um farol ou uma torre.
Às vezes odiava-a silenciosamente. Outras amava-a mesmo assim.
Quando depois da berraria por tudo e por coisa nenhuma, se sentava num canto a soluçar, dava-me pena. Mas os gestos, aqueles gestos que afagam, beijam e abraçam o outro como se o outro fosse uma extensão de nós mesmos eram gestos proibidos, despropositados, infantis demais para uma mulher adulta como a minha mãe. Restava-me então a comiseração mesclada com a incompreensão, às vezes a intolerância, outras o descaso.
Via-a infeliz, consumida pelos rios de solidão que lhe sulcavam a vida. Ainda hoje a minha mãe é um desnorte. É-me por isso difícil ir ao seu encontro.
No meio da sua tristeza infinda, prostra-se diante do seu muro particular de lamentações, o seu mundo interior revoltoso, desalumiado, emperdernido.
Vejo-a assim como um produto inacabado. Uma boneca de porcelana que na linha de montagem saltou procedimentos de fabrico e saiu para o embalamento apenas com um olho, meio pulmão, um coração distorcido, uma mente defeituosa.
Nunca me atrevi a perguntar-lhe se algum dia teve sonhos. Quais eram? Acredito sinceramente que nunca os teve ou se os teve, tê-los-á deixado morrer na penumbra de um cotidiano triste e enfadonho. Terão morrido ainda em estado embrionário, pequeninos, enfezados .
Ao longo dos anos na soma de agruras e amarguras a minha mãe seguiu os passos dos seus sonhos e também ela mirrou. Hoje uma mulher
pequenina, como o são todas as mulheres que silenciaram dentro de si os seus desejos, a mãe cortou
definitivamente as asas que a custo a levaram de um dia ao outro. Não mais suportou o peso das pedras que pendiam das suas penas e a obrigavam a voos rasteiros.
Ansiou libertar-se de tão limitadores pendentes e de um só golpe decepou-se.
A mãe que nunca conheceu a vertigem de planar nas alturas, que nunca viveu as alegrias das perfeitas aterrissagens, fez jus à sua condição de mulher térrea e rastejante e hoje quando a encontro, lá está ela a escarafunchar as migalhas que a vida lhe deu, satisfeita por graças a elas, nunca ter sentido fome. Eu, que hoje também sou mãe,tenho medo de me tornar como ela.
Sou uma ostra...
Descobri que sou mais feliz quando estou infeliz. Que o sofrimento é pai e mãe da criatividade, que da dor nascem as musicas mais belas, os textos mais sumarentos, ricos e emotivos. Descobri que tenho um lado masoquista, que sinto prazer na dor,que me delicia a solidão e que brindo à sua chegada,copo de vinho numa mão, cigarro na outra, musica de Bach ao fundo a acompanhar espirais de fumo e a concorrer com o som das teclas. Nada me dá mais prazer do que escrever. Nem o sexo destrona a escrita...nem o amor, fazê-lo, fodê-lo... Gosto do orgasmo mental... e desenrolar as palavras, rasgar a alma e vomitar sentimentos...gritar pelas pontas dos dedos...Gosto da tristeza. Não de uma grande tristeza que me paralise e me transforme em estátua de sal, não da que traz desespero, nem pensamentos sombrios; nunca imaginei pulsos cortados, nem pés descalços sobre o parapeito de uma janela, nem o vento frio na plataforma de uma estação de comboios. Não da tristeza que traz só tédio,conformismo, desistencia. Mas gosto daquela que escava um buraco no meu corpo, em mim se aninha e descansa. Anda comigo durante algum tempo ...apenas o suficiente para ser fecunda.Depois de largada a semente deixa-me criar e tão inesperadamente como chega, vai-se embora. E se ela não voltar...se a sua ausencia me obrigar a ser feliz, ficarei infértil, terra árida e seca...campo que já deu trigo... em pousio...
Sobre felicidade, não sei escrever uma única letra.
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