Saturday, 16 April 2016
Sunday, 20 March 2016
Pai...A imperdoável falha de não o seres
Deixámos de falar. Nem por causa dos miúdos mantemos contacto.
Nos primeiros anos ainda tentámos simular tolerância, aceitação, uma pequenina réstia de amizade que se tivesse pendurado em nós como um pequeno aranhiço que se suspende de uma teia. Passado esse tempo assumimos que não nos suportamos. Que nos desprezamos mutuamente. Ele, porque nunca me perdoou tê-lo posto a milhas da minha vida, eu, porque nunca lhe perdoei ter sido tão mau em tudo. Tão…sensaborão. Tão vazio e ao mesmo tempo tão cheio de si mesmo, como o são os balões inchados de coisa nenhuma.
Nos primeiros meses aparecia, sob o pretexto de ver os filhos. Tentava beijar-me, roçar as mãos no meu peito e eu sentia nojo. Um arrepio de puro repúdio tomava conta do meu corpo. E ao mesmo tempo que me invadia a náusea sentia pena. Dele. Dos miúdos. Mas nunca lamentei o egoísmo que me fazia pensar apenas em mim. Era um direito meu. Ninguém mo podia tirar.
Hoje cruzamo-nos na rua e se possível nem nos cumprimentamos. Se o fazemos é um aceno que nos damos um ao outro, sempre com a pressa de nos perdermos de vista. Um “ Olá, tudo bem” assim mesmo sem ponto de interrogação. Na verdade o que fazemos é dizer olá para cumprirmos as regras da boa educação e de seguida afirmamos (não que interesse ao outro), que cada um de nós está bem e recomenda-se, obrigada. Um “Olá, tudo bem” que não espera nem exige resposta como todos os outros “olás” que dizemos a pessoas de quem não queremos realmente saber, mas que cumprimentamos por conveniência.
A vantagem que temos nesses encontros onde as palavras não se fazem necessárias, é que temos logo de seguida a liberdade para seguirmos em frente, nos nossos caminhos a solo, cada um na sua, sem nos olharmos, como de resto sempre fizemos.
Nunca nos olhámos.
Construímos uma vida em comum que não era bem em comum. Eram mais linhas paralelas que não se tocavam, (são assim as linhas paralelas), olhando em direcções opostas, nunca a mesma, nunca um para o outro.
Nunca me perguntei de quem foi a culpa. Não me interessa esmiuçar uma parte da vida que ficou irremediavelmente no passado. E se dou comigo a pensar nisto hoje, é porque me dou conta de que lhe perdoo quase tudo. Quase tudo. Que ele não tenha sabido ser meu amigo, meu marido ou meu amante. Perdoo. Não lhe perdoarei nunca que ele não saiba (nunca soube), ser pai.
Nos primeiros anos ainda tentámos simular tolerância, aceitação, uma pequenina réstia de amizade que se tivesse pendurado em nós como um pequeno aranhiço que se suspende de uma teia. Passado esse tempo assumimos que não nos suportamos. Que nos desprezamos mutuamente. Ele, porque nunca me perdoou tê-lo posto a milhas da minha vida, eu, porque nunca lhe perdoei ter sido tão mau em tudo. Tão…sensaborão. Tão vazio e ao mesmo tempo tão cheio de si mesmo, como o são os balões inchados de coisa nenhuma.
Nos primeiros meses aparecia, sob o pretexto de ver os filhos. Tentava beijar-me, roçar as mãos no meu peito e eu sentia nojo. Um arrepio de puro repúdio tomava conta do meu corpo. E ao mesmo tempo que me invadia a náusea sentia pena. Dele. Dos miúdos. Mas nunca lamentei o egoísmo que me fazia pensar apenas em mim. Era um direito meu. Ninguém mo podia tirar.
Hoje cruzamo-nos na rua e se possível nem nos cumprimentamos. Se o fazemos é um aceno que nos damos um ao outro, sempre com a pressa de nos perdermos de vista. Um “ Olá, tudo bem” assim mesmo sem ponto de interrogação. Na verdade o que fazemos é dizer olá para cumprirmos as regras da boa educação e de seguida afirmamos (não que interesse ao outro), que cada um de nós está bem e recomenda-se, obrigada. Um “Olá, tudo bem” que não espera nem exige resposta como todos os outros “olás” que dizemos a pessoas de quem não queremos realmente saber, mas que cumprimentamos por conveniência.
A vantagem que temos nesses encontros onde as palavras não se fazem necessárias, é que temos logo de seguida a liberdade para seguirmos em frente, nos nossos caminhos a solo, cada um na sua, sem nos olharmos, como de resto sempre fizemos.
Nunca nos olhámos.
Construímos uma vida em comum que não era bem em comum. Eram mais linhas paralelas que não se tocavam, (são assim as linhas paralelas), olhando em direcções opostas, nunca a mesma, nunca um para o outro.
Nunca me perguntei de quem foi a culpa. Não me interessa esmiuçar uma parte da vida que ficou irremediavelmente no passado. E se dou comigo a pensar nisto hoje, é porque me dou conta de que lhe perdoo quase tudo. Quase tudo. Que ele não tenha sabido ser meu amigo, meu marido ou meu amante. Perdoo. Não lhe perdoarei nunca que ele não saiba (nunca soube), ser pai.
Pecados
Esta manhã entrei na igreja. Já há muito que não entrava na casa de Deus. É frequente passar-lhe à porta, mas apesar de a encontrar aberta, não entro. Poderia de quando em vez, gritar “Ó da casa!” e esperar que o vulto anafado do Senhor se aproximasse arrastando os pés sobre o soalho lustroso onde se ajoelham as beatas zelosas, tementes à sua ira e envergonhadas dos seus pecados. Todavia, avanço. Às vezes até acelerando o passo, confesso, não vá o Criador espreitar pela fresta de uma janela, a da sacristia que costuma estar entreaberta, e chamar-me para dois dedos de conversa. “ Então rapariga, que tens feito?” Emudecia. A uma pergunta dessa natureza, não há nada a dizer. Tenho feito o que toda a gente faz. Peco. Peco por defeito e por feitio, por determinação e teimosia, por tudo e por nada. Peco. Ainda agora quando me benzi em frente do altar, olhei a figura de Cristo na cruz e pequei. “ Era um homem bonito este Jesus”. Pequei. Achei-o belo, mesmo assim abatido e de ar sofredor, o rosto atraente, de olhos doces, mas profundamente sedutores e pensei que se tivesse sido eu no lugar de Maria Madalena me teria apaixonado perdidamente por Ele. Em menos de nada ali estava eu a imaginá-los juntos, a Ele e à Madalena, fazendo amor num qualquer barco de pescador, no meio de tainhas saltitantes implorando para serem devolvidas ao mar da Galileia, no Monte das Oliveiras enquanto os apóstolos dormissem, ou até no interior do Sinédrio, mal as portas se fechassem e os rabinos voltassem a suas casas após os sermões. Jesus, como o pintam, era um homem bonito. É um facto. Madalena, suponho, também não seria nada de deitar fora.
Nestes dois dedos de conversa com o Senhor Deus, eu teria que pedir-lhe perdão por mais este deslize. “ Como ousas atribuir ao meu filho uma conotação sexual?” Deus perguntaria, claro. Ou então não. Talvez Ele entrasse na minha mente, antes mesmo de eu lhe responder. Talvez nem fizesse a pergunta. Deus, de tão perspicaz que é, e conhecendo bem as suas criaturas em geral, e esta criatura que hoje lhe entrou pela casa dentro em particular, sabe muito bem que a razão de eu atribuir ao seu filho um sex appeal que me deporta para o plano dos blasfemos e sacrílegos, tem a ver com o facto de o achar incrivelmente parecido com o M quando ficava 1 mês sem desfazer a barba. Sabendo disso, perdoar-me-ia a intrepidez. Espero. Pelo sim pelo não, e antes que o escriba celestial some mais uma falta ao meu já extenso registo de episódios indesculpáveis, rezo um Pai Nosso e uma Avé Maria. Olho de esguelha para o Cristo, tento distrair-me com os vitrais, a imagem imaculada de Nossa Senhora, a caixa dourada das hóstias sobre o altar, mas é a santa barba do redentor que me traz outra vez a imagem do M, naqueles dias de inverno em que vestia grossas camisolas de lã e se recusava a cortar o extenso tufo de pêlos que lhe tapavam metade do rosto. Imediatamente pensei: “Tantas coisas que podias fazer comigo e só queres fazer-me falta.” Pequei de novo. Foi mais forte do que eu.
Filhos de um Deus Maior
Comprei o "Pai Nosso" da Clara Ferreira Alves. Ando a lê-lo com entusiasmo e devoção estranha. O meu fascínio pelo Médio Oriente ainda hoje é um mistério para mim. Islamismos à parte, construo do Irão uma visão romântica, bela. Fico feliz quando me dizem que me pareço com as mulheres iranianas, embora saiba que é mentira, sou 100% europeia. Ok…talvez como a minha mãe, eu guarde alguns traços árabes. Isso explicará a minha atracção por homens sarracenos? As peles morenas, tisnadas do sol, os olhos grandes, escuros e expressivos chamam-me à terra, logo a mim que sou tão céu. Sou toda céu. Uma lunática, por assim dizer. Custa-me aterrar por aqui. Há qualquer coisa na lei da gravidade que é anti- natura no meu corpo. Ao invés de me obrigar a ganhar raízes, impele-me a criar asas. E é por isso que não raramente voo para longe, atravesso as nuvens de Bagdade, flutuo sobre Ancara, meto a fundo até Istambul, parto o coração em Damasco, cruzo os papagaios de papel dos meninos de Cabul. Até que por fim em Teerão, descanso. Um descanso reparador, terno, como se braços protectores me acolhessem finalmente em casa.
Há países que eu amo como se fossem meus. É também o caso da Índia. Amo a Índia. Amo-a com um amor antigo, indissolúvel, incompreensível. Se eu, em silêncio fechar os olhos e inspirar profundamente, sinto chegar-me às narinas os 1001 perfumes indianos. Dos mercados como o Chandni Chowk, em Délhi, chegam-me apimentados e doces, odores misturados a suores, incensos, especiarias, perfumes baratos, os charutos dos turistas ingleses, óleos queimados de viaturas que se atravessam, atropelam, chocam, seguem como se a vida fosse só ali um bocadinho mais à frente. O fedor do Ganges, lenha queimada, corpos queimados, animais de rua, masalas, semolinas, chapati… Consigo até ouvir os mantras, os mesmos que se entoam na orla do rio sagrado, de frente para o Kashi-Vishvanatha Mandir, o templo de Shiva. Uns fazem eco ao redor das piras e levam a Yama, kala ou qualquer outro Deus que dedica a eternidade aos mortos humanos, as suas imperfeitas almas. Outros elevam as suas vozes a Parvati, a Ganesh, a Shiva: “Sarva Mangala Mangalye Shive Sarvartha Sadhike Tryambake Gauri Narayani Namosture.” Repete-se 9 vezes para se ter sorte no amor. Casais felizes para sempre só os há, se matraqueiam afinadamente as palavras mágicas. E este é o fascínio que a índia exerce sobre mim. De Calcutá a Goa; do Ganjes ao Yamuna; dos arrozais ao Taj Mahal; das monções ao bafo quente que me beija o rosto, um beijo do diabo, húmido, peganhento; do crepitar do carvão nos fogareiros acesos em passeios tortos, ao restolhar dos saris que secam nas cordas, do silêncio no interior dos templos, ao desassossego dos meninos de rua, as mãos estendidas pedindo moedas, pedindo pão, pedindo água, pedindo colo…a Índia é deslumbrante.
Genesis
Ontem fui ver a minha mãe. É assim que tudo começa.
Sou eu e a minha mãe.
Ela num leito de dor e fluidos que lhe escorrem pela boca do corpo. Eu a contorcer-me num espaço exíguo, húmido, escuro como uma gruta cavernosa onde a luz do sol se faz longínqua.
Ela a gemer e a cerrar os dentes, eu a abrir caminho até à luz, os meus ossos apertados e a carne magoada. Por fim, o alívio.
A mãe desmaia caindo num repouso inconsciente enquanto eu berro cá fora aturdida pela claridade e pelo frio, pelos sons e pelas mãos que me tocam. Mãos que eu não conheço. A mãe também não me conhece. Continua no seu sono profundo e não quer saber de mim. Crescemos por fim, as duas muito juntas, ela cada vez mais mulher. Eu, cada vez menos criança. Ambas vinculadas a um pacto: Uma obrigação mútua de nos aceitarmos nas diferenças, suportarmos nos conflitos, de nos aprendermos na viagem que empreendemos, de nos amarmos em todos os momentos, mesmo naqueles em que o amor nos mingua, tolhendo-se no gelo que nos corta o coração.
Ontem fui ver a minha mãe. Houve um tempo, há muitos anos, que eu a via como uma louca, sem brilho nem brio, desgastada pela vida, em constante desequilíbrio. Não me lembro de alguma vez a ter olhado como se olha um farol ou uma torre.
Às vezes odiava-a silenciosamente. Outras amava-a mesmo assim.
Quando depois da berraria por tudo e por coisa nenhuma, se sentava num canto a soluçar, dava-me pena. Mas os gestos, aqueles gestos que afagam, beijam e abraçam o outro como se o outro fosse uma extensão de nós mesmos eram gestos proibidos, despropositados, infantis demais para uma mulher adulta como a minha mãe. Restava-me então a comiseração mesclada com a incompreensão, às vezes a intolerância, outras o descaso.
Via-a infeliz, consumida pelos rios de solidão que lhe sulcavam a vida. Ainda hoje a minha mãe é um desnorte. É-me por isso difícil ir ao seu encontro.
No meio da sua tristeza infinda, prostra-se diante do seu muro particular de lamentações, o seu mundo interior revoltoso, desalumiado, emperdernido.
Vejo-a assim como um produto inacabado. Uma boneca de porcelana que na linha de montagem saltou procedimentos de fabrico e saiu para o embalamento apenas com um olho, meio pulmão, um coração distorcido, uma mente defeituosa.
Nunca me atrevi a perguntar-lhe se algum dia teve sonhos. Quais eram? Acredito sinceramente que nunca os teve ou se os teve, tê-los-á deixado morrer na penumbra de um cotidiano triste e enfadonho. Terão morrido ainda em estado embrionário, pequeninos, enfezados .
Ao longo dos anos na soma de agruras e amarguras a minha mãe seguiu os passos dos seus sonhos e também ela mirrou. Hoje uma mulher
pequenina, como o são todas as mulheres que silenciaram dentro de si os seus desejos, a mãe cortou
definitivamente as asas que a custo a levaram de um dia ao outro. Não mais suportou o peso das pedras que pendiam das suas penas e a obrigavam a voos rasteiros.
Ansiou libertar-se de tão limitadores pendentes e de um só golpe decepou-se.
A mãe que nunca conheceu a vertigem de planar nas alturas, que nunca viveu as alegrias das perfeitas aterrissagens, fez jus à sua condição de mulher térrea e rastejante e hoje quando a encontro, lá está ela a escarafunchar as migalhas que a vida lhe deu, satisfeita por graças a elas, nunca ter sentido fome. Eu, que hoje também sou mãe,tenho medo de me tornar como ela.
Sou uma ostra...
Descobri que sou mais feliz quando estou infeliz. Que o sofrimento é pai e mãe da criatividade, que da dor nascem as musicas mais belas, os textos mais sumarentos, ricos e emotivos. Descobri que tenho um lado masoquista, que sinto prazer na dor,que me delicia a solidão e que brindo à sua chegada,copo de vinho numa mão, cigarro na outra, musica de Bach ao fundo a acompanhar espirais de fumo e a concorrer com o som das teclas. Nada me dá mais prazer do que escrever. Nem o sexo destrona a escrita...nem o amor, fazê-lo, fodê-lo... Gosto do orgasmo mental... e desenrolar as palavras, rasgar a alma e vomitar sentimentos...gritar pelas pontas dos dedos...Gosto da tristeza. Não de uma grande tristeza que me paralise e me transforme em estátua de sal, não da que traz desespero, nem pensamentos sombrios; nunca imaginei pulsos cortados, nem pés descalços sobre o parapeito de uma janela, nem o vento frio na plataforma de uma estação de comboios. Não da tristeza que traz só tédio,conformismo, desistencia. Mas gosto daquela que escava um buraco no meu corpo, em mim se aninha e descansa. Anda comigo durante algum tempo ...apenas o suficiente para ser fecunda.Depois de largada a semente deixa-me criar e tão inesperadamente como chega, vai-se embora. E se ela não voltar...se a sua ausencia me obrigar a ser feliz, ficarei infértil, terra árida e seca...campo que já deu trigo... em pousio...
Sobre felicidade, não sei escrever uma única letra.
Natais
Lembro-me bem do caminho que fazíamos a pé para casa da Tia Júlia.
Atravessávamos a estrada macadame, metíamos por um atalho térreo, lamacento no inverno e empoeirado no verão. A avó guiava-nos através dos trilhos, andava em passos pequeninos para nos acompanhar, deixava-nos descansar à sombra das oliveiras. Subíamos a encosta ladeada de figueiras, comíamos os figos quando maduros, apanhávamos nêsperas ainda verdes, tão azedas que nos deixavam a língua áspera como a de um gato.
Cantarolávamos canções populares e seguíamos saltitantes até ao cruzamento de alcatrão. Dali ao casario era uma descida de poucos metros. De um lado e do outro, vinhas. Que barrigada de morangueira nos espreitava dos muros!
Ao lado do curral da burra que me suportava nas longas caminhadas, um pirliteiro de ramos espinhosos. Exibia lindos cachos de pirlitos nacarados, qual romãs mal acabadas de nascer. Apanhava uns quantos até encher os bolsos depois de prometer à avó que não os enfiava no nariz. Todavia, mantida a promessa quanto aos pirlitos, no inverno vingava-me de todas as juras a contragosto. As veredas contíguas ao curral da burra, profícuas em frutos vermelhos, apaziguavam-me a gula com as amoras nos dias de suão, e em Dezembro, enquanto apanhávamos o musgo para o presépio, brindavam-me com o azevinho com que entupia as narinas.
As bagas pequeninas, fazendo lembrar tomates anões, eram-me retiradas pacientemente pela mãe. Enquanto os primos esfuziantes abriam os presentes, eu pranteava com uma pinça enfiada no nariz. Não fossem os açoites mesmo antes da Missa do Galo, e as pústulas nas fossas nasais logo no dia a seguir, e os meus natais teriam sido perfeitos.
(Playful Heart)
Sinceramente acreditei que escrever ajudava.
Pensei que se os meus dedos andassem o bastante nos sentidos contrários do teclado, se esqueceriam de como era saltitarem-te na pele.
Acreditei que este cinismo da escrita, este mesmo que enfeita a verdade do que fomos, dissimulasse agora, a que somos. E, no entanto, ando para aqui sem ressalvas, a empoar-me as lembranças com palavras, como se elas fossem pózinhos de pirlimpimpim capazes de transformar numa qualquer magia o que quero mesmo dizer-te.
Não é de hoje que me questiono se nós, humanos, no dia em que largámos as caudas de girinos, algúres em pantanais sulforosos e nos somámos a braços, pernas e espírito, não tendemos a confundir os repentes animais que nos levam à ardência do sexo, com os amores sublimes e divinos que, supostamente nos entrelaçam as almas. Tenho cá para mim (pelo menos depois que te foste) que andamos aqui ao engano, desde os dias primevos, e que, muito antes do fogo e da roda, já nós sabíamos fintar a natureza com a mesma mestria com que a convencemos de que o prazer que nos explode no corpo quando copulamos, não é um mero engodo para o acto mecânico na prepetuação da espécie. Ela (a natureza) deve ter acreditado nessa patranha que lhe contámos, porque, ainda hoje, homens e mulheres em todo o mundo se enrolam e esfregam e beijam e entram um dentro do outro, como se existisse em tais actos um objectivo admirável e profundo que lhes enobrece a condição.
Suspeito agora, de que, também eu me deixei ludibriar por essa visão magnificente de uma boa foda, (digo) e talvez por isso me convenci de que te amava, enquanto ardia por dentro, às sextas à noite. Já não estou certa de sentir-me assim porque me cabias, porque me preenchias o espaço vazio entre as minhas pernas ou se na verdade te enlaçavas em mim nessa outra dimensão espiritual que nos transcende, e onde somos sempre luz.
Seja qual for o tamanho do aleive em que me embalei, posso jurar que me habitaste o milímetro quadrado do coração, porque hoje ele doí como um sopro e rompe-se como um buraco negro que me suga a matéria de que sou feita.
Não sei se (acaso eu me tivesse acautelado o bastante para não me deixar enganar por tangas ancestrais), teria querido de ti, não mais do que uma hora ou uma tarde, talvez um dia, não mais que isso. Seria por certo, essa, a forma de não gastar tantas palavras em orgias semânticas. Poderia até dizer-te que me satisfaço afinal com três: Sexo. Amor. Fim. Não necessariamente em simultâneo nem obrigatoriamente por esta ordem.
Poderia até dizer-te que afinal nunca te amei, ou na pior das hipóteses que amei sim, mas que já não te amo mais. Mas isso seria tão estúpido quanto acreditar que depois que fomos girinos e nos largámos as caudas, que depois que nos somámos a braços, pernas e alma, desatámos a fintar a natureza, levando-a a crer que somos capazes de algo bem maior do que apenas nos saciarmos fisicamente como o fazem os restantes animais. É óbvio que somos mestres na mentira e que nos enganamos a nós mesmos com a frequência com que nos sentimos únicos e próximos de Deus, mas… acredita: a única coisa que fintamos desde os dias primevos é exactamente o Amor e é por ele que nos enrolamos, beijamos e copulamos.
É verdade que a única fracção de vida em que o levamos a sério (ao Amor), é mesmo quando somos ainda crianças e corremos para onde sabemos estar o aconchego de um abraço protector. E é por isto que eu nunca percebi porque é que quando tudo nos parece um bom pretexto para brincar, nos é lançado o feitiço de sermos tão circunspectos no amor, e a maldição de, (quando já somos adultos), transformá-lo numa forma divertida de passar o tempo.
Vale-nos porém a certeza de que o amor não é para nós, uma brincadeira qualquer: Ele é pelo menos, a nossa brincadeira favorita.
Se eu fosse eu.
Li um texto da Clarice Lispector que começa mais ou menos assim. Se eu fosse eu.
A frase tocou-me. Profundamente.
Há muito que me pergunto quem seria eu, se fosse eu.
Acho que cheguei à minha segunda fase dos porquês. A primeira, tive-a em criança. Nessa altura perguntava “ Porque é que o sol é quente, as formigas andam em carreirinhos, o cheiro da terra molhada é doce, o que são pecados, onde mora Deus, a mãe me diz não. Porque é que me dizes não, mãe?
Hoje eu sei que a mãe me dizia não para que eu não fosse eu.
Aprendi então a não ser eu. Sou o que faço, sou os meus filhos, os meus pais, o meu chefe, os meus colegas de trabalho. Sou os meus amigos e os meus inimigos.
Mas…e se eu fosse eu?
A vida começa todos os dias e todos os dias, mal o sol nascesse, faria caminhadas matinais à beira-mar. E nessa altura, saberia que cada grão de areia a afundar-se em baixo dos meus pés é uma estrela no céu: Um grão de areia acima da minha cabeça. E então eu teria noção da minha pequenez e finitude.
Viajaria mais. Dissiparia o medo de me perder nas estradas do mundo e tornar-me-ia numa andarilha.
Escreveria mais. Não perderia 1 segundo do meu tempo com o que não me faz feliz e dedicá-lo-ia apenas ao que me faz rir a alma.
Viajaria mais. Dissiparia o medo de me perder nas estradas do mundo e tornar-me-ia numa andarilha.
Escreveria mais. Não perderia 1 segundo do meu tempo com o que não me faz feliz e dedicá-lo-ia apenas ao que me faz rir a alma.
Arranjaria uma casinha de aldeia, daquelas térreas com um grande quintal e enchê-lo-ia de cães, gatos, pequenos ciprestes e trepadeiras nos muros. Forraria as paredes com livros e exporia sobre os móveis as conchas de todas as praias do mundo.
Faria tatuagens no meu corpo. Andaria com um bindi no meio da testa. Descalça. Andaria mais vezes descalça.
Veria sempre o pôr-do-sol. Porque em cada dia encontraria um novo encanto no poente.
Teria menos flores nas jarras e mais no jardim.
Teria menos flores nas jarras e mais no jardim.
Poria um aquário no lugar da televisão. Ele lembrar-me-ia da profundidade da vida e livrar-me-ia do superficial.
Pelo menos uma vez experimentaria a sensação única de planar num parapente. E então eu saberia que as aves são de todos os seres da Terra, os preferidos do Criador. Porque Ele lhes deu a elas aquilo que os homens mais ambicionam: Liberdade.
Pelo menos uma vez experimentaria a sensação única de planar num parapente. E então eu saberia que as aves são de todos os seres da Terra, os preferidos do Criador. Porque Ele lhes deu a elas aquilo que os homens mais ambicionam: Liberdade.
Escolheria uma praia privada e faria nudismo. E então eu saberia que a roupa que me veste é apenas um acessório.
Daria mais do meu tempo aos velhos e às crianças. Para então compreender que atravesso agora a ponte entre eles.
Apaixonar-me-ia mais. Por tudo o que valesse o meu amor. Também por mim, que tantas vezes me desmereço.
Seria menos polida. Gritaria a uns “Vai-te foder”, com a mesma satisfação com que digo a outros “Gosto tanto de ti”. Sem me sentir culpada. Acobardada. Sem medo de ferir o outro, de represálias, de perder um amigo, um namorado, um emprego.
Seria menos polida. Gritaria a uns “Vai-te foder”, com a mesma satisfação com que digo a outros “Gosto tanto de ti”. Sem me sentir culpada. Acobardada. Sem medo de ferir o outro, de represálias, de perder um amigo, um namorado, um emprego.
O medo, esse fantasma manipulador que me paralisa, seria então um pequeno espectro. Uma sombra passageira a esbater-se na firmeza da minha coragem.
“Vai-te Foder!” Di-lo-ia com a minha dicção perfeita, alto e bom som a quem merecesse ouvi-lo. Preocupar-me-ia menos com as carências e confiaria mais no futuro.
Confiaria mais em mim. Saberia então que Ser e Ter são coisas muito diferentes e se a primeira é o que a vida me dá, a segunda é o que ela me tira.
Felicidade tola
As manhãs dos fins- de-semana costumam ser boas. Muito boas. Somos os do costume, é certo, mas em dias com tempo, libertos da escravatura do relógio, seguimos pelo paredão concentrados no ritmo, inspirando aromas de algas e mares. Desfrutamos dos raios de sol que nos secam a pele, escutamos a música do ipod - cantigas secretas que ninguém imagina que seleccionamos - soletramos baixinho e com o pensamento escrevemos frases longas; ininterruptas, sem pontuação.
Fazemos genuínas promessas de vida e resolvemos ser felizes e sorrir sempre até ao fim dos nossos dias.
E é por fim, na consciência dos curtos instantes de felicidade tola, que tomamos conhecimento de que a vida é demasiado breve.
Thursday, 10 March 2016
O Canto das Sereias
Queria deixar de gostar de ti.
Extrair da minha pele as marcas perenes das tuas mãos e ser capaz de me esquivar desta loucura silenciosa que se enclausurou aqui dentro.
Não sei se sabes, mas a minha saudade é intermitente. Chata. É uma raiva insustida que tem sede do teu beijo e viaja melancólica no tempo até àquele momento preciso em que a tua voz ecoava nos meus ouvidos. Hoje queria-te diferente, sabes? Não esta ferida incómoda que não sara, esta incisão aberta a segregar o pus da tua ausência. Não me posso arrancar os membros um a um até que me esvaia em sangue para me esvair de ti. Nem tão pouco me posso deixar vencer pelo cansaço nem pelos rancores nauseantes que as milhas entre nós me fazem percorrer.
Queria, era aparecer-te linda, ciente dos pormenores de que não abdicas: saltos altos e rendas nas lingeries que ainda guardo para ti no fundo da gaveta. Queria abrir-te as pernas e o coração para que te alojasses sem pompa nem circunstância, com pleno direito de usufruto por toda uma vida, para além da vida.
Queria voltar a sentir-te o toque, as tuas mãos a roubarem-me a roupa com brutalidade e os teus olhos a derramarem ternura pelos cantos.
Quantas vezes nos magoámos e levámos em braços? Quantas? E quantas vezes nos demos colo enquanto nos espetávamos brutalmente nas costas, objectos longos e perfurantes que as nossas palavras materializavam?
Quantas vezes sem nos matarmos, lutámos em batalhas sangrentas só para que nunca deixássemos de nos cheirar, para que os nossos sentidos se mantivessem alerta, um na direcção do outro, sempre?
Tive dias em que desejei infundir-te desespero, provocar-te lágrimas e feridas só para que viesses depois até mim para que eu as lambesse. E tu, sei-o bem, tiveste dias em que me querias longe e ainda mais me querias perto, à mercê dos teus pés, das tuas mãos, da tua loucura e devaneios constantes. Tiveste dias de ciúme e desvario a imaginar-me com todos só para teres motivos válidos para me arrasares. Eu enrolava-me a um canto como um bicho, consumida pela culpa, arrependida dos sinais, dos fumos, dos morses, das malditas palavras mal conjugadas, mal pensadas, mal… ditas. Adeus, fins e despedidas… tantas que nos afogámos no lamaçal do sofrimento, caímos no abismo da distância.
Queríamos ter a certeza de que nunca seríamos felizes e esfregámos essa fé na cara um do outro enquanto nos pegávamos nas mãos e passeávamos, insuspeitos assassinos do amor que nos unia. Se, era isto que queríamos, digo, o querermos e não termos, a última deixa, o último acto, o cair do pano, a machadada final na única árvore do bosque… Porque é que desde então, intercalamos risos cínicos com gotas de fel e sal que brotam dos breves instantes em que deixamos ecoar na nossa estupefacção a palavra maldita que nos enfraquece os joelhos?
Sim, é verdade que me convenço que é tua a disfuncionalidade e que a plantaste em mim como uma semente negra, uma bolha prestes a rebentar, um vírus rápido e mortal. Mas existe a tal palavra maldita que me enfraquece os joelhos. E quando ela ecoa, quando ela me escapa sorrateira e se mistura com tudo o resto que sempre te quis dizer, mas não disse, quando ela manhosa, se evade do ardil em que se esconde e se infiltra subtilmente no emaranhado das minhas cordas vocais, eu volto a enrolar-me a um canto como um bicho, volto a consumir-me pela culpa e a perguntar-me, porque é que não te mando agora sinais.
Os fumos e os morses, os cantos das sereias, uma sms apenas, onde a palavra maldita estivesse presente: Amo-te.
Escre(vi)ver
Não sei se escrevo por gosto, necessidade ou se por vaidade.
Talvez o faça por todos esses motivos e outros que não fui ainda capaz de descortinar. Acima de tudo, acho que escrevo para me esvaziar. É a minha forma (quem sabe?) de me ir matando aos poucos como se de um golpe na ulnar se fizesse a escrita e o meu sangue jorra-se criando frases com os meus fluídos, textos com as minhas vísceras e livros inteiros com várias partes do meu corpo.
Descarto-me assim de coisas minhas que já não quero a morar em mim. Histórias grandes, extensas, complexas, cenários, personagens que vivem através de mim o que me cabe apenas imaginar. Crio universos que dependem do meu punho para que não fiquem eternamente desabitados. Escrevo realidades e misturo-as com sonhos, quimeras, mundos apocalípticos, renascidos, que me soam ao canto das sereias e me desafiam a viver neles.
Escrevo sobre a folhagem seca que cobre os caminhos do Parque no inicio do Outono, sobre a escalada íngreme até ao cume do Atlas, a cordilheira dos Andes e o voo dos condores, o calor sufocante do Alentejo, a bela Liége e os seus aquedutos, os assobios do vento nos temporais, os gritos contidos nos velórios, as manhãs cobertas de nevoeiro, a ponte a serpentear sobre o Tejo, a minha India tão linda, tão colorida, o meu amor hindu, a minha Goa, a minha Varanasi, a minha…vida.
Escreverei outra vez um livro. Outro que me obrigue a renascer nele. Um outro que tenha uma capa resistente ao descuido das mãos, orelhas com a minha biografia, a minha foto a preto e branco a fugir os olhos à objectiva. Escreverei um livro cujas páginas sejam almas de criaturas vivas e as letras bem visíveis terão notas de rodapé a bold, como prenúncios do luto na última página.
Quando olho para o meu livro, (aquele que já escrevi),no meio de todos os outros na minha estante, vejo um pequeno livro de folhas brancas.
Todos os outros têm folhas amarelas, um amarelo velho, quase fazendo parecer que as suas páginas são sujas, encardidas por dedos que os folhearam, virando as páginas uma a uma. Encardidos pelo pó acumulado dos anos.
O meu não. O meu livro tem letras pretas em páginas brancas que me fazem lembrar mosquitos mortos sobre a neve. O meu livro branco imaculado, parece intocado, nunca lido. Escreverei outro livro. Um de páginas encardidas. Nunca mais quero escrever um livro branco.
Friday, 5 February 2016
Tuesday, 29 December 2015
Para iluminar 2016
Nas viagens que faço ao meu passado encontro muitas vezes uma miúda magricela com a pele muito morena a fingir que fala inglês com os turistas que se passeiam em S.Martinho do Porto. A miúda come gelado “Epá”, sempre na expectativa da última colherada que a recompensa com uma pastilha elástica em forma de berlinde, e volta e meia sai da areia onde já fez buracos, construiu castelos e escondeu todas as conchas que encontrou (os seus tesouros) e vai dar umas braçadas na baía, mesmo antes da hora do lanche (pão com marmelada e um Caprisone). Enquanto a madrinha toma café, a seguir ao almoço, a miúda lê livrinhos de banda desenhada e os infantis ( Ruy, o pequeno Cid e a Heidi), depois saltita até ao parque infantil e diverte-se no baloiço e no escorrega ( os seus preferidos).
Tento perceber que tipo de sonhos a miúda acalenta, o que quer ela para o futuro, mas constato que a miúda é muito feliz a ler e a falar com os turistas, de quem quer saber muito, quer saber tudo, e chego à conclusão que a miúda gostaria mesmo era de viajar, pôr mochilas às costas e quem sabe, ter uma daquelas carrinhas pão-de-forma para percorrer o mundo inteiro ou pelo menos a Europa.
A miúda queria coisas bem simples afinal. Livros e viagens.
Entretanto, pelo que sei, a miúda cresceu, casou e teve filhos.Trabalhou em rádios e abraçou o jornalismo, desiludiu-se e descasou, deixou o marido, as rádios e o jornalismo, depois percebeu que não havia mais nada de que gostasse tanto e voltou às rádios e ao jornalismo, (mas não ao marido), e acrescentou músicas e mais livros e mais amores e um monte de dias e noites preenchidas pelos maiores Amores de todos : Os filhos. Hoje a miúda já não fala tanto com os turistas, mas fala inglês, às vezes atrapalha-se e reaprende, acrescentou ainda mais livros incluindo os seus próprios, acrescentou ainda mais músicas que ela própria cantou, e somou ainda mais filhos: três patudos que ela adora e trata com o mesmo carinho que dá às crianças porque são crianças que vê a correr pela casa e não um cão e dois gatos.
Nunca assistiu a um Diwali ou um Durga Puja na Índia, nem tão pouco se emocionou “in loco” com o maravilhoso Yi Peng, na Tailândia, mas percorre todas as distâncias do mundo nos livros que lê e escreve. Às vezes a vida parece-lhe agreste demais e também demasiado disposta a roubar-lhe os sonhos. Para o sustento faz o que não gosta, lida com a mediocridade do dia-a-dia e das pessoas com quem se cruza. Lamenta-se e resmunga, zanga-se e chora. Mas continua com um pé no Ganges e outro em Chiang Ma e nos seus sonhos acende lanternas para que elas lhe iluminem a vida e solta-as para os céus como quem liberta os problemas. O Universo resolve. Resolve sempre. Ela acredita. E o próximo ano será de certeza muito melhor.
Coração partido
Se te partem o coração em mil pedaços, aproveita para repartir os bocados por aqueles que mais o necessitem.
Friday, 25 December 2015
É Natal outra vez. O Teu aniversário.
Ensinaram-me que nasceste um pobrezinho, numa manjedoura cheia de palha e que com essa humilde entrada no mundo nos trouxeste a salvação. Ensinaram-me também que o Teu Pai, por mais que gostasse de Ti, gostava ainda mais de nós, porque permitiu que 33 anos mais tarde fosses crucificado em praça pública, depois de passares pela humilhação de carregares a Tua própria cruz por entre o povo que festejava alegremente a Páscoa e tudo isso, para nos resgatares do pecado.
Ensinaram-me também que o Teu Pai não é lá muito “boa pessoa”, porque é egocêntrico e exige de nós contemplação e adoração diária, é caprichoso e picuinhas, quer tudo à sua maneira e não gosta que se diga sequer o Seu nome. É ainda vingativo, porque nos castiga com o fogo eterno se não somos e fazemos o que Ele gosta e quer.
Hoje eu sei que o que me ensinaram não são senão disparates e que nem Tu eras um menino pobre nem as palhinhas em que nasceste fazem prova disso. O Teu pai, José , (que a Igreja insiste em não dizer que era José de Arimateia), era um nobre e só por isso tiveste depois acesso ao Sinédrio e ao que por lá se ensinava. Os pobres não tinham acesso à educação, nem tinham direito a túmulos, como tu tiveste quando morreste. Esses eram enterrados em valas comuns. As palhinhas em que nasceste, longe de significarem carência material, foram apenas circunstâncias do momento. Belém estava cheia de casais que vinham de todos os lados recensear os seus filhos homens, e por isso, não havia vagas nas poucas estalagens existentes na cidade. Mas isso leva a outra pergunta: o que faziam Maria e José em Belém para recensearem um bebé que ainda nem tinha nascido? Seria Tiago, teu futuro seguidor, cujo nome aparece gravado num túmulo em Jerusalém com a inscrição: “ Aqui está Tiago, irmão de Jesus de Nazaré”? É óbvio que havia um irmãozinho mais velho, que agora nunca aparece nas figurinhas do presépio. E esse detalhe, como bem sabes, desmonta a teoria de que a Senhora tua Mãe era Virgem.
Hoje também sei que o teu percurso em nada se deveu aos desígnios do Pai. Foi um percurso que escolheste. Tal como eu escolho o meu.
Eras um menino rico e rebelde, tinhas influência sobre os teus pares, sabias ler e escrever, porque ao contrário de quase todos os teus seguidores, havias aprendido a ler pergaminhos e a escrever neles e tinhas ainda o dom da palavra. Eras um bom orador. Em suma, não foste muito diferente de alguns dos nossos meninos jotas, os que andam nas faculdades e nas oratórias partidárias. Com a diferença que nunca te vendeste e firmemente até ao fim, defendeste aquilo em que acreditavas. Mesmo pagando caro por essa demonstração de “espinha”.
Hoje, por mais bonitas que sejam as mensagens, elas morrem logo que resvalam contra um obstáculo, mesmo que pequeno, ou pior, contra uma ambição. E assim se matam os ideais, coisa que Tu não sabes como se faz.
Arrastaste multidões atrás de ti. A tanta gente farta da submissão a Roma, cresciam-lhes nos corações a esperança de dias melhores como na barriga das mães, lhes crescem os filhos. Foste sem dúvida um homem excepcional no teu tempo. O menino rico e rebelde, que teve oportunidades tão díspares dos seus conterrâneos. Estudaste, viajaste, enriqueceste culturalmente de uma forma que se agigantou perante a ignorância dos que te ouviam. E dessa sapiência brotaram tantas mensagens magníficas, que ficaram até hoje nas bocas de tantos e nos corações de tão poucos. Usaste a maravilhosa bênção da abundância material para o melhor que há neste mundo: Aprender. É uma pena que embora nunca tenhamos esquecido muitas das tuas mensagens também nunca lhes descobrimos o real significado. Quando dizias: “ Porque não acreditas, se te basta acreditar? “ e “ Vós sois Deuses”, não brincavas com as palavras, mas ao contrário, dizias claramente que esse Pai vingativo e picuinhas não existe senão nas estórias que contamos uns aos outros para nos manipularmos mutuamente. Eu depois também aprendi isso. Aprendi-o após vários anos a tentar imaginar-te a percorrer a Judeia de lés-a-lés, e de tentar perceber porque raio replicavas Tu tantas situações antes descritas noutros livros sagrados, bem anteriores ao teu nascimento. Claro que depois compreendi o óbvio: Aprendeste, pois claro! Tiveste acesso a tanto conhecimento durante os anos (aqueles entre os 12 e os 32 anos), que ninguém sabe onde estiveste. Há relatos de que terás estado no Iraque, na Índia, e noutros pontos do mundo, inclusive a Grécia.
Li há uns anos um livro interessante que dava conta de uma teoria mais interessante ainda. Pedro terá sido o Teu verdadeiro traidor, pois era um mero pescador invejoso que mesmo sendo analfabeto, não suportava que fosses Tu o centro das atenções. Então, denunciou-Te e culpou Judas, Teu amigo mais leal. Depois da Tua morte, conseguiu o que quis e foi para Roma fundar a Igreja que hoje se diz fiel à Tua palavra. Conta lá, foi assim, não foi? Confesso que adorava conhecer o conteúdo dos Evangelhos não incluídos na bíblia durante o Concílio de Nicéia. E porque foram escondidos nas grutas de Qûmran no Mar Morto. O que sei, é que nunca se esconde nada que não seja importante.
Acredito que um dia, as Tuas palavras serão finalmente claras para nós. Sem códigos, criptografias ou truques de água e limão para fazer aparecer as frases sobre a chama de uma vela. Um dia, saberemos todos que foste um Homem e que por teres sido um Homem eras filho de Deus, como nós o somos, extensões dessa Energia magnífica que se expandiu por tudo o quanto existe e virá a existir. Mais do que sermos D’Ele, somos Ele. Tal como Tu, ainda que ao contrário de Ti não sejamos capazes de acreditar em tal prestígio porque nos menosprezamos. Porque nos detestamos. Porque nos temos em tão baixa conta que não nos parece possível que criaturas como nós possam ser elas próprias… Deuses. Fazedores dos seus destinos, comandantes dos seus próprios barcos. Faz-nos tanta falta o Amor-Próprio!
Sabes que depois ainda aprendi que estamos cá sim, como extensões do Pai, essa Energia Criadora, para experienciamos a matéria? Eu acredito nisso. E é por isso que acho que devemos ser o mais felizes que pudermos. Que não se desperdice a vida fazendo o que não se gosta e se tiver que ser, que seja o mínimo de tempo possível. Que não se desperdice a vida sendo à imagem e semelhança daquele Deus que afinal nem existe. O Deus rezingão, vingativo, egocêntrico, picuinhas e maníaco. Que se leve a Deus, que é o mesmo que dizer, que levemos a nós mesmos a melhor das experiências nesta Terra. Que se leve pois a Deus, o amor; a paz; a saúde; a alegria; a abundância, que é o mesmo que dizer: que levemos o melhor do melhor a nós mesmos. Todas estas coisas são de Deus, que é o mesmo que dizer: Todas estas coisas são nossas. Foi isto que nos ensinaste há dois milénios, não foi? Serão talvez precisos mais dois para o aprendermos.
É Natal outra vez. O teu aniversário. Onde estiveres, Parabéns, Jesus!
Wednesday, 9 December 2015
Passatempo de Natal
Caros amigos e leitores, tenho para oferecer como presente de Natal um exemplar do meu livro " A Guardiã-O Livro de Jade do Céu". Para o conseguir basta seguir as seguintes regras: Clicar em "GOSTO" na minha página de autora, deixar nos comentários um breve resumo do que acha que trata o livro, notificar 3 amigos e partilhar em modo público na página pessoal. O vencedor será escolhido aleatoriamente pelo Random.Org no próximo dia 17 de Dezembro à meia -noite. Vamos a isso? Boas Festas!
smile emoticon
Eis o link da minha página no facebook:
https://www.facebook.com/Ana-Cristina-Pinto-877680248938520/
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Das paixões...
'As paixões arrebatadas são como os vinhos de melhores castas: primeiro alegram, depois embriagam, no fim azedam'
(Mário Zambujal)
(Mário Zambujal)
Sunday, 15 November 2015
Olho por olho e dente por dente
Estou solidária com o povo francês. Lamento as suas perdas. Mas permitam-me soltar um palavrão em forma de asteriscos (para não chocar ninguém)...um enorme *****!...imaginem qualquer um. Qualquer palavrão, daqueles horrendos, obscenos, que uma senhora não deve dizer, mas diz- eu digo-, quanto mais não seja quando entalo um dedo numa porta.
É sobretudo um palavrão de protesto pelas decisões politicas que têm preços demasiado elevados e que se pagam com vidas. É um palavrão pelas vítimas no Iraque, é um palavrão pelas vítimas na Líbia, é um palavrão pelas vítimas na Síria. É um palavrão pelas mortes de Sadam e de Kadaffi, que ditadores ou não, controlavam os radicais islamicos. Mas este palavrão é sobretudo de revolta com o capitalismo que domina o Ocidente e escraviza o Oriente. Que se lixem os Bushs, os Hollandes, os Obamas, os senhores da guerra, vendilhões do templo, o templo que é ou devia de ser a nossa paz, porque temos direito a ela.
É óbvio, que há por nós, ocidentais, uma raiva escondida no coração de cada muçulmano, seja ele radical ou não. Claro que há! Seja ele refugiado ou não. Claro que há!Como poderia não haver? Nós semeámos o caos nos territórios deles. Levamos-lhes a fome, a morte e a miséria. Obrigámos aquela gente a pedir exílio aos seus carrascos,aos que lhes bombardearam as casas e mataram os filhos. Podemos esperar o quê de quem tudo perdeu por nossa causa?
Queremos agora ser bonzinhos dando-lhes guarida? Um palavrão também para a nossa solidariedadezinha hipócrita! Que se chorem agora e uma vez mais as vítimas de Paris. Ainda vamos chorar mais. Acredito que muito mais. Mas que se tenha bem a noção de que estamos a pagar vida por vida ( olho por olho e dente por dente), todas as que tirámos e pelas quais nunca chorámos.
É sobretudo um palavrão de protesto pelas decisões politicas que têm preços demasiado elevados e que se pagam com vidas. É um palavrão pelas vítimas no Iraque, é um palavrão pelas vítimas na Líbia, é um palavrão pelas vítimas na Síria. É um palavrão pelas mortes de Sadam e de Kadaffi, que ditadores ou não, controlavam os radicais islamicos. Mas este palavrão é sobretudo de revolta com o capitalismo que domina o Ocidente e escraviza o Oriente. Que se lixem os Bushs, os Hollandes, os Obamas, os senhores da guerra, vendilhões do templo, o templo que é ou devia de ser a nossa paz, porque temos direito a ela.
É óbvio, que há por nós, ocidentais, uma raiva escondida no coração de cada muçulmano, seja ele radical ou não. Claro que há! Seja ele refugiado ou não. Claro que há!Como poderia não haver? Nós semeámos o caos nos territórios deles. Levamos-lhes a fome, a morte e a miséria. Obrigámos aquela gente a pedir exílio aos seus carrascos,aos que lhes bombardearam as casas e mataram os filhos. Podemos esperar o quê de quem tudo perdeu por nossa causa?
Queremos agora ser bonzinhos dando-lhes guarida? Um palavrão também para a nossa solidariedadezinha hipócrita! Que se chorem agora e uma vez mais as vítimas de Paris. Ainda vamos chorar mais. Acredito que muito mais. Mas que se tenha bem a noção de que estamos a pagar vida por vida ( olho por olho e dente por dente), todas as que tirámos e pelas quais nunca chorámos.
Paris - 13-11-2015- A Medida do Sofrimento
Ana Cristina Pinto
O sofrimento pode medir-se?
Ainda ontem, depois de mais uma visita aos meus pais, comentava com o meu filho como uma boa dose de desumanização ou inconsciência sobre o valor real da vida, sobretudo da vida daqueles que amamos, nos pode ajudar a manter-nos à superfície dos “ tsunamis” que nos apanham quase sempre desprevenidos.
Revi uma mulher, vizinha já de certa idade, que deu à luz uma prole que só as mulheres de antigamente ousavam dar. 11 filhos. Apenas 4 deles estão vivos. Todos os outros deixaram esta vida cedo demais, a maioria ainda bebés que não tiveram tempo para assistir às vagas de terror que hoje varrem o mundo. Foram eles os baldões gigantescos de desgosto e sofrimento, para a mulher que os gerou e pariu. Agora, quando vejo a Alice a rir-se de tudo e de nada, quando a ouço gargalhar, mostrando sem pudor a boca desdentada, entregue às piadas rasas e vazias que a enchem de um alegre frenesim, pergunto-me se ela alguma vez amou os seus filhos, os seus filhos mortos, porque eu, -penso para os meus botões - se fosse eu a viver tamanhas desgraças enlouqueceria e ficaria para sempre irremediavelmente infeliz e demente, como uma casca de noz à deriva.
Hoje a França perdeu mais de uma centena dos seus filhos e percebo que muitos se sentem cascas de noz à deriva. E penso que para nos sentirmos assim, nós que nem somos franceses, e todos os que o são, sentem-no porque ainda mantemos viva essa tal consciência do valor real da vida. E isso não nos facilita em nada a tarefa de nos mantermos à superfície quando apanhados pelas enxurradas da desgraça.
Se pudéssemos medir o sofrimento, eu diria que existem -na minha particular concepção do sofrimento humano-, dois tipos do mesmo. O grande sofrimento, aquele que vem de rompante, quando menos o esperamos e nos obriga a reavaliar tudo e a observar a vida sobre novas perspectivas e o pequeno mas constante sofrimento, que nos corrói diariamente como uma moínha, uma dor crónica que nos acompanha sempre e à qual nos acostumamos. Neste segundo grupo, estamos em certa medida, todos incluídos. Nós que com a frequência com que comemos, bebemos e dormimos, também nos lastimamos de tudo e mais alguma coisa: O emprego que vai mal, o chefe que é exigente, o patrão que não paga, o dinheiro que é escasso, as contas que não param de aumentar, os sonhos que todos os dias adiamos por mais um dia, mais um mês, mais um ano. E neste mesmo grupo estão também os outros. Aqueles que volta e meia têm a vida “virada de pernas para o ar” de forma violenta, inesperada, arbitrária. Este é o sofrimento que a Alice não conhece, porque apesar de ter sofrido as maiores perdas - os próprios filhos-, a sua vida simples e unívoca tendo como único foco o sustento para o dia-a-dia, não mais que isso, nunca a levou a questionar-se ou a revoltar-se com a vida ou com Deus que tão injustamente lhe tirou tantos descendentes. Ela não tinha tempo para isso. No dia seguinte era preciso de novo amassar o pão e cuidar de que o básico, o mais básico, não faltasse aos que, sangues do seu sangue ainda respiravam neste mundo. Pois que então, na minha particular percepção do sofrimento humano, entendo que apenas um grande sofrimento tem o poder de nos regenerar. Porque nos abala com tal força que nos recicla. Humaniza. Ou re-humaniza. E assim lembro-me da Fénix que das cinzas volta à vida, renovada.
Talvez seja tempo de deixarmos de ser as “Alices” deste mundo para passarmos a ser pessoas, humanos de H grande, despertos e conscientes do valor real da vida. As grandes guerras; os Setembros Negros; os conflitos no Médio Oriente; Faixa de Gaza; Chernobyl; Madrid; a mortandade em África; Charlie Hebdo; Paris; os botes do mar Egeu; os pedidos de socorro que nos chegam através do próprio planeta… Todo o universo conspira para nos exigir essa mudança. Do que estamos à espera se é da Vida, da nossa Vida que falamos?
Ana Cristina Pinto
#anacristinapinto
O sofrimento pode medir-se?
Ainda ontem, depois de mais uma visita aos meus pais, comentava com o meu filho como uma boa dose de desumanização ou inconsciência sobre o valor real da vida, sobretudo da vida daqueles que amamos, nos pode ajudar a manter-nos à superfície dos “ tsunamis” que nos apanham quase sempre desprevenidos.
Revi uma mulher, vizinha já de certa idade, que deu à luz uma prole que só as mulheres de antigamente ousavam dar. 11 filhos. Apenas 4 deles estão vivos. Todos os outros deixaram esta vida cedo demais, a maioria ainda bebés que não tiveram tempo para assistir às vagas de terror que hoje varrem o mundo. Foram eles os baldões gigantescos de desgosto e sofrimento, para a mulher que os gerou e pariu. Agora, quando vejo a Alice a rir-se de tudo e de nada, quando a ouço gargalhar, mostrando sem pudor a boca desdentada, entregue às piadas rasas e vazias que a enchem de um alegre frenesim, pergunto-me se ela alguma vez amou os seus filhos, os seus filhos mortos, porque eu, -penso para os meus botões - se fosse eu a viver tamanhas desgraças enlouqueceria e ficaria para sempre irremediavelmente infeliz e demente, como uma casca de noz à deriva.
Hoje a França perdeu mais de uma centena dos seus filhos e percebo que muitos se sentem cascas de noz à deriva. E penso que para nos sentirmos assim, nós que nem somos franceses, e todos os que o são, sentem-no porque ainda mantemos viva essa tal consciência do valor real da vida. E isso não nos facilita em nada a tarefa de nos mantermos à superfície quando apanhados pelas enxurradas da desgraça.
Se pudéssemos medir o sofrimento, eu diria que existem -na minha particular concepção do sofrimento humano-, dois tipos do mesmo. O grande sofrimento, aquele que vem de rompante, quando menos o esperamos e nos obriga a reavaliar tudo e a observar a vida sobre novas perspectivas e o pequeno mas constante sofrimento, que nos corrói diariamente como uma moínha, uma dor crónica que nos acompanha sempre e à qual nos acostumamos. Neste segundo grupo, estamos em certa medida, todos incluídos. Nós que com a frequência com que comemos, bebemos e dormimos, também nos lastimamos de tudo e mais alguma coisa: O emprego que vai mal, o chefe que é exigente, o patrão que não paga, o dinheiro que é escasso, as contas que não param de aumentar, os sonhos que todos os dias adiamos por mais um dia, mais um mês, mais um ano. E neste mesmo grupo estão também os outros. Aqueles que volta e meia têm a vida “virada de pernas para o ar” de forma violenta, inesperada, arbitrária. Este é o sofrimento que a Alice não conhece, porque apesar de ter sofrido as maiores perdas - os próprios filhos-, a sua vida simples e unívoca tendo como único foco o sustento para o dia-a-dia, não mais que isso, nunca a levou a questionar-se ou a revoltar-se com a vida ou com Deus que tão injustamente lhe tirou tantos descendentes. Ela não tinha tempo para isso. No dia seguinte era preciso de novo amassar o pão e cuidar de que o básico, o mais básico, não faltasse aos que, sangues do seu sangue ainda respiravam neste mundo. Pois que então, na minha particular percepção do sofrimento humano, entendo que apenas um grande sofrimento tem o poder de nos regenerar. Porque nos abala com tal força que nos recicla. Humaniza. Ou re-humaniza. E assim lembro-me da Fénix que das cinzas volta à vida, renovada.
Talvez seja tempo de deixarmos de ser as “Alices” deste mundo para passarmos a ser pessoas, humanos de H grande, despertos e conscientes do valor real da vida. As grandes guerras; os Setembros Negros; os conflitos no Médio Oriente; Faixa de Gaza; Chernobyl; Madrid; a mortandade em África; Charlie Hebdo; Paris; os botes do mar Egeu; os pedidos de socorro que nos chegam através do próprio planeta… Todo o universo conspira para nos exigir essa mudança. Do que estamos à espera se é da Vida, da nossa Vida que falamos?
Ana Cristina Pinto
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