Thursday, 10 March 2016

O Canto das Sereias

Queria deixar de gostar de ti. 
Extrair da minha pele as marcas perenes das tuas mãos e ser capaz de me esquivar desta loucura silenciosa que se enclausurou aqui dentro. 
Não sei se sabes, mas a minha saudade é intermitente. Chata. É uma raiva insustida que tem sede do teu beijo e viaja melancólica no tempo até àquele momento preciso em que a tua voz ecoava nos meus ouvidos. Hoje queria-te diferente, sabes? Não esta ferida incómoda que não sara, esta incisão aberta a segregar o pus da tua ausência. Não me posso arrancar os membros um a um até que me esvaia em sangue para me esvair de ti. Nem tão pouco me posso deixar vencer pelo cansaço nem pelos rancores nauseantes que as milhas entre nós me fazem percorrer. 
Queria, era aparecer-te linda, ciente dos pormenores de que não abdicas: saltos altos e rendas nas lingeries que ainda guardo para ti no fundo da gaveta. Queria abrir-te as pernas e o coração para que te alojasses sem pompa nem circunstância, com pleno direito de usufruto por toda uma vida, para além da vida. 
Queria voltar a sentir-te o toque, as tuas mãos a roubarem-me a roupa com brutalidade e os teus olhos a derramarem ternura pelos cantos. 

Quantas vezes nos magoámos e levámos em braços? Quantas? E quantas vezes nos demos colo enquanto nos espetávamos brutalmente nas costas, objectos longos e perfurantes que as nossas palavras materializavam? 
Quantas vezes sem nos matarmos, lutámos em batalhas sangrentas só para que nunca deixássemos de nos cheirar, para que os nossos sentidos se mantivessem alerta, um na direcção do outro, sempre? 

Tive dias em que desejei infundir-te desespero, provocar-te lágrimas e feridas só para que viesses depois até mim para que eu as lambesse. E tu, sei-o bem, tiveste dias em que me querias longe e ainda mais me querias perto, à mercê dos teus pés, das tuas mãos, da tua loucura e devaneios constantes. Tiveste dias de ciúme e desvario a imaginar-me com todos só para teres motivos válidos para me arrasares. Eu enrolava-me a um canto como um bicho, consumida pela culpa, arrependida dos sinais, dos fumos, dos morses, das malditas palavras mal conjugadas, mal pensadas, mal… ditas. Adeus, fins e despedidas… tantas que nos afogámos no lamaçal do sofrimento, caímos no abismo da distância. 

Queríamos ter a certeza de que nunca seríamos felizes e esfregámos essa fé na cara um do outro enquanto nos pegávamos nas mãos e passeávamos, insuspeitos assassinos do amor que nos unia. Se, era isto que queríamos, digo, o querermos e não termos, a última deixa, o último acto, o cair do pano, a machadada final na única árvore do bosque… Porque é que desde então, intercalamos risos cínicos com gotas de fel e sal que brotam dos breves instantes em que deixamos ecoar na nossa estupefacção a palavra maldita que nos enfraquece os joelhos? 
Sim, é verdade que me convenço que é tua a disfuncionalidade e que a plantaste em mim como uma semente negra, uma bolha prestes a rebentar, um vírus rápido e mortal. Mas existe a tal palavra maldita que me enfraquece os joelhos. E quando ela ecoa, quando ela me escapa sorrateira e se mistura com tudo o resto que sempre te quis dizer, mas não disse, quando ela manhosa, se evade do ardil em que se esconde e se infiltra subtilmente no emaranhado das minhas cordas vocais, eu volto a enrolar-me a um canto como um bicho, volto a consumir-me pela culpa e a perguntar-me, porque é que não te mando agora sinais. 
Os fumos e os morses, os cantos das sereias, uma sms apenas, onde a palavra maldita estivesse presente: Amo-te.

Escre(vi)ver

Não sei se escrevo por gosto, necessidade ou se por vaidade. 
Talvez o faça por todos esses motivos e outros que não fui ainda capaz de descortinar. Acima de tudo, acho que escrevo para me esvaziar. É a minha forma (quem sabe?) de me ir matando aos poucos como se de um golpe na ulnar se fizesse a escrita e o meu sangue jorra-se criando frases com os meus fluídos, textos com as minhas vísceras e livros inteiros com várias partes do meu corpo.

 Descarto-me assim de coisas minhas que já não quero a morar em mim. Histórias grandes, extensas, complexas, cenários, personagens que vivem através de mim o que me cabe apenas imaginar. Crio universos que dependem do meu punho para que não fiquem eternamente desabitados. Escrevo realidades e misturo-as com sonhos, quimeras, mundos apocalípticos, renascidos, que me soam ao canto das sereias e me desafiam a viver neles. 

Escrevo sobre a folhagem seca que cobre os caminhos do Parque no inicio do Outono, sobre a escalada íngreme até ao cume do Atlas, a cordilheira dos Andes e o voo dos condores, o calor sufocante do Alentejo, a bela Liége e os seus aquedutos, os assobios do vento nos temporais, os gritos contidos nos velórios, as manhãs cobertas de nevoeiro, a ponte a serpentear sobre o Tejo, a minha India tão linda, tão colorida, o meu amor hindu, a minha Goa, a minha Varanasi, a minha…vida. 

Escreverei outra vez um livro. Outro que me obrigue a renascer nele. Um outro que tenha uma capa resistente ao descuido das mãos, orelhas com a minha biografia, a minha foto a preto e branco a fugir os olhos à objectiva. Escreverei um livro cujas páginas sejam almas de criaturas vivas e as letras bem visíveis terão notas de rodapé a bold, como prenúncios do luto na última página. 
Quando olho para o meu livro, (aquele que já escrevi),no meio de todos os outros na minha estante, vejo um pequeno livro de folhas brancas. 
Todos os outros têm folhas amarelas, um amarelo velho, quase fazendo parecer que as suas páginas são sujas, encardidas por dedos que os folhearam, virando as páginas uma a uma. Encardidos pelo pó acumulado dos anos. 
O meu não. O meu livro tem letras pretas em páginas brancas que me fazem lembrar mosquitos mortos sobre a neve. O meu livro branco imaculado, parece intocado, nunca lido. Escreverei outro livro. Um de páginas encardidas. Nunca mais quero escrever um livro branco.


Tuesday, 29 December 2015

Para iluminar 2016


Nas viagens que faço ao meu passado encontro muitas vezes uma miúda magricela com a pele muito morena a fingir que fala inglês com os turistas que se passeiam em S.Martinho do Porto. A miúda come gelado “Epá”, sempre na expectativa da última colherada que a recompensa com uma pastilha elástica em forma de berlinde, e volta e meia sai da areia onde já fez buracos, construiu castelos e escondeu todas as conchas que encontrou (os seus tesouros) e vai dar umas braçadas na baía, mesmo antes da hora do lanche (pão com marmelada e um Caprisone). Enquanto a madrinha toma café, a seguir ao almoço, a miúda lê livrinhos de banda desenhada e os infantis ( Ruy, o pequeno Cid e a Heidi), depois saltita até ao parque infantil e diverte-se no baloiço e no escorrega ( os seus preferidos). 
Tento perceber que tipo de sonhos a miúda acalenta, o que quer ela para o futuro, mas constato que a miúda é muito feliz a ler e a falar com os turistas, de quem quer saber muito, quer saber tudo, e chego à conclusão que a miúda gostaria mesmo era de viajar, pôr mochilas às costas e quem sabe, ter uma daquelas carrinhas pão-de-forma para percorrer o mundo inteiro ou pelo menos a Europa. 
A miúda queria coisas bem simples afinal. Livros e viagens. 
Entretanto, pelo que sei, a miúda cresceu, casou e teve filhos.Trabalhou em rádios e abraçou o jornalismo, desiludiu-se e descasou, deixou o marido, as rádios e o jornalismo, depois percebeu que não havia mais nada de que gostasse tanto e voltou às rádios e ao jornalismo, (mas não ao marido), e acrescentou músicas e mais livros e mais amores e um monte de dias e noites preenchidas pelos maiores Amores de todos : Os filhos. Hoje a miúda já não fala tanto com os turistas, mas fala inglês, às vezes atrapalha-se e reaprende, acrescentou ainda mais livros incluindo os seus próprios, acrescentou ainda mais músicas que ela própria cantou, e somou ainda mais filhos: três patudos que ela adora e trata com o mesmo carinho que dá às crianças porque são crianças que vê a correr pela casa e não um cão e dois gatos. 
Nunca assistiu a um Diwali ou um Durga Puja na Índia, nem tão pouco se emocionou “in loco” com o maravilhoso Yi Peng, na Tailândia, mas percorre todas as distâncias do mundo nos livros que lê e escreve. Às vezes a vida parece-lhe agreste demais e também demasiado disposta a roubar-lhe os sonhos. Para o sustento faz o que não gosta, lida com a mediocridade do dia-a-dia e das pessoas com quem se cruza. Lamenta-se e resmunga, zanga-se e chora. Mas continua com um pé no Ganges e outro em Chiang Ma e nos seus sonhos acende lanternas para que elas lhe iluminem a vida e solta-as para os céus como quem liberta os problemas. O Universo resolve. Resolve sempre. Ela acredita. E o próximo ano será de certeza muito melhor.


Coração partido

Se te partem o coração em mil pedaços, aproveita para repartir os bocados por aqueles que mais o necessitem.


Friday, 25 December 2015

É Natal outra vez. O Teu aniversário.

Ensinaram-me que nasceste um pobrezinho, numa manjedoura cheia de palha e que com essa humilde entrada no mundo nos trouxeste a salvação. Ensinaram-me também que o Teu Pai, por mais que gostasse de Ti, gostava ainda mais de nós, porque permitiu que 33 anos mais tarde fosses crucificado em praça pública, depois de passares pela humilhação de carregares a Tua própria cruz por entre o povo que festejava alegremente a Páscoa e tudo isso, para nos resgatares do pecado.
Ensinaram-me também que o Teu Pai não é lá muito “boa pessoa”, porque é egocêntrico e exige de nós contemplação e adoração diária, é caprichoso e picuinhas, quer tudo à sua maneira e não gosta que se diga sequer o Seu nome. É ainda vingativo, porque nos castiga com o fogo eterno se não somos e fazemos o que Ele gosta e quer.
Hoje eu sei que o que me ensinaram não são senão disparates e que nem Tu eras um menino pobre nem as palhinhas em que nasceste fazem prova disso. O Teu pai, José , (que a Igreja insiste em não dizer que era José de Arimateia), era um nobre e só por isso tiveste depois acesso ao Sinédrio e ao que por lá se ensinava. Os pobres não tinham acesso à educação, nem tinham direito a túmulos, como tu tiveste quando morreste. Esses eram enterrados em valas comuns. As palhinhas em que nasceste, longe de significarem carência material, foram apenas circunstâncias do momento. Belém estava cheia de casais que vinham de todos os lados recensear os seus filhos homens, e por isso, não havia vagas nas poucas estalagens existentes na cidade. Mas isso leva a outra pergunta: o que faziam Maria e José em Belém para recensearem um bebé que ainda nem tinha nascido? Seria Tiago, teu futuro seguidor, cujo nome aparece gravado num túmulo em Jerusalém com a inscrição: “ Aqui está Tiago, irmão de Jesus de Nazaré”? É óbvio que havia um irmãozinho mais velho, que agora nunca aparece nas figurinhas do presépio. E esse detalhe, como bem sabes, desmonta a teoria de que a Senhora tua Mãe era Virgem.
Hoje também sei que o teu percurso em nada se deveu aos desígnios do Pai. Foi um percurso que escolheste. Tal como eu escolho o meu. 
Eras um menino rico e rebelde, tinhas influência sobre os teus pares, sabias ler e escrever, porque ao contrário de quase todos os teus seguidores, havias aprendido a ler pergaminhos e a escrever neles e tinhas ainda o dom da palavra. Eras um bom orador. Em suma, não foste muito diferente de alguns dos nossos meninos jotas, os que andam nas faculdades e nas oratórias partidárias. Com a diferença que nunca te vendeste e firmemente até ao fim, defendeste aquilo em que acreditavas. Mesmo pagando caro por essa demonstração de “espinha”. 
Hoje, por mais bonitas que sejam as mensagens, elas morrem logo que resvalam contra um obstáculo, mesmo que pequeno, ou pior, contra uma ambição. E assim se matam os ideais, coisa que Tu não sabes como se faz. 
Arrastaste multidões atrás de ti. A tanta gente farta da submissão a Roma, cresciam-lhes nos corações a esperança de dias melhores como na barriga das mães, lhes crescem os filhos. Foste sem dúvida um homem excepcional no teu tempo. O menino rico e rebelde, que teve oportunidades tão díspares dos seus conterrâneos. Estudaste, viajaste, enriqueceste culturalmente de uma forma que se agigantou perante a ignorância dos que te ouviam. E dessa sapiência brotaram tantas mensagens magníficas, que ficaram até hoje nas bocas de tantos e nos corações de tão poucos. Usaste a maravilhosa bênção da abundância material para o melhor que há neste mundo: Aprender. É uma pena que embora nunca tenhamos esquecido muitas das tuas mensagens também nunca lhes descobrimos o real significado. Quando dizias: “ Porque não acreditas, se te basta acreditar? “ e “ Vós sois Deuses”, não brincavas com as palavras, mas ao contrário, dizias claramente que esse Pai vingativo e picuinhas não existe senão nas estórias que contamos uns aos outros para nos manipularmos mutuamente. Eu depois também aprendi isso. Aprendi-o após vários anos a tentar imaginar-te a percorrer a Judeia de lés-a-lés, e de tentar perceber porque raio replicavas Tu tantas situações antes descritas noutros livros sagrados, bem anteriores ao teu nascimento. Claro que depois compreendi o óbvio: Aprendeste, pois claro! Tiveste acesso a tanto conhecimento durante os anos (aqueles entre os 12 e os 32 anos), que ninguém sabe onde estiveste. Há relatos de que terás estado no Iraque, na Índia, e noutros pontos do mundo, inclusive a Grécia. 
Li há uns anos um livro interessante que dava conta de uma teoria mais interessante ainda. Pedro terá sido o Teu verdadeiro traidor, pois era um mero pescador invejoso que mesmo sendo analfabeto, não suportava que fosses Tu o centro das atenções. Então, denunciou-Te e culpou Judas, Teu amigo mais leal. Depois da Tua morte, conseguiu o que quis e foi para Roma fundar a Igreja que hoje se diz fiel à Tua palavra. Conta lá, foi assim, não foi? Confesso que adorava conhecer o conteúdo dos Evangelhos não incluídos na bíblia durante o Concílio de Nicéia. E porque foram escondidos nas grutas de Qûmran no Mar Morto. O que sei, é que nunca se esconde nada que não seja importante.
Acredito que um dia, as Tuas palavras serão finalmente claras para nós. Sem códigos, criptografias ou truques de água e limão para fazer aparecer as frases sobre a chama de uma vela. Um dia, saberemos todos que foste um Homem e que por teres sido um Homem eras filho de Deus, como nós o somos, extensões dessa Energia magnífica que se expandiu por tudo o quanto existe e virá a existir. Mais do que sermos D’Ele, somos Ele. Tal como Tu, ainda que ao contrário de Ti não sejamos capazes de acreditar em tal prestígio porque nos menosprezamos. Porque nos detestamos. Porque nos temos em tão baixa conta que não nos parece possível que criaturas como nós possam ser elas próprias… Deuses. Fazedores dos seus destinos, comandantes dos seus próprios barcos. Faz-nos tanta falta o Amor-Próprio!
Sabes que depois ainda aprendi que estamos cá sim, como extensões do Pai, essa Energia Criadora, para experienciamos a matéria? Eu acredito nisso. E é por isso que acho que devemos ser o mais felizes que pudermos. Que não se desperdice a vida fazendo o que não se gosta e se tiver que ser, que seja o mínimo de tempo possível. Que não se desperdice a vida sendo à imagem e semelhança daquele Deus que afinal nem existe. O Deus rezingão, vingativo, egocêntrico, picuinhas e maníaco. Que se leve a Deus, que é o mesmo que dizer, que levemos a nós mesmos a melhor das experiências nesta Terra. Que se leve pois a Deus, o amor; a paz; a saúde; a alegria; a abundância, que é o mesmo que dizer: que levemos o melhor do melhor a nós mesmos. Todas estas coisas são de Deus, que é o mesmo que dizer: Todas estas coisas são nossas. Foi isto que nos ensinaste há dois milénios, não foi? Serão talvez precisos mais dois para o aprendermos. 
É Natal outra vez. O teu aniversário. Onde estiveres, Parabéns, Jesus!


Wednesday, 9 December 2015

Passatempo de Natal

Caros amigos e leitores, tenho para oferecer como presente de Natal um exemplar do meu livro " A Guardiã-O Livro de Jade do Céu". Para o conseguir basta seguir as seguintes regras: Clicar em "GOSTO" na minha página de autora, deixar nos comentários um breve resumo do que acha que trata o livro, notificar 3 amigos e partilhar em modo público na página pessoal. O vencedor será escolhido aleatoriamente pelo Random.Org no próximo dia 17 de Dezembro à meia -noite. Vamos a isso? Boas Festas!
smile emoticon

Eis o link da minha página no facebook:
https://www.facebook.com/Ana-Cristina-Pinto-877680248938520/



Das paixões...

'As paixões arrebatadas são como os vinhos de melhores castas: primeiro alegram, depois embriagam, no fim azedam'
(Mário Zambujal)


Sunday, 15 November 2015

Olho por olho e dente por dente

Estou solidária com o povo francês. Lamento as suas perdas. Mas permitam-me soltar um palavrão em forma de asteriscos (para não chocar ninguém)...um enorme *****!...imaginem qualquer um. Qualquer palavrão, daqueles horrendos, obscenos, que uma senhora não deve dizer, mas diz- eu digo-, quanto mais não seja quando entalo um dedo numa porta.
É sobretudo um palavrão de protesto pelas decisões politicas que têm preços demasiado elevados e que se pagam com vidas. É um palavrão pelas vítimas no Iraque, é um palavrão pelas vítimas na Líbia, é um palavrão pelas vítimas na Síria. É um palavrão pelas mortes de Sadam e de Kadaffi, que ditadores ou não, controlavam os radicais islamicos. Mas este palavrão é sobretudo de revolta com o capitalismo que domina o Ocidente e escraviza o Oriente. Que se lixem os Bushs, os Hollandes, os Obamas, os senhores da guerra, vendilhões do templo, o templo que é ou devia de ser a nossa paz, porque temos direito a ela.
É óbvio, que há por nós, ocidentais, uma raiva escondida no coração de cada muçulmano, seja ele radical ou não. Claro que há! Seja ele refugiado ou não. Claro que há!Como poderia não haver? Nós semeámos o caos nos territórios deles. Levamos-lhes a fome, a morte e a miséria. Obrigámos aquela gente a pedir exílio aos seus carrascos,aos que lhes bombardearam as casas e mataram os filhos. Podemos esperar o quê de quem tudo perdeu por nossa causa?
Queremos agora ser bonzinhos dando-lhes guarida? Um palavrão também para a nossa solidariedadezinha hipócrita! Que se chorem agora e uma vez mais as vítimas de Paris. Ainda vamos chorar mais. Acredito que muito mais. Mas que se tenha bem a noção de que estamos a pagar vida por vida ( olho por olho e dente por dente), todas as que tirámos e pelas quais nunca chorámos.

Paris - 13-11-2015- A Medida do Sofrimento


Ana Cristina Pinto
23 hEditado


O sofrimento pode medir-se?

Ainda ontem, depois de mais uma visita aos meus pais, comentava com o meu filho como uma boa dose de desumanização ou inconsciência sobre o valor real da vida, sobretudo da vida daqueles que amamos, nos pode ajudar a manter-nos à superfície dos “ tsunamis” que nos apanham quase sempre desprevenidos.
Revi uma mulher, vizinha já de certa idade, que deu à luz uma prole que só as mulheres de antigamente ousavam dar. 11 filhos. Apenas 4 deles estão vivos. Todos os outros deixaram esta vida cedo demais, a maioria ainda bebés que não tiveram tempo para assistir às vagas de terror que hoje varrem o mundo. Foram eles os baldões gigantescos de desgosto e sofrimento, para a mulher que os gerou e pariu. Agora, quando vejo a Alice a rir-se de tudo e de nada, quando a ouço gargalhar, mostrando sem pudor a boca desdentada, entregue às piadas rasas e vazias que a enchem de um alegre frenesim, pergunto-me se ela alguma vez amou os seus filhos, os seus filhos mortos, porque eu, -penso para os meus botões - se fosse eu a viver tamanhas desgraças enlouqueceria e ficaria para sempre irremediavelmente infeliz e demente, como uma casca de noz à deriva.
Hoje a França perdeu mais de uma centena dos seus filhos e percebo que muitos se sentem cascas de noz à deriva. E penso que para nos sentirmos assim, nós que nem somos franceses, e todos os que o são, sentem-no porque ainda mantemos viva essa tal consciência do valor real da vida. E isso não nos facilita em nada a tarefa de nos mantermos à superfície quando apanhados pelas enxurradas da desgraça.
Se pudéssemos medir o sofrimento, eu diria que existem -na minha particular concepção do sofrimento humano-, dois tipos do mesmo. O grande sofrimento, aquele que vem de rompante, quando menos o esperamos e nos obriga a reavaliar tudo e a observar a vida sobre novas perspectivas e o pequeno mas constante sofrimento, que nos corrói diariamente como uma moínha, uma dor crónica que nos acompanha sempre e à qual nos acostumamos. Neste segundo grupo, estamos em certa medida, todos incluídos. Nós que com a frequência com que comemos, bebemos e dormimos, também nos lastimamos de tudo e mais alguma coisa: O emprego que vai mal, o chefe que é exigente, o patrão que não paga, o dinheiro que é escasso, as contas que não param de aumentar, os sonhos que todos os dias adiamos por mais um dia, mais um mês, mais um ano. E neste mesmo grupo estão também os outros. Aqueles que volta e meia têm a vida “virada de pernas para o ar” de forma violenta, inesperada, arbitrária. Este é o sofrimento que a Alice não conhece, porque apesar de ter sofrido as maiores perdas - os próprios filhos-, a sua vida simples e unívoca tendo como único foco o sustento para o dia-a-dia, não mais que isso, nunca a levou a questionar-se ou a revoltar-se com a vida ou com Deus que tão injustamente lhe tirou tantos descendentes. Ela não tinha tempo para isso. No dia seguinte era preciso de novo amassar o pão e cuidar de que o básico, o mais básico, não faltasse aos que, sangues do seu sangue ainda respiravam neste mundo. Pois que então, na minha particular percepção do sofrimento humano, entendo que apenas um grande sofrimento tem o poder de nos regenerar. Porque nos abala com tal força que nos recicla. Humaniza. Ou re-humaniza. E assim lembro-me da Fénix que das cinzas volta à vida, renovada.
Talvez seja tempo de deixarmos de ser as “Alices” deste mundo para passarmos a ser pessoas, humanos de H grande, despertos e conscientes do valor real da vida. As grandes guerras; os Setembros Negros; os conflitos no Médio Oriente; Faixa de Gaza; Chernobyl; Madrid; a mortandade em África; Charlie Hebdo; Paris; os botes do mar Egeu; os pedidos de socorro que nos chegam através do próprio planeta… Todo o universo conspira para nos exigir essa mudança. Do que estamos à espera se é da Vida, da nossa Vida que falamos?

Ana Cristina Pinto

‪#‎anacristinapinto‬

Friday, 23 October 2015

Shiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!!

Devia parar de escrever só para não me ler. Temo que as palavras se me escapem por entre os dedos, fujam a sete pés ou afluam à superfície; que se esgueirem por entre as brechas da minha desatenção e resolvam dizer-me o que quero esquecer. Por isso, por estes dias, tranco-as a sete chaves e alimento-as a pão e água nas minhas masmorras frias e escuras. Quero-as fracas, quebradiças e resignadas à sua sorte, para que não se amotinem nos ressaltos das minhas entranhas nem deslassem as amarras que tanto trabalho me deram a compor e onde me contenho a esforço. Devia parar de escrever para não me ler. Calar-me as letras: evitar as perífrases nas quais tendo a estender-me, contornar os sinónimos e repetir antónimos falsificados mas profícuos na minha análise de ti. É nos contrários que me assentam bem as letras e é neles que me revejo e faço de conta que se dispensam as correcções. Eu odeio-te, eu renuncio-te… eu minto-me, eu minto-me, eu minto-me…
Devia repelir os adjectivos, sujeitos e complementos, como pedintes que espreitam à socapa pelo óculo da porta. Devia desactivar-me temporariamente. Receio que tantas letras me persigam e matreiras, me fintem, me levem ao engano e me encantem, sereias, estendendo-me a mão, o ramo de oliveira, o cachimbo da paz, a outra face. Não quero que se me insinuem, nem que se dispam e rodopiem no varão da minha imaginação demente. Tenho medo do que possa encontrar de mim, nelas. Tenho medo de te encontrar em mim, nelas.

Thursday, 22 October 2015

Vai um café e um livro?

No próximo sábado à noite, vamos falar de livros? 
O evento vai decorrer no Pópulos (Parque D. Carlos I), Caldas da Rainha e conta com a presença de vários autores,de vários géneros literários.
Rui Calisto, Paulo Caiado, MBarreto Condado,Judite Carreira, Luis Ferreira e eu própria, vamos estar reunidos para falar do que se anda a ler em Portugal e do quanto se anda a ler em Portugal. 
A moderar este encontro de autores e leitores estará o jornalista Francisco Gomes.
O Café Literário está marcado para as 21.30. Apareçam e partilhem para que os vossos amigos também possam estar presentes.


Este dia vai ser mágico, não acham?



Para assinalar o Dia Das Bruxas, a Bee Dynamic Books vai levar vários autores do Fantástico ao Agrupamento de Escolas Fernão do Pó no Bombarral.

O dia mágico vai começar às 10 horas da manhã com as Oficinas da Escrita. As autoras MBarreto Condado e Ana Cristina Pinto, vão desafiar os alunos do secundário a escreverem textos muito criativos e...fantásticos. Os trabalhos serão apreciados por elementos do corpo docente, Câmara Municipal e DGES e os melhores serão premiados com exemplares dos livros "A Guardiã- O Livro de Jade do Céu" e ainda "Yggdrasil, Profecia do Sangue".


Para tornar este dia ainda ainda mais fantástico, não faltarão as sessões de cinema ( filmes que nasceram de livros do gênero Fantástico, claro!), e iguarias muito, muito saborosas, mas horríveis e medonhas, maravilhosamente confeccionadas pelos alunos da Escola de Hotelaria.

A partir das 14 horas o evento abre ao público e então poderemos assistir às apresentações de vários livros com a presença dos seus autores.

Ora vejam:

14.h- Filipe Faria - Crónicas de Allaryia

14.45- Susana C. Judice- Sonho de Liberum

15.30- César Alexandre - A Espada de Santa Maria

Depois, mais cinema e mais iguarias super criativas, pavorosas mas... deliciosas!

Consultem o cartaz e digam lá se este dia não vai ser mesmo, mesmo fantástico!


Não te importes, amor.

"Castelos, príncipes, borboletas. Vamos perdendo.
Dorme comigo. Agasalha-me as noites.
Imperfeito como ao amor convém
bebemos e falamos como se a vida fosse eterna.
Agora vou soletreando becos sem saída.
Não te importes amor.
Não te importes se estivermos ocupados
a arrumar os papéis ou desabotoar-me o vestido
porque resistimos à burocracia e ao cansaço.
Não te importes amor se hoje te amo tanto.
São horas. Levo a minha pele à rua.
Uma fome real de pão e do teu corpo.
É assim que se ama.
Contigo sinto "nós".
Com que alimento a imaginação?
É por isso que devemos saber escutar
o aroma da língua,
o coração
e os nossos beijos são a língua delirante do poema.
Não te importes amor."
[Rosa Alice Branco]



A Guardiã esteve no Fólio!

Aqui está uma óptima recordação da minha passagem pelo Folio.
Com Paulo Caiado, autor do livro Um Momento Meu.






Saturday, 26 September 2015

Este sábado....Cadaval :)

Já passa da meia noite,portanto já é dia de voltar às origens para apresentar A Guardiã, O Livro de Jade do Céu. Escusado será dizer que conto com a vossa presença. A quem estiver por perto fica o convite para passarem pela Biblioteca do Cadaval. Tenho amigos na zona que não vejo há anos. Aí está uma boa oportunidade para nos voltarmos a encontrar. :)


Tuesday, 22 September 2015

Às vezes...

"Às vezes, morrer de saudades é a única forma que encontramos de voltar à vida"
‪#‎anacristinapinto‬


"Preciso de escrever para me sentir viva."

A entrevista no Blog do FI.




Ana Cristina Pinto escreveu e publicou "A Guardiã - O livro de Jade do Céu" (editado este ano pela Capital Books). Depois de ler o seu livro, falei com a autora numa entrevista informal, onde até conversámos sobre cinema. 




- "A Guardiã" fala-nos de História, religião e ciência. Foi fácil conjugar estes três temas?


Antes de mais, obrigada pelo convite para falar da Guardiã no teu blog. Tenho a noção de que és um jovem escritor muito talentoso e promissor e por isso, para mim é uma honra aceitar.
Respondendo à tua primeira pergunta posso dizer-te que de facto não foi difícil juntar história, religião e ciência. Pelo contrário. Juntar estes três “ingredientes” foi muito fácil, porque se reparares bem a história também é religião e a religião também é ciência. O que foi difícil foi ligá-los entre si, como se de um puzzle se tratasse. Isso sim foi difícil. Exigiu muita pesquisa e abertura de espírito. Penso que essa abertura de espírito também é necessária para quem lê “A Guardiã”.


- A minha passagem preferida do livro acontece quando o demónio Kasbel revela o que sucede aos humanos quando chegam ao seu inferno. A Ana Cristina tem também alguma parte favorita?


Tenho. Adoro o capítulo da noite da festa em casa do Baltazar, porque aí o Michel (Miguel) revela o seu lado encantador e profundamente conhecedor das pessoas e do mundo. Ele é de facto um sedutor e eu ter-me-ia apaixonado por ele se estivesse no lugar da Luana. E adoro também toda a aventura na Jordânia. Senti-me lá, literalmente.

- Neste livro leva-nos a viajar por Portugal, Jordânia e Avalon. Para onde poderá levar-nos a seguir?

Bom, a seguir a história parou em New Orleans. Uma cidade também muito especial, cheia de mistério e sedução. É exactamente nessa cidade que a aventura de Luana é retomada, mas mais uma vez a Guardiã será levada a outras partes do mundo, como Londres por exemplo.


- Para quem já leu este seu primeiro livro, penso que há uma questão que se levanta no final: continuaremos a acompanhar estórias do Michel... ou da própria Guardiã?


Sim. Eu continuo nesta relação muito íntima com eles e sei que a Luana, o Miguel e o Gabriel têm ainda muito o que contar.


- Falando agora de outros livros. O que tem lido ultimamente? O que nos sugere?


Tenho tentado ler sobretudo autores portugueses. Tive o privilégio de conhecer nos últimos meses bons autores portugueses, que estão no início das suas carreiras. Filipe Vieira Branco , MBarreto Condado, Luís Ferreira, Pedro Santos Vaz, Paulo Caiado e Rui Calisto e li outros já mais conhecidos e aclamados como José Luís Peixoto e Luís Miguel Rocha, por exemplo. Todos eles, mais ou menos conhecidos, são autores ao nível da excelência e que eu recomendo com muita convicção. Sugiro 1 livro em particular: Yggdrasil, Profecia do Sangue de MBarreto Condado. É uma autora que vale a pena descobrir, sobretudo para os amantes do Fantástico que são cada vez mais. E correndo o risco de parecer que estou a dar graxa sugiro também o teu. “O Dia em que Nasci” de Filipe Vieira Branco. Acho que é absolutamente imperioso apoiar os novos autores. Temos muitos que são muito bons. Tal como tu e o Luís Ferreira que escreveu também uma história belíssima à volta do caminho de Santiago. “Entre o Silêncio das Pedras” é pois, mais um livro que eu recomendo.


- E dentro do género fantástico, onde podemos inserir o seu livro, tem algum autor favorito?

Tenho. Em português, um autor já com provas dadas, Filipe Faria e a autora que já referi, MBarreto condado. Ela tem uma história fabulosa no livro “Yggdrasil, Profecia do Sangue”. Lá por fora, claro que me rendo ao Tolkien e a George R.R.Martin mas não posso deixar de fora a maravilhosa Marion Zimmer Bradley. Quem leu “ As Brumas de Avalon” sabe exactamente de quem estou a falar.


- Se o livro "A Guardiã" fosse adaptado ao cinema, que actriz gostaria de ver no papel de Luana?


Essa é a pergunta verdadeiramente fantástica. Seria necessário muito mais do que escrever a melhor história de sempre para que algo assim pudesse acontecer. Seria preciso antes de mais que este livro tivesse uma visibilidade que como sabemos, dadas as condicionantes do mercado, não tem. Mas se porventura isso acontecesse eu gostaria de ver a Keira Knightley no papel de Luana e se falarmos em actrizes portuguesas, então a minha escolha recairia sobre a Sofia Ribeiro. E vivam os sonhos. 





- E já agora, que actores poderiam dar vida aos arcanjos Gabriel e Miguel?

Atendendo às características físicas dos dois arcanjos, Ben Stiller ou Keanu Reeves no papel de Miguel e Jude Law no de Gabriel. Em português Paulo Pires a dar vida ao Gabriel e o charmosíssimo Filipe Duarte a encarnar o Arcanjo Miguel, seria perfeito. Mais uma vez: Vivam os sonhos! 


- O futuro passa pela publicação de outro livro? Que projectos pode revelar?


Não faço a mínima ideia por onde passa o futuro. Eu gostaria muito de voltar a publicar. Sei que vou continuar a escrever, isso sem qualquer dúvida, até porque preciso de o fazer para me sentir viva. Quanto a futuras publicações, há muitos factores a equacionar. Hoje tenho comigo a Capital Books que fez um trabalho excelente na edição e que me proporcionou entrar nesta aventura de levar o que eu escrevo a mais leitores. Tem sido uma experiência muito boa, muito interessante e nem por um segundo me arrependo. Mas quando se fala do futuro, não se pode falar com certezas. O futuro a Deus pertence, não é assim? 
E já agora só para terminar quero dizer-te, Filipe, que te desejo toda a sorte e sucesso do mundo. A ti e a todas as pessoas que trabalham e acreditam no seu trabalho. Obrigada.

Saturday, 19 September 2015

Xénos+phobos





Quando, há precisamente dois dias atrás, um amigo com quem falava no Facebook me desejou um bom Domingo e eu, incrédula corri a abrir o calendário para me certificar de que afinal, não era quarta nem quinta-feira como pensava,me apercebi de que os últimos dias me catapultaram para uma espécie de realidade paralela, desgastante e doentia que me fez perder a noção do tempo.
Adormeço e acordo a pensar em refugiados e agradeço por neste preciso momento ser apenas uma cidadã, uma entre milhões de pessoas por esse mundo fora que não têm sobre os ombros a difícil tarefa de decidir.
Mas não ter o poder (e o poder aqui é uma maldição),para alterar o destino de milhões de pessoas, não é o mesmo que não ter opinião sobre o assunto e expressá-la. Faço-o no Facebook , em casa e no café, mas só nestas salas virtuais onde se trocam ideias com conhecidos e desconhecidos se usa e abusa do termo XENOFOBIA. “xénos” e “phóbos” , palavras gregas que significam estrangeiro e medo, respectivamente. Portanto, xenofobia é o medo de estrangeiros. A quem usa e abusa do termo, só tenho a dizer que em lado nenhum se consideram xenófobas as atitudes associadas a conflitos ideológicos, choque de culturas ou mesmo motivações políticas.
Já referi várias vezes os perigos que nos espreitam quando permitimos que uma cultura diferente se torne a maioria dominante. Se olharmos para a história, ao longo dos tempos as civilizações têm gozado de um “curto” espaço de tempo para permanecerem intocáveis no mundo. Elas são invariavelmente substituídas por outras que as invadem, ocupam, combatem, evangelizam e alteram radicalmente. E para sempre. É pois, muito provável que esteja a chegar a nossa vez. Isto acontecerá na Europa. Não tenhamos dúvidas. A questão não é como, é quando. Abrir as fronteiras a mais e mais pessoas que vêm de culturas opostas à nossa, só acelerará o processo.
Não há por isso nenhuma xenofobia a comandar-nos no que aos refugiados da Síria diz respeito. O que há é um medo, enraizado por séculos e séculos de história, de sermos condenados à extinção. Receamos, penso eu, a extinção da cultura europeia mais do que a extinção do povo europeu. Isto é legítimo. E a legitimidade é tanto maior, quanto maiores forem as diferenças entre a cultura que “somos” e a que nos quer invadir.

Com todos os argumentos válidos sobre a nossa própria escassez material, estaríamos nós assim tão preocupados se os refugiados da guerra viessem do país ao lado? Ou da Suécia ou do Brasil, ou até mesmo do Japão? Penso que não. O problema de quem se manifesta a favor de fechar portas a estas pessoas que como nós são de carne e osso, nada tem a ver com as pessoas em si, mas sim com a sua ideologia. Porque ainda que não seja impossível sermos ocupados por espanhóis, ou suecos ou brasileiros, (qualquer povo em maioria se torna dominante), a ideologia islâmica é hostil e por ser tão hostil nem entre eles há entendimento. As mínimas diferenças entre os vários ramos do Islão são para eles abissais e intransponíveis.
É pois a ideologia que frequentemente constrói muros entre as pessoas, porque efectivamente e contrariando o ideal de Esquerda e também da extrema-direita, (meus amigos, que linda que é a palavra IGUALDADE!), quando se trata de pessoas ela é só uma palavra, porque as pessoas são todas DIFERENTES.
De Stalin a Mussolini, de Hitler a Abu Bakr, de Kim Jong (Un e Il), a Ayman al-Zawahiri, todos desejaram e desejam o mesmo: IGUALDADE. E vejam o que aconteceu e acontece a quem aos seus olhos era e é diferente. Todos eles apoiados por uma utopia estúpida e irracional de levar a justiça da igualdade aos quatro cantos do mundo, cometeram e cometem ainda a maior injustiça de todas que é: NÃO RESPEITAR AS DIFERENÇAS.
É pois, impossível levar a justiça da igualdade aos quatro cantos do mundo porque nem o mundo é quadrado, nem a igualdade é justa, nem as utopias são exequíveis.
E sim, encontraremos a paz quando todos formos capazes de dar a mão sem entregar a alma e de pedir um abrigo sem tomar a casa.

Ana Cristina Pinto

Tuesday, 15 September 2015

E ainda a propósito...



 ...destes dias conturbados, mais um excerto do Livro de Jade do Céu. Os protagonistas, Luana e Michel chegam a Amã, capital da Jordânia.

"À saída do aeroporto, Michel avançou carregando a sua própria bagagem e outra mala menor que Luana decidira levar com algumas ferramentas necessárias para a escavação. O Arcanjo caminhava com passos apressados e só parou na primeira banca de publicações que encontrou. Depois de comprar o Al Fajhr, um jornal palestiniano, esperou pacientemente por Luana e Gabriel. Mais fascinados com o mundo novo que se abria em frente dos seus olhos, do que apressados para chegar ao hotel, acabaram por ficar para trás.
– É tão urgente assim saber as notícias locais? – perguntou a Guardiã aproximando-se de Michel.
– É bom saber com o que podemos contar – respondeu o Arcanjo, dando uma vista de olhos pelas páginas centrais.
– E quais são as principais notícias? – voltou a indagar curiosa.
– Fala sobre alguns acontecimentos que marcaram o ano. A onda de violência que varre a região do Oriente Médio, não vai ser esquecida tão cedo. A Primavera Árabe ainda está longe dos seus ideais.
– Pois. Não é fácil esquecer. A Síria, por exemplo, está assolada pela guerra civil. O presidente Bashar Al-Assad segue com promessas de esmagar o inimigo com mão de ferro. Os civis são alvos em todo o país. Agora não sei quantos são, mas não há muito tempo li uma notícia que dava conta de mais de 500 mil refugiados e mais de 40 mil mortos.
– Não há cessar-fogo, nem acordo de paz, Luana. O conflito extrapolou as fronteiras e tanto a Síria como a Turquia estremeceram. A Rússia e a China são grandes aliados do governo, mas outras 100 nações reconhecem que a oposição é a legítima representante do país. – referiu o Arcanjo.
Continuaram parados em frente um do outro na beira do passeio. Durante uma breve fracção de segundos, os seus olhares cruzaram-se e deixaram escapar a paixão que os invadira na véspera. Contudo, cientes de que não podiam deixar que Gabriel percebesse o amor que os unia, optaram por disfarçar, desviando os olhares para o espaço circundante na tentativa de descobrirem Gabriel. Avistaram-no alguns metros à frente, a tentar fazer parar um táxi. Baixaram então de novo os olhos para as páginas do jornal.
– E como se isso não bastasse, o Irão teima em seguir com o seu programa nuclear. Se bem me lembro, até já ameaçou um navio de guerra americano e fez testes com mísseis no estreito de Ormuz – referiu Michel resignado à necessidade de esconder os seus sentimentos.
– Este foi um ano de atentados devastadores no Iraque, no Líbano e no Afeganistão, mas a Primavera Árabe dá alguns sinais, Michel. O golpe de Estado no Iémen pôs fim a três décadas de poder de Ali Saleh. Na Tunísia, o ex-ditador Ben Ali foi condenado à prisão perpétua, a mesma punição de Hosni Mubarak. E o ex-presidente do Egipto chegou a ter a morte anunciada.
– Mas não confirmada – ripostou ele.
– É verdade. E enquanto tudo isso, na Praça Tahir, no coração do Cairo, os protestos foram uma constante este ano – relembrou Luana.
– Os egípcios entraram em 2012 a exigir a saída dos militares do poder. Nas eleições, elegeram Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, mas ele enfrenta uma crise após a outra. Ainda é frágil a democracia no país.
– Hum... e pelo que vejo aí também é frágil o cessar-fogo entre Israel e a Autoridade Palestiniana – constatou ela, dobrando a folha do jornal para conseguir ler melhor a notícia. – Por isso é que este ano, a escalada de provocações já vai com um ataque aéreo fulminante. O líder militar do Hamas foi morto na Faixa de Gaza e o que está a suceder deixa o mundo assustado.
– E há razões para isso. Mas vê bem a votação histórica na ONU: a Palestina foi elevada a estado observador. Contudo, receio bem que este ano vá chegar ao fim com as mesmas velhas dúvidas. – São também as minhas dúvidas, Michel. A paz virá algum dia? –
perguntou Luana contemplativa.
– Acredito que sim. Tu não?
– Espero que sim. Talvez aconteça um milagre e os governantes dos países em conflito ganhem juízo e comecem finalmente a fazer aquilo para que realmente foram eleitos: cuidar do povo que os elegeu". 




In "A Guardiã- O Livro de Jade do Céu"